O mundo contemporâneo vive uma realidade que conta com um grande fluxo de informações a todo momento, e a ascensão das redes sociais têm afetado cada vez mais a forma como a juventude consome e espalha informação. No período de 2020 a 2024, houve uma queda de 6,7 milhões de leitores no Brasil; dentre os motivos do declínio do consumo literário está a preferência por outras atividades, sendo a principal o consumo de conteúdos nas redes sociais. Essa escolha deriva de uma lógica de “rapidez”, sutilmente imposta pela popularização crescente das redes sociais e do excesso de estímulos que essa prática causa.
A predominância da mídia instantânea e o bombardeio de informações generalizadas diante das demais fontes de informação tem causado uma dificuldade crescente de concentração, interpretação e aprofundamento crítico entre estudantes. Essa realidade traz impactos em todos os campos da educação, permeando dificuldades na formação crítica de estudantes, mas também na adaptação pedagógica e educacional, o que exige uma reconfiguração das instituições acadêmicas.
A Importância da leitura na formação do pensamento crítico
O ambiente acadêmico sempre esteve profundamente relacionado à prática da leitura como principal fonte de busca de informações e bases científicas e educacionais. As práticas de leituras profundas e longas apresentam-se como um exercício de racionalidade necessário aos estudantes, devido às características pensamento racional, o qual depende de concentração, reflexão e de detalhamentos lógicos e aprofundados. Diferentemente da lógica fragmentada das redes sociais, a leitura exige permanência, interpretação e construção gradual de sentido, sendo capaz de estimular capacidades cognitivas fundamentais para a formação crítica, como análise, argumentação e questionamento.
Segundo a editoria de saúde da revista da PUCRS, o processo de leitura também auxilia no desenvolvimento de diversas novas habilidades e na saúde mental da população. O estudo afirma que o hábito de leitura é comprovadamente um alavancador da qualidade de saúde mental, já que exige imaginação, mentalização, antecipação e aprendizagem. A leitura, ainda, é capaz de reduzir os níveis de estresse, evidenciando um fator positivo em contraste ao consumo abrupto de conteúdos de redes sociais, que frequentemente trazem como consequência sentimentos de estresse e ansiedade.
O repertório intelectual também é um aspecto importante na formação universitária e está profundamente ligado a leituras analíticas e aprofundadas, além de ser uma das bases da formação do pensamento racional. Através desse repertório amplia-se a capacidade de interpretar o mundo a partir de diferentes perspectivas históricas, sociais, filosóficas e culturais. As mídias, à sua forma, também são capazes de proporcionar um repertório intelectual aos seus consumidores. No entanto, a prática de leitura frequentemente propõe um aspecto histórico mais amplo e fiel, e que, além disso, dá base a qualquer produção de conteúdo midiático, seja ele instantâneo ou aprofundado.
Os impactos da midiocracia
A predominância da mídia em relação aos meios mais tradicionais de obtenção de informações afeta diretamente a forma como jovens universitários processam informação. A constante exposição a conteúdos curtos, vídeos acelerados e estímulos sucessivos pode dificultar a manutenção da atenção prolongada, habilidade essencial para pesquisas acadêmicas, leituras científicas e desenvolvimento de pensamento analítico.
Nesse caso, a queda percentual da prática de leitura significa também a queda de algumas capacidades cognitivas essenciais ao pensamento racional, como a capacidade de concentração, não só em leituras, mas em qualquer atividade que exija um ritmo desacelerado e que demande tempo de aprendizado ou de realização, além de também sinalizar dificuldades na compreensão de temas mais detalhados. Esses impactos geram uma crise bem caracterizada e nomeada: o analfabetismo funcional. Segundo a Organização das Nações Unidas, para a educação, o cenário de analfabetismo funcional engloba indivíduos que conseguem ler e escrever frases simples, porém, tem um declínio significativo na atividade de leitura e escrita, em nível abaixo do necessário para a vida cotidiana.
De acordo com a neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, em entrevista para a BBC News, os hábitos digitais demasiados têm causado um certo tipo de “atrofia” em algumas habilidades cognitivas comuns, como no caso da leitura. Essa atrofia possui como origem, o excesso de uso de telas desde a primeira infância até a vida adulta. Para reverter esse caso, é necessário um tipo de “reeducação” da leitura, para torná-lá um hábito novamente, já que, em si, a leitura não é um tipo de aspecto biológico humano, e sim aprendida ou adquirida com o passar do tempo e com a prática.
Como é possível voltar a estimular a prática de leitura?
A retomada da prática de leitura, contudo, não deve passar por qualquer tipo de “imposição”, mas por uma reconstrução de vínculo com os materiais literários. A criação de hábitos gradativos e mais alinhados aos interesses pessoais do leitor pode ser um grande passo na retomada do ritmo de leitura tradicional, e assim, o leitor pode desvencilhar-se da ideia de “rigidez” ou de “leitura por obrigação”. O costume de reservar pequenos intervalos de lazer durante o dia para dedicar a leitura também é ideal. Além disso, é importante trabalhar na redução das distrações digitais nesse período e, com isso, optar sempre pela leitura oriunda de mídias físicas ao invés de aparelhos digitais.
A diversificação de conteúdos também pode ajudar não só na retomada do hábito como também na aquisição de novos conhecimentos: transitar entre as leituras de literatura tradicional, reportagens, ensaios, textos jornalísticos e demais conteúdos é completamente bem-vindo e traz dinamismo ao processo de readaptação, o que também ajuda a fugir da lógica de rigidez.
Por último, a criação de metas – relacionadas ou não ao calendário acadêmico de cada um – pode ser um impulsor para a construção dessa rotina. Se criadas de maneiras realistas, podem trazer de volta a sensação rotineira do hábito, integrando-o no dia a dia de forma leve e natural.
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O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.
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