No dia 26 de setembro, durante a Semana de Moda de Milão, Dario Vitale estreou como diretor criativo da marca que, durante toda a sua história, foi regida pelo único sobrenome dos que a fundaram e sustentaram durante 47 anos: Versace.
Dario, que começou sua carreira na Bottega Veneta e, logo depois, ficou encarregado da Miu Miu por 14 anos, agora encara um desafio diferente: incorporar o espírito livre, colorido e sensual da Versace criada por Gianni e Donatella.
O desfile, que inicialmente não seria aberto ao público, gerou polêmicas, controvérsias e muitas opiniões sobre quais serão os próximos passos da marca, que sempre fez questão de abraçar seus amantes e libertar a ousadia dentro de cada um de nós.
O desfile: vintage, intimista e carregado de novos significados
Exibida na Pinacoteca Ambrosiana de Milão, a nova coleção Verão/Primavera da Versace viajou diretamente para os primeiros passos da marca, em que o fundador Gianni ousou com cores e rostos pintados nas peças.
O local e a música já dizem muito sobre a produção, já que os antigos desfiles sempre foram acompanhados de muitas luzes e melodias eletrizantes. Dessa vez, vemos muito do viés clássico italiano com o museu repleto das artes barrocas de Caravaggio, mas, ao mesmo tempo, ouvimos batidas modernas e cheias de vida.
O que realmente predominou foi o couro: jaquetas e coletes assimétricos deram às roupas uma silhueta incomum, mas carregada de estilo e personalidade.
Calças e shorts de cintura alta prevaleceram nos modelos, sustentadas por cintos também marcantes na nova coleção. “A ideia de ter algo na cintura alta é quase como uma atitude, de estar no controle”, disse o criador em entrevista para o CNN.
Os sapatos, trabalhados no mesmo tecido, exalam a energia dos anos 70/80 com seus diferentes formatos. Os saltos, relativamente pequenos comparados aos últimos modelos de Donatella, também correspondem ao intimismo transmitido por Vitale.
As bolsas possuem moldagens comuns, mas são grandes e coloridas, carregadas da vibe vintage da coleção. Algumas até lembram designs da Miu Miu e da Bottega, mostrando que o novo diretor não se desapegou totalmente de suas origens e que, de alguma forma, não quer apagá-las para se encaixar nas antigas produções.
A ousadia contida de Vitale
O que realmente pareceu ter aborrecido o público foi a diferente sensualidade das roupas: vemos pele e decotes, mas não a energia selvagem que sempre predominou na marca. Ao invés disso, somos apresentados a uma nova forma de ser sexy: com detalhes que são discretos, mas que não passam despercebidos.
Costas expostas, ombros à mostra e intimidades mostradas através de cortes ou pouca costura são algumas das pistas de que a sensualidade não foi embora, mas foi transformada. O maior exemplo disso são os seios das modelos, revelados pela ausência de tecido nas laterais, e não no colo, como de costume.
Algumas roupas íntimas também foram exibidas pelas modelos de vestidos, mas a sobreposição reinou como artifício à sexualidade, de acordo com Vitale
Ainda, a maioria das silhuetas masculinas, com calças apertadas e marcadas, também nos ensina que, para transmitir ousadia e sensualidade, não necessariamente precisamos nos apegar à pouca roupa, mas dar enfoque ao que estamos mostrando e, nesse caso, estamos mostrando muito.
Nossa resposta à mudança
O primeiro impulso de quem assiste o desfile não é a vontade desesperada de correr até uma loja da Versace, mas sim o desejo pelo retorno de Donatella. A sensação é de estranhamento: não conseguimos nos decidir se gostamos ou não da transição, que foi repentina mesmo com aviso prévio.
Mas Dario é claro em seus objetivos; para quem tinha a tarefa de assumir uma das casas mais importantes do mundo da moda, sua primeira decisão foi justamente reviver o nascimento da marca e transmitir uma vivacidade com a qual não estamos acostumados. Sua ousadia não vem do selvagem, mas da mudança.
A identidade da Versace está ali, apontada na nossa cara, mas misturada com o longo histórico de Dario na moda em geral. Alguns podem até duvidar da capacidade do novo diretor de comandar a marca, mas Donatella nunca deixaria seu posto para alguém que não pudesse transmitir o calor italiano, misturando tradição e inovação.
Claro que só o tempo pode nos dizer para onde Vitale levará a marca. Caminhamos para uma era mais casual? Haverão mais mudanças? Donatella vai interferir nas criações? Nossa única certeza é de que a adaptação de Vitale ainda tem um caminho muito longo pela frente, assim como a casa.
Não sabemos, ao certo, para qual horizonte devemos olhar. Talvez, a melhor alternativa seja apenas nos prepararmos para a próxima coleção que, com certeza, também será chocante, e não há nada mais Versace que isso.
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O artigo abaixo editado por Ana Carolina Carvalho.
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