No cenário atual, o hábito da leitura enfrenta desafios para encontrar espaço na rotina dos brasileiros.
Em 2024, a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, mostrou que 53% dos entrevistados foram considerados não leitores. O levantamento também registrou uma redução de 6,7 milhões de leitores em relação a 2019. Para ser considerado leitor, o entrevistado precisava ter lido pelo menos parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Entre as pessoas consideradas leitoras, cerca de 55% apontaram a falta de tempo como motivo para não terem lido mais livros.
Os dados ajudam a entender não só a diminuição do número de leitores, mas também como a rotina pode dificultar a manutenção desse hábito. Onde as redes sociais entram nisso? A rotina corrida não envolve apenas o excesso de tarefas e a falta de tempo, mas também a disputa pela atenção em meio às notificações e ao fluxo constante de vídeos, fotos e textos curtos, que podem manter os usuários conectados por longos períodos.
A CONCORRÊNCIA PELA ATENÇÃO
Em meio a esse fluxo contínuo de conteúdos nas redes, outro desafio para a leitura é a atenção.
Um estudo brasileiro do Centro Universitário Governador Ozanan Coelho (UNIFAGOC) investigou estudantes universitários e apontou possíveis impactos do uso das redes sociais e do consumo de Reels no Instagram na vida acadêmica dos alunos O estudo relatou maior distração, perda de foco e redução do tempo dedicado a tarefas acadêmicas.
A pesquisa não investigou diretamente o hábito de ler, mas seus resultados permitem refletir sobre como o consumo de vídeos e textos curtos, marcados por estímulos rápidos, pode representar um desafio para atividades que exigem uma concentração maior e prolongada.
Isso não significa que as redes sociais sejam as únicas responsáveis por essa dificuldade, mas levanta uma questão: em meio a tantos estímulos rápidos, como encontrar espaço para atividades que exigem mais tempo e concentração, como a leitura?
OS LIVROS TAMBÉM ESTÃO NAS TELAS
Se, por um lado, as telas disputam a atenção dos leitores, por outro, também podem aproximar as pessoas dos livros. Com a leitura digital, não é necessário comprar um exemplar físico nem ir até uma biblioteca para começar a ler. Existem plataformas que disponibilizam obras gratuitamente pela internet, ampliando as possibilidades de acesso à literatura.
Um exemplo é o MEC Livros, uma biblioteca digital criada pelo Governo Federal por meio do Ministério da Educação que reúne obras nacionais e internacionais para leitura on-line.
Segundo dados divulgados pelo próprio ministério em julho de 2026, a plataforma já contava com mais de um milhão de usuários e cerca de 25 mil títulos disponíveis. A iniciativa mostra que a tecnologia não se limita ao consumo rápido de conteúdos: ela também pode funcionar como uma ferramenta de incentivo à leitura e facilitar o acesso aos livros.
Além do acesso gratuito, a praticidade é outra característica dos livros digitais. Um exemplo muito conhecido é o Kindle, um leitor digital criado pela Amazon para facilitar a acessibilidade e portabilidade da leitura. O dispositivo possui a tecnologia E Ink, que se aproxima do conforto visual do papel físico e não reflete sob a luz do Sol, o que permite ler por mais tempo sem cansar os olhos para aqueles que não gostam de ler pelo celular.
Mas, acima de tudo, essas medidas são alternativas práticas e que permitem dedicar alguns minutos à leitura, em meio a uma rotina corrida pois, através delas, temos a capacidade de aproveitar momentos livres, como no transporte público, durante uma pausa ou antes de dormir.
LIVROS E TECNOLOGIA PODEM COEXISTIR?
Surge então, uma questão: a leitura e os avanços das redes sociais e da tecnologia podem coexistir? Apesar dos obstáculos, a tecnologia também pode ser uma grande aliada dos livros, pois facilita o acesso às obras e amplia as discussões literárias nas redes sociais, especialmente entre aqueles que gostam de falar sobre livros.
Um exemplo dessa relação é o BookTok, comunidade literária do TikTok em que usuários compartilham recomendações, resenhas e opiniões sobre livros. Por meio desses conteúdos, obras podem alcançar novos públicos e despertar a curiosidade de pessoas que talvez não tivessem interesse pela leitura anteriormente.
Assim, as redes sociais, que também disputam a atenção dos leitores, podem funcionar como uma porta de entrada para o universo literário.
O questionamento não deveria ser apenas se os livros ainda têm espaço na era digital, mas como a leitura e a tecnologia podem coexistir. Isso porque, apesar de a tecnologia levar esse interesse a mais pessoas, ela não elimina os outros obstáculos, como a falta de tempo e a dificuldade de manter a atenção em meio a tantos estímulos.
O desafio está em aproveitar as possibilidades que ela oferece sem deixar que a leitura perca espaço na rotina. Mais do que escolher entre o papel e as telas, é importante encontrar maneiras de manter os livros presentes no cotidiano, independentemente do formato.
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O artigo acima foi editado por Ana Flávia Rossi.
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