Se você esteve ativo nas redes sociais nos últimos meses, certamente está cansada de ouvir o termo “performático”. O que começou como uma forma satirizada de identificar homens que buscam, a todo custo, parecer profundos e sensíveis — seja exibindo o gosto musical “refinado” ou o estilo “singular”, com a intenção de chamar atenção feminina — rapidamente viralizou e acabou se tornando algo muito maior.
Ao dominar a timeline, esse comportamento trouxe também uma percepção incômoda: as pessoas parecem cada vez menos genuínas. De repente, gestos simples do cotidiano passaram a soar ensaiados: a mesa de bar conceitual no feed, o livro estrategicamente aberto numa cafeteria, a estética calculada. Tudo é sempre planejado para compor uma persona criada para atrair mais e mais olhares.
Agora, a performance parece ter deixado de ser uma simples piada na internet, para virar a nova forma de existir. Diante de tanta curadoria de si, fica difícil ignorar a sensação de que talvez algo mais profundo esteja em jogo. É possível que o medo de ser comum esteja tomando conta de nossas vidas?
A MORTE DA ESPONTANEIDADE
O filósofo Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como um modelo social, onde o “parecer” se sobrepõe ao “ser” e ao “ter”. Para Debord, no capitalismo moderno, as pessoas passam a funcionar como mercadorias-espetáculo: tudo é apresentado como imagem e assim, as aparências ganham mais peso do que a própria vivência. Essa valorização pelas imagens acaba empobrecendo as relações sociais, e consequentemente, corroendo a autenticidade individual.
Diante disso, a psicanalista Camila Menezes, aponta: ”Atualmente, a sociedade anseia por pequenos espetáculos diários. Há frames de tudo o que se faz. Se eu tomo café num copo plástico, por exemplo, e posto isso, será que terei ‘tantos’ likes? (…) Há um misto de ansiedade por validação e medo de ser irrelevante”.
Filtros, poses, cortes e recortes. Nada é espontâneo na era da edição. Ao analisar como as plataformas virtuais ditam a maneira como nos apresentamos ao mundo contemporâneo, a psicóloga Mariane Marchetti, especializada em terapia cognitivo-comportamental, revela a principal motivação dessas performances:
“As redes sociais criaram uma vitrine constante, onde cada gesto, fala ou aparência, pode ser observada e avaliada. Performar acaba sendo uma forma de tentar controlar essa percepção (…) É como se, inconscientemente, estivéssemos dizendo: ‘Olha, eu estou bem, eu sou interessante e mereço estar aqui.’ ”
Hoje, tudo o que fazemos parece ser milimetricamente pensado para ser visto, fotografado e publicado. Se antes vivíamos, agora precisamos provar que estamos vivendo. Mariane ressalta: “Vivemos num ambiente em que tudo pode ser medido e comparado, até a autenticidade acaba virando uma performance”.
A preocupação então, se volta para parecer espontâneo: ganha mais likes aquele que entregar estética, exalar personalidade mas jamais demonstrar estar tentando. Ser “Effortlessly Cool” (descolado sem esforço) é o grande objetivo do momento. Mas até que ponto o desejo de mostrar-se natural não vira, ele mesmo, um novo esforço?
IT GIRLS E A PADRONIZAÇÃO GLOBAL
O avanço da globalização permitiu que a comunicação entre pessoas de diferentes lugares do planeta se tornasse trivial. Todos os sete continentes estão a um clique de distância e as informações nunca correram tão rápido: a tendência que ontem nascia em Nova York, hoje já é moda em São Paulo e amanhã será ultrapassada no mundo inteiro.
Acontece porém, que esse fluxo intenso de trocas, abriu espaço para a homogeneização de toda uma geração. O fenômeno é visível: meninas de 12 a 17 anos reproduzem os mesmos gestos, looks e falas das chamadas “It Girls” da atualidade.
Quando há milhões de estímulos, e símbolos dispersos circulando online, fica difícil saber quem ou o que acompanhar. Por isso, muitas jovens acabam se espelhando nas influenciadoras de maior sucesso do momento, que costumam importar tendências norte-americanas e vender o lifestyle dos sonhos: roupas estilosas, maquiagens caras, festas, viagens e popularidade.
O resultado disso é um padrão “copia e cola” que se espalha mundo afora. Frases como “todo mundo está igual hoje em dia” são cada vez mais corriqueiras, e infelizmente, verdadeiras. A calça que sua blogueira favorita postou há dois dias está esgotada em todo o site. O tutorial de maquiagem, que é novidade no perfil, deve aparecer no rosto de metade das garotas. Quando foi que viramos especialistas em seguir moldes?
