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Casper Libero | Life

Quando a política vira meme e a indignação perde a força

Maria Luísa Silva Pereira Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A crise no STF, o atraso e descaso pelo fim da escala 6×1, o avanço do movimento red pill e até propostas políticas absurdas — como o uso de drones para “proteger” mulheres de feminicídios, defendido por Augusto Cury em sua campanha — dividem diariamente o mesmo espaço das redes. 

De um lado, posts analíticos e a tentativa real de mobilização; do outro, uma enxurrada de vídeos irônicos, figurinhas, estáticos e piadas. E no cenário atual, onde a política só se move sob pressão, o barulho tornou-se algo indispensável. 

Mas a linha que separa a denúncia da banalização é tênue: até que ponto o meme ajuda a alavancar campanhas e manifestações políticas e onde começa o limite em que o absurdo vira apenas entretenimento? 

A cientista política Lainny Squizatto, bacharela em Ciências Sociais e mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ajudou a esclarecer essa fronteira em entrevista à Her Campus.

Quando a política vira espetáculo

Se por um lado a população usa o meme para suportar a realidade, por outro, os próprios políticos aprenderam a utilizar essa linguagem. Não é raro ver parlamentares trocando debates técnicos cortes curtos de vídeos e conteúdos planejados sob medida para viralizar. A política deixa de ser o campo da negociação para virar espetáculo.

O risco desse movimento fica claro em discussões para a sociedade, como a proposta pelo fim da escala 6×1 ou as denúncias de corrupção. A insatisfação com a rotina exaustiva de trabalho é real e profunda, mas, ao ser transformada em ironia e memes de desabafo, o movimento corre o risco de perder força prática.

O deboche digital gera engajamento nas redes, mas raramente ocupa as ruas ou pressiona o Congresso Nacional, onde as decisões de fato acontecem. A piada, em vez de ser útil para a mudança, torna ela apenas um assunto esquecido por todos.

O humor usado como válvula de escape

Nos dias atuais, com guerras no mundo todo, a ameaça de países com poder nuclear, conflitos internos no país e tanta violência, é natural que o cidadão se sinta cansado de tanta tragédia noticiada na mídia. 

Acordar cedo, ligar a TV ou ler notícias em outros meios de comunicação e se deparar com a infinidade de crimes acontecendo no lugar em que você mora é desesperador. Por isso, o humor é muitas vezes usado como escape, afinal, como diz o ditado popular, “rir para não chorar”.

A política deixa de ser o campo da negociação para virar espetáculo. No entanto, sob a perspectiva da cientista política Lainny Squizatto, essa migração para as redes é “um caminho sem volta” e que “atende a uma necessidade real de comunicação”. 

Segundo a especialista, as instituições e os agentes públicos adotam essas linguagens populares porque o ambiente digital se tornou a principal fonte de informação da população. “A utilização de formatos mais descontraídos – quando bem executada – não abandona a seriedade das pautas, mas busca aproximar o cidadão comum de um sistema político do qual ele muitas vezes se sente distante ou desacreditado”.

Na pandemia, por exemplo, era comum a quantidade de memes e vídeos humorísticos sobre a situação que estava ocorrendo. O brasileiro possui essa fama de brincalhão, sempre alegre e fazendo piada de tudo. 

Por um lado, isso leva a pessoa a ter uma vida mais leve, sem se preocupar com assuntos que talvez nem estejam em suas mãos. Porém, por outro lado, a indignação, o barulho e a manifestação se fazem necessárias no presente momento se o desejo é mudar o sistema vigente, para melhorá-lo, e muitas vezes, a piada retira a seriedade de um determinado assunto, fazendo com que o brasileiro se acostume a não levar nada a sério, e assim, perdendo sua indignação. 

O impacto do deboche na cobrança por justiça

O limite torna-se crítico quando fatos que exigem fiscalização são reduzidos à piada. A banalização de tragédias e crimes graves em formato de entretenimento é um fenômeno recorrente na internet brasileira, com impactos diretos na esfera pública.

Em 2014, o retrato falado que motivou o linchamento e a morte de Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá, circulou durante meses como meme irônico. Durante o desastre ambiental de Brumadinho, em 2019, enquanto a apuração de responsabilidades corporativas e estatais estava em jogo, piadas sobre o tema acumularam visualizações em busca de audiência fácil. Mais recentemente, em junho de 2026, a morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas em um acidente de rope jump gerou uma onda de piadas misóginas na rede “X” — episódio que motivou a bancada do PSOL a protocolar uma representação junto ao Ministério Público para apuração de responsabilidade penal.

A repetição desses padrões expõe como a estetização da tragédia afeta a discussão política: ao transformar episódios de negligência, falhas de segurança e violência em conteúdo consumível, o ecossistema digital enfraquece a pressão social necessária sobre órgãos fiscalizadores.

Mobilização real ou conformismo mascarado?

A ascensão da cultura dos memes na internet não deve ser vista apenas como algo negativo. Em um país de dimensões gigantescas e marcado por tantas desigualdades no acesso à informação, o humor ácido muitas vezes funciona como a única linguagem capaz de furar bolhas e traduzir escândalos complexos para a população. Uma piada bem-feita consegue resumir um absurdo político de forma rápida e direta, escancarando problemas que antes ficavam restritos aos jornais ou aos discursos formais.

O grande problema surge quando o riso deixa de ser o ponto de partida para a reflexão e se torna o destino final de tudo. Ao rir de uma situação absurda, o cérebro recebe uma sensação imediata de alívio, mas esse alívio é temporário e passivo. O engajamento gerado pela ironia consome a energia de uma revolta que deveria virar ação, cobrança e presença nas ruas. Diante do volume ininterrupto de crises e tragédias, a sociedade corre o risco de substituir o debate sério por um consumo diário de piadas, acabando com a capacidade de reação.

O desafio para quem consome e compartilha esse tipo de conteúdo está em definir o papel dessa linguagem no debate público. Apesar de iniciativas de utilidade pública já terem tido sucesso usando memes e dancinhas, a especialista lembra que a dependência das redes cobra seu preço. 

Segundo Lainny Squizatto:

É complicado pensar que estamos reféns dessa estrutura de consumo, de algoritmos imprevisíveis e tendências que mudam constantemente para conseguir uma resposta real que vá além da internet”, o que torna incerto se uma mensagem conseguirá ultrapassar o ambiente virtual e gerar mobilização prática. 

O humor continuará existindo como sobrevivência e traço cultural, a questão principal é se ele servirá como um anestésico social que naturaliza as crises ou se será capaz de acender a indignação necessária para mover a política fora das telas 

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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.

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Meu nome é Maria Luísa, mas todos me chamam de Malu (às vezes até eu me apresento assim).
Sou estudante de jornalismo da FCL, do 2° semestre. Escrevo sobre política, cultura e reflexões pessoais, mas meu maior interesse é a política, direitos humanos e causas sociais, um dos motivos que me fizeram escolher o curso que faço hoje!