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Original photo by Pietra Sábia
Casper Libero | Culture

A crise da leitura na era da midiocracia: Como as mídias digitais têm afetado a formação crítica de universitários?

Eloá Costa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

O mundo contemporâneo vive uma realidade que conta com um grande fluxo de informações a todo momento, e a ascensão das redes sociais têm afetado cada vez mais a forma como a juventude consome e espalha informação. No período de 2020 a 2024, houve uma queda de 6,7 milhões de leitores no Brasil; dentre os motivos do declínio do consumo literário está a preferência por outras atividades, sendo a principal o consumo de conteúdos nas redes sociais. Essa escolha deriva de uma lógica de “rapidez”, sutilmente imposta pela popularização crescente das redes sociais e do excesso de estímulos que essa prática causa.

A predominância da mídia instantânea e o bombardeio de informações generalizadas diante das demais fontes de informação tem causado uma dificuldade crescente de concentração, interpretação e aprofundamento crítico entre estudantes. Essa realidade traz impactos em todos os campos da educação, permeando dificuldades na formação crítica de estudantes, mas também na adaptação pedagógica e educacional, o que exige uma reconfiguração das instituições acadêmicas.

A Importância da leitura na formação do pensamento crítico

O ambiente acadêmico sempre esteve profundamente relacionado à prática da leitura como principal fonte de busca de informações e bases científicas e educacionais. As práticas de leituras profundas e longas apresentam-se como um exercício de racionalidade necessário aos estudantes, devido às características pensamento racional, o qual depende de concentração, reflexão e de detalhamentos lógicos e aprofundados. Diferentemente da lógica fragmentada das redes sociais, a leitura exige permanência, interpretação e construção gradual de sentido, sendo capaz de estimular capacidades cognitivas fundamentais para a formação crítica, como análise, argumentação e questionamento.

Segundo a editoria de saúde da revista da PUCRS, o processo de leitura também auxilia no desenvolvimento de diversas novas habilidades e na saúde mental da população. O estudo afirma que o hábito de leitura é comprovadamente um alavancador da qualidade de saúde mental, já que exige imaginação, mentalização, antecipação e aprendizagem. A leitura, ainda, é capaz de reduzir os níveis de estresse, evidenciando um fator positivo em contraste ao consumo abrupto de conteúdos de redes sociais, que frequentemente trazem como consequência sentimentos de estresse e ansiedade.

O repertório intelectual também é um aspecto importante na formação universitária e está profundamente ligado a leituras analíticas e aprofundadas, além de ser uma das bases da formação do pensamento racional. Através desse repertório amplia-se a capacidade de interpretar o mundo a partir de diferentes perspectivas históricas, sociais, filosóficas e culturais. As mídias, à sua forma, também são capazes de proporcionar um repertório intelectual aos seus consumidores. No entanto, a prática de leitura frequentemente propõe um aspecto histórico mais amplo e fiel, e que, além disso, dá base a qualquer produção de conteúdo midiático, seja ele instantâneo ou aprofundado.

Os impactos da midiocracia

A predominância da mídia em relação aos meios mais tradicionais de obtenção de informações afeta diretamente a forma como jovens universitários processam informação. A constante exposição a conteúdos curtos, vídeos acelerados e estímulos sucessivos pode dificultar a manutenção da atenção prolongada, habilidade essencial para pesquisas acadêmicas, leituras científicas e desenvolvimento de pensamento analítico.

Nesse caso, a queda percentual da prática de leitura significa também a queda de algumas capacidades cognitivas essenciais ao pensamento racional, como a capacidade de concentração, não só em leituras, mas em qualquer atividade que exija um ritmo desacelerado e que demande tempo de aprendizado ou de realização, além de também sinalizar dificuldades na compreensão de temas mais detalhados. Esses impactos geram uma crise bem caracterizada e nomeada: o analfabetismo funcional. Segundo a Organização das Nações Unidas, para a educação, o cenário de analfabetismo funcional engloba indivíduos que conseguem ler e escrever frases simples, porém, tem um declínio significativo na atividade de leitura e escrita, em nível abaixo do necessário para a vida cotidiana.

De acordo com a neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, em entrevista para a BBC News, os hábitos digitais demasiados têm causado um certo tipo de “atrofia” em algumas habilidades cognitivas comuns, como no caso da leitura. Essa atrofia possui como origem, o excesso de uso de telas desde a primeira infância até a vida adulta. Para reverter esse caso, é necessário um tipo de “reeducação” da leitura, para torná-lá um hábito novamente, já que, em si, a leitura não é um tipo de aspecto biológico humano, e sim aprendida ou adquirida com o passar do tempo e com a prática.

Como é possível voltar a estimular a prática de leitura?

A retomada da prática de leitura, contudo, não deve passar por qualquer tipo de “imposição”, mas por uma reconstrução de vínculo com os materiais literários. A criação de hábitos gradativos e mais alinhados aos interesses pessoais do leitor pode ser um grande passo na retomada do ritmo de leitura tradicional, e assim, o leitor pode desvencilhar-se da ideia de “rigidez” ou de “leitura por obrigação”. O costume de reservar pequenos intervalos de lazer durante o dia para dedicar a leitura também é ideal. Além disso, é importante trabalhar na redução das distrações digitais nesse período e, com isso, optar sempre pela leitura oriunda de mídias físicas ao invés de aparelhos digitais.

A diversificação de conteúdos também pode ajudar não só na retomada do hábito como também na aquisição de novos conhecimentos: transitar entre as leituras de literatura tradicional, reportagens, ensaios, textos jornalísticos e demais conteúdos é completamente bem-vindo e traz dinamismo ao processo de readaptação, o que também ajuda a fugir da lógica de rigidez.

Por último, a criação de metas – relacionadas ou não ao calendário acadêmico de cada um – pode ser um impulsor para a construção dessa rotina. Se criadas de maneiras realistas, podem trazer de volta a sensação rotineira do hábito, integrando-o no dia a dia de forma leve e natural.

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O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.

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Eloá Costa

Casper Libero '28

Eloá Costa is a stage actress, artist, journalism and language student. She enrolled in journalism at Cásper Líbero in 2025, and in language studies at USP in 2026. Eloá is highly interested in linguistics, politics, art and culture. In 2025, she became a Chapter Board Member at Her Campus Cásper Líbero.