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Casper Libero | Culture

A controvérsia entre o desperdício de alimentos e a fome mundial 

Giovanna Ghenaim Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Anualmente, são produzidos cerca de quatro bilhões de toneladas de alimentos para consumo humano. Entretanto, um terço, que equivale a mais ou menos um bilhão e trezentas toneladas, é desperdiçado ou perdido. Essa quantia poderia alimentar três bilhões de pessoas, o que é contraditório, pois de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), quase 800 milhões  de indivíduos passam fome e aproximadamente um terço da população sofre com insegurança alimentar. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as perdas estão localizadas nas fases de produção, colheita, armazenamento, embalagem e transporte, enquanto o desperdício se associa com o consumidor Isso é, faz parte das etapas pós-mercado de varejo e consumo. 

“nós comemos com os olhos”

Durante a produção e colheita, os motivos mais comuns dessa carência são as pragas na plantação, as condições climáticas; e a falta de conhecimento técnico do agricultor. O processo de armazenamento e transporte deve manter a qualidade do produto tanto na textura, sabor e cor, como nos nutrientes. As longas distâncias entre  a coleta e o mercado gera muita perda e para evitar que isso ocorra é preciso manter boas condições e qualidade nas instalações de armazenamento (refrigeramento) e um bom condicionamento durante o transporte.

Em relação ao consumidor, as maneiras de desperdício são mais abrangentes e ocorrem com maior frequência. “Uma vez nós recebemos uma carreta de melão porque eles estavam muito redondos e as pessoas compram melão oval. O melão estava perfeito, maravilhoso, mas ele não estava no padrão de consumo”, afirma a nutricionista da ONG Banco de Alimentos, Natália Rodrigues, 31.

Quando um determinado produto não está de acordo com o que o público consome, ele é rejeitado. É importante frisar que nem todo produtor doa esses alimentos, alguns preferem jogá-los fora para manter o preço alto.

Como diz o ditado, “nós comemos com os olhos” e os alimentos que não atendem a estética que queremos são deixados de lado. Natalia explica que temos tendência a escolher os mais bonitos, mais brilhantes, pois associamos que seja novo. Manchinhas, viscosidade e descoloração tornam a mercadoria indesejável. Mesmo com os mercados abaixando o valor para tentar vender, essas falhas pesam na escolha, fazendo com que o lixo ou as ONGs sejam os seus destinos. 

Durante feriados e datas comemorativas, por exemplo, é comum que tenhamos o pensamento de “é melhor sobrar do que faltar”, o que torna a produção de comida maior que o consumo e, muitas vezes, pela falta de planejamento e armazenamento correto, elas são descartadas. Isso mostra como o desperdício é culturalmente enraizado, e não apenas uma falha logística.

O desperdício inconsciente é bastante recorrente e é aquele que não é nem considerado desperdício, e sim incomestível. Exemplificando, quando fazemos um bolo de cenoura e retiramos a sua casca ou descascamos uma banana, você não enxerga esses envoltórios como algo comestível e então os descarta. 

“O aproveitamento integral dos alimentos, usando as partes não convencionais é visto como um preconceito e muitas pessoas nem sabem que podem aproveitar essas partes, então nem consideram como desperdício”, esclarece a jovem nutricionista Beatriz Thomaz, 24, da ONG Banco de Alimentos

Os maiores efeitos

“A maior consequência do desperdício é a fome, com certeza”, aponta Beatriz. Um país com grandes índices de fome perde seu poder de compra, aumenta a pobreza e a desigualdade nacional. Uma pessoa nessa situação pode ter sintomas como desnutrição, mal-estar físico e psicológico e até mesmo a morte. 

E essa não é a única consequência. O desperdício alimentar é  responsável por emitir de  8% a 10% de gases do efeito estufa, declara o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA). Esses gases geram  o aquecimento global, acarretando na perda da biodiversidade do planeta, mudanças climáticas e poluição dos ecossistemas. 

Algumas medidas para tentar amenizar essa situação estão em andamento, mas já tem previsão de falha. Em 2015, com o objetivo de apelar universalmente à erradicação da pobreza, proteção do planeta e garantir que a sociedade desfrutará de paz e prosperidade até 2030, foram criados os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ou Objetivos Globais. 

A ODS 12 trata do consumo e produção sustentável e tem como fim, reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita e perdas nas cadeias de produção até 2030.  Entretanto, a ONU liberou um relatório que prevê que apenas quatro países do G20, grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo mais a União Africana e União Europeia,  alcançarão a meta. São eles: Austrália, Estados Unidos, Japão, Reino Unido e União Europeia. 

Já a ODS 2, que é: “Fome zero e agricultura sustentável”, tem o objetivo de erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável. Esse propósito também caminha para a derrota, não pela falta de produção e sim por má transportação e desaproveitamento. Em entrevista para a CNN, o presidente Lula diz que a agenda de 2030 pode ser um fiasco porque já está acabando o tempo e ainda está distante de reduzir a desigualdade. 

As grandes organizações já estão se mexendo e tentando acabar com esse problema, ainda assim, o trabalho precisa ser em conjunto com a população. A melhor forma para combatermos essa situação, é com a conscientização da sociedade. E, para as educadoras Natália Rodrigues e Beatriz Thomaz: 

“A conscientização, a educação alimentar, estudar os benefícios daquele alimento como um todo e as pessoas se reconectarem com a comida, voltando a cozinhar ao invés de pedir comida pelo aplicativo, fará com que enxerguem o potencial máximo do alimento.”

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O artigo acima foi editado por Clara Rocha.

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Giovanna Ghenaim

Casper Libero '28

Journalism student at Cásper Líbero University, passionate about fashion, entertainment, travel and sports.