Hoje, 18 de maio, celebra-se no Brasil o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Instituída por profissionais da saúde no II Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental em 1987, a data convida a sociedade a lembrar e refletir sobre a importância dos direitos e respeito às pessoas em sofrimento psíquico.
A luta antimanicomial teve início ainda na década de 1970, época em que os hospitais psiquiátricos se resumiam a ambientes insalubres e violentos. Tais instituições não ofereciam tratamentos necessários e dignos aos seus internos, isolando-os totalmente da sociedade e reforçando o estigma de que o sofrimento mental deveria ser silenciado e escondido, jamais cuidado.
Insatisfeitos com essa realidade cruel, trabalhadores da saúde passaram a defender, por meio de movimentos sociais, que o cuidado da saúde mental deve ser feito em liberdade, longe de qualquer isolamento e violações de direitos humanos básicos.
Pioneirismo de nise da silveira
Pioneira na luta antimanicomial no Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira foi a principal voz em defesa do tratamento humanizado, buscando assim diferentes formas de terapias. Nascida em 1905 em Maceió, Nise revolucionou a psiquiatria da época, combateu métodos agressivos — como o eletrochoque e a lobotomia — e introduziu ferramentas inovadoras centradas no afeto, como a terapia ocupacional, a música e a pintura. Recursos amplamente utilizados nos dias de hoje.
Em um período de sua vida, Nise se mudou para o Rio de Janeiro , onde iniciou o seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional (no Engenho de Dentro). Foi ali que a brasileira, horrorizada pela maneira de tratamento oferecida aos pacientes, desenvolveu o seu olhar humano sobre a saúde mental.
Diferente da conduta médica tradicional da época, ela procurou compreender com profundidade os seus pacientes, os quais gostava de chamar de “clientes”. Assim, Nise foi a primeira a enxergar além do diagnóstico se aproximando de seus clientes, descobrindo a sensibilidade e subjetividade de cada um deles.
A psiquiatria para mim é um estudo profundo do ser. Nunca concordei com o conceito de doença mental denunciado como crônica. Eu os vejo capazes de finuras e nem todos nós somos capazes de finuras”
Nise da Silveira
O Holocausto Brasileiro : um retrato da desumanização nos hospitais psiquiátricos
O “Holocausto brasileiro”, livro-reportagem escrito pela jornalista Daniela Arbex, retrata detalhadamente o caso do Hospital Psiquiátrico Colônia, localizado na região de Barbacena em Minas Gerais.
Fundada em 1903, a instituição foi responsável por mais de 60 mil mortes. O Colônia funcionava como um centro de segregação social, destinado a isolar da sociedade pessoas consideradas “indesejáveis”. Com isso,a maioria de seus internos nem sequer apresentavam diagnóstico psiquiátrico. Eram homossexuais, pessoas em situação de rua, opositores políticos, alcoólatras e mulheres vítimas de abusos sexuais.
Além de apresentar péssima estrutura e superlotação, o hospital fazia uso de tratamentos violentos nos pacientes. Os castigos físicos iam desde banhos gelados punitivos até a aplicação de eletrochoques sem anestesia, causando sofrimento extremo e diversas mortes por problemas cardíacos.
A publicação do livro, em 2013, impulsionou ainda mais a luta por melhorias nos atendimentos psiquiátricos no país. A obra também serviu como forma de conscientizar a sociedade sobre os ocorridos, fazendo com que o caso ganhasse mais visibilidade, além de educar novas gerações sobre a importância de nunca esquecer o passado para não repeti-lo.
Do papel à prática: os avanços e os desafios na rede pública
Após décadas de mobilizações sociais por melhorias, foi apenas em 2001 que a luta antimanicomial obteve uma conquista. Foi neste ano em que o deputado Paulo Delgado sancionou a Lei 10.216 (Lei da Reforma Psiquiátrica), que garante a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, priorizando o tratamento humanizado.
Em entrevista, a psicóloga Renata Peixoto confirmou as melhorias que Nise de Silveira tanto defendeu : “Acredito que hoje o tratamento está bem mais humanizado e atualmente os profissionais também olham para o paciente. Há esse lado de cuidado humano, que é melhor para o paciente.”
No entanto, a profissional alerta que a estrutura pública ainda enfrenta dificuldades severas, como a qualidade do atendimento do CAPS- Centro de Atenção Psicossocial em caso de alta demanda. “Às vezes a coisa fica bonita no papel, mas no dia a dia é diferente.[…] vários pacientes são transferidos para o CAPS mas quando chegam lá não recebem o atendimento. Em algumas situações acaba tendo atendimento para o adulto, mas não tem para o adolescente, e nem para a criança.”
A luta antimanicomial ainda é necessária?
Mesmo que a reforma psiquiátrica já tenha proporcionado diversas mudanças nas formas de tratamento entre o profissional e o paciente, há algo fundamental que precisa ser mudado com urgência: a maneira de como os brasileiros enxergam os transtornos mentais.
Debater a saúde mental em nossa sociedade ainda esbarra em tabus profundos. “Muitos pacientes têm medo de falar sobre doença mental e se abrir para a sociedade, já que alguns imaginam que doença mental é loucura e não há maneiras de tratamento” diz Renata. A psicóloga enfatiza que o estigma social sabota diretamente a reabilitação, visto que o apoio e compreensão daqueles que estão ao redor dele é extremamente necessário para que haja uma melhora.
Renata Peixoto conclui que hoje, a estigmatização e o preconceito são os principais obstáculos para a inserção social das pessoas com transtornos mentais. Segundo ela, além do acompanhamento médico, é essencial que a sociedade esteja disposta a acolher essas pessoas com empatia, respeito e dignidade. A inclusão daqueles que se encontram em sofrimento psíquico necessita de auxílio da educação, do mercado de trabalho, e do apoio familiar, permitindo que eles sejam vistos muito além de qualquer diagnóstico.
Portanto, o 18 de maio nos lembra que a Luta Antimanicomial não se restringe a uma data no calendário. O movimento reforça, que além do tratamento médico é importante combater o preconceito em um exercício diário de desconstrução, garantindo por meio do acolhimento , que pessoas com transtornos mentais se sintam parte da sociedade e sejam tratadas com igualdade.
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O artigo acima foi editado por Laís Hidalgo.
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