Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Wellness > Health

Além do amarelo: conheça quais são as campanhas do Setembro Verde e Azul

Malu Braga Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

“O Setembro Amarelo todo mundo conhece, mas o Setembro Azul e o Verde quase ninguém sabe que existem“. A declaração de Catarina Oliveira Carvalho (18 anos), monocular, expressa em poucas palavras como, mesmo no período de maior integração e comunicação humana, a informação ainda falha em chegar, ou simplesmente não é transmitida para pessoas ao redor do país. 

As datas foram criadas para lutar por uma pauta ou celebrar algum tema, mas, quando o debate envolve minorias, a mobilização costuma ser fraca, especialmente por desconhecimento. Embora dividam o mesmo mês, o Setembro Azul e o Setembro Verde tratam de pautas distintas e igualmente relevantes. 

Entenda o significado das campanhas

Setembro Azul, ou Setembro Surdo, é um mês para dar maior visibilidade especificamente à comunidade surda. Seu objetivo é incentivar medidas de conscientização sobre os problemas enfrentados pela comunidade surda no Brasil, além de homenageá-la. Dentro desse mês, existe mais de um dia comemorativo relacionado aos surdos, como o Dia Internacional da Língua de Sinais (23/09), o Dia Nacional do Surdo (26/09), e no dia 30 de Setembro, o Dia Internacional do Surdo e o Dia Internacional do Tradutor e Intérprete.

Já o Setembro Verde abrange duas pautas: a inclusão das pessoas com deficiência e a importância da doação de órgãos para salvar vidas. No dia 21 deste mês é celebrado o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, data que procura reforçar a inclusão e acessibilidade plena de pessoas com deficiências no estudo, no mercado de trabalho e em outros espaços frequentados. Além disso, a iniciativa procura informar a população acerca dos tipos de deficiências que não são visíveis. 

O segundo tema é o Dia Nacional da Doação de Órgãos, no dia 27 de Setembro, que busca conscientizar a população acerca da importância de doar órgãos e como esse ato pode salvar inúmeras vidas. A campanha procura incentivar as pessoas a falarem do assunto com suas famílias, informando se serão ou não doadores de órgãos. 

O mês de Setembro não é usado somente como um tributo a esses grupos, ele também intenta que mais mudanças sejam feitas. Jaiede Nicacio, fonoaudióloga, afirma que “essas datas comemorativas são uma tentativa de mexer com as pessoas. Se a gente conseguir mudar um pouquinho ali, já temos