Segundo Mariane Marchetti, essa urgência em referenciar figuras populares vai além da simples busca por inspiração: “Quando a autoestima é frágil, seguir modelos dá a sensação de segurança e aprovação”, ela explica.
“O ser humano é um ser social, a gente se reconhece através do outro. Nas redes, esse movimento de identificação ganha uma escala muito maior. Os algoritmos reforçam o que é popular, criando uma sensação de que existe um “jeito certo” de ser. Para os adolescentes, especialmente, isso é muito potente (…) Se encaixar vira quase uma necessidade emocional”, diz a psicóloga.
O MEDO DE PARECER “CHATO”
Em meio a um mar de mesmices, surge também a vontade de se destacar — conhecer músicas e bandas inéditas, frequentar “bares secretos”, possuir discos raros, praticar hobbies exóticos. Vale qualquer coisa para ser (ou parecer) único.
Esse anseio por autenticidade e o fetiche pelo underground revelam o novo pecado capital da geração Z: o tédio. Para muitos, ser ordinário soa quase como um fracasso de branding pessoal. E para esses, o “normal” lê-se como entediante e chato. Logo, ser “básico” torna-se um medo coletivo. Não é por acaso. A psicóloga Mariane Marchetti detalha a lógica por trás disso:
“Esse medo nasce da crença de que o nosso valor está no quanto somos especiais ou diferentes. Só que, na verdade, a autoestima saudável não depende de destaque, e sim da aceitação. Quando a pessoa se sente suficiente como é, ela não precisa provar o tempo todo que é interessante. O ‘comum’ deixa de ser um problema e passa a ser uma parte natural da vida. Até porque, no fundo, todos nós somos comuns em vários aspectos e isso não diminui ninguém.”
Acontece que hoje, a ideia de ser “interessante” se torna uma nova forma de status social. Desperta-se então a vontade de ser você a referência: despretensiosamente estiloso, “mais culto”, “mais criativo”, diferente dos demais. Aquele que lança tendências, e não quem apenas as segue. Porém, é nesse momento que cria-se um ciclo vicioso. É o que observa a psicóloga psicanalista Camila Menezes:
“Tanta exposição só aumenta a busca por validação. Antes, a gente queria sair bem na foto do aniversário, uma vez ao ano. Agora, queremos sair bem dando “bom dia” nos stories todas as manhãs”, afirma Camila. “(…) Acabamos focando mais em agradar o mundo digital do que quem está na nossa frente. Não estar presente em momentos reais é uma forma de abandono significativa. As relações ficam frágeis e isso só aumenta o desejo por autenticidade”, conclui.
Quanto maior o medo de parecer irrelevante, mais intensa se torna a necessidade de performar uma versão “interessante” de si. E quanto mais se performa, mais distante se fica da própria personalidade. A originalidade, então, deixa de ser uma expressão natural e passa a ser uma encenação para a plateia. É justamente nesse esforço constante para escapar do “comum” que muitos acabam perdendo de vista quem realmente são.
COMO VOLTAR AO GENUÍNO?
Por mais que pareça difícil, encerrar esse ciclo é possível. Recuperar a autenticidade não exige desaparecer das redes nem adotar um discurso “anti-performance”. Mas sim retornar a si próprio e abraçar o “básico”: sustentar os próprios gostos, aceitar as próprias contradições e não medir cada gesto pelo olhar do outro. Ainda que a lógica das tendências dite um ritmo, não devemos esquecer da importância de respeitar as nossas vontades.
Menezes explica que romper com esse ritual de auto exibicionismo começa por resgatar a presença: “Aceitar que a vida não é feita de momentos estéticos é uma maneira de se cuidar. É importante estar presente nas coisas que você se propõe a fazer, como por exemplo ir a um show e apenas assistir ao show — Não gravar, não tirar fotos, mas viver aquele momento — Falta interação real, e é ela que reforça o pertencimento de verdade.”
Na era da performance, apenas viver já é um ato de revolução. Recuperar o direito de existir para si, talvez seja a atitude mais corajosa em um mundo que tenta constantemente impor como devemos existir. Assim como aponta a Marchetti: “Viver com menos performance é voltar a habitar a própria vida. Quando a gente se permite ser imperfeito, contraditório, e humano, a autenticidade acontece naturalmente, sem precisar ser anunciada.”
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O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.
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