Anualmente, são produzidos cerca de quatro bilhões de toneladas de alimentos para consumo humano. Entretanto, um terço, que equivale a mais ou menos um bilhão e trezentas toneladas, é desperdiçado ou perdido. Essa quantia poderia alimentar três bilhões de pessoas, o que é contraditório, pois de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), quase 800 milhões de indivíduos passam fome e aproximadamente um terço da população sofre com insegurança alimentar.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as perdas estão localizadas nas fases de produção, colheita, armazenamento, embalagem e transporte, enquanto o desperdício se associa com o consumidor Isso é, faz parte das etapas pós-mercado de varejo e consumo.
“nós comemos com os olhos”
Durante a produção e colheita, os motivos mais comuns dessa carência são as pragas na plantação, as condições climáticas; e a falta de conhecimento técnico do agricultor. O processo de armazenamento e transporte deve manter a qualidade do produto tanto na textura, sabor e cor, como nos nutrientes. As longas distâncias entre a coleta e o mercado gera muita perda e para evitar que isso ocorra é preciso manter boas condições e qualidade nas instalações de armazenamento (refrigeramento) e um bom condicionamento durante o transporte.
Em relação ao consumidor, as maneiras de desperdício são mais abrangentes e ocorrem com maior frequência. “Uma vez nós recebemos uma carreta de melão porque eles estavam muito redondos e as pessoas compram melão oval. O melão estava perfeito, maravilhoso, mas ele não estava no padrão de consumo”, afirma a nutricionista da ONG Banco de Alimentos, Natália Rodrigues, 31.
Quando um determinado produto não está de acordo com o que o público consome, ele é rejeitado. É importante frisar que nem todo produtor doa esses alimentos, alguns preferem jogá-los fora para manter o preço alto.
Como diz o ditado, “nós comemos com os olhos” e os alimentos que não atendem a estética que queremos são deixados de lado. Natalia explica que temos tendência a escolher os mais bonitos, mais brilhantes, pois associamos que seja novo. Manchinhas, viscosidade e descoloração tornam a mercadoria indesejável. Mesmo com os mercados abaixando o valor para tentar vender, essas falhas pesam na escolha, fazendo com que o lixo ou as ONGs sejam os seus destinos.
Durante feriados e datas comemorativas, por exemplo, é comum que tenhamos o pensamento de “é melhor sobrar do que faltar”, o que torna a produção de comida maior que o consumo e, muitas vezes, pela falta de planejamento e armazenamento correto, elas são descartadas. Isso mostra como o desperdício é culturalmente enraizado, e não apenas uma falha logística.
O desperdício inconsciente é bastante recorrente e é aquele que não é nem considerado desperdício, e sim incomestível. Exemplificando, quando fazemos um bolo de cenoura e retiramos a sua casca ou descascamos uma banana, você não enxerga esses envoltórios como algo comestível e então os descarta.
“O aproveitamento integral dos alimentos, usando as partes não convencionais é visto como um preconceito e muitas pessoas nem sabem que podem aproveitar essas partes, então nem consideram como desperdício”, esclarece a jovem nutricionista Beatriz Thomaz, 24, da ONG Banco de Alimentos.
Os maiores efeitos
“A maior consequência do desperdício é a fome, com certeza”, aponta Beatriz. Um país com grandes índices de fome perde seu poder de compra, aumenta a pobreza e a desigualdade nacional. Uma pessoa nessa situação pode ter sintomas como desnutrição, mal-estar físico e psicológico e até mesmo a morte.
E essa não é a única consequência. O desperdício alimentar é responsável por emitir de 8% a 10% de gases do efeito estufa, declara o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA). Esses gases geram o aquecimento global, acarretando na perda da biodiversidade do planeta, mudanças climáticas e poluição dos ecossistemas.
Algumas medidas para tentar amenizar essa situação estão em andamento, mas já tem previsão de falha. Em 2015, com o objetivo de apelar universalmente à erradicação da pobreza, proteção do planeta e garantir que a sociedade desfrutará de paz e prosperidade até 2030, foram criados os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ou Objetivos Globais.
A ODS 12 trata do consumo e produção sustentável e tem como fim, reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita e perdas nas cadeias de produção até 2030. Entretanto, a ONU liberou um relatório que prevê que apenas quatro países do G20, grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo mais a União Africana e União Europeia, alcançarão a meta. São eles: Austrália, Estados Unidos, Japão, Reino Unido e União Europeia.
Já a ODS 2, que é: “Fome zero e agricultura sustentável”, tem o objetivo de erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável. Esse propósito também caminha para a derrota, não pela falta de produção e sim por má transportação e desaproveitamento. Em entrevista para a CNN, o presidente Lula diz que a agenda de 2030 pode ser um fiasco porque já está acabando o tempo e ainda está distante de reduzir a desigualdade.
As grandes organizações já estão se mexendo e tentando acabar com esse problema, ainda assim, o trabalho precisa ser em conjunto com a população. A melhor forma para combatermos essa situação, é com a conscientização da sociedade. E, para as educadoras Natália Rodrigues e Beatriz Thomaz:
“A conscientização, a educação alimentar, estudar os benefícios daquele alimento como um todo e as pessoas se reconectarem com a comida, voltando a cozinhar ao invés de pedir comida pelo aplicativo, fará com que enxerguem o potencial máximo do alimento.”
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O artigo acima foi editado por Clara Rocha.
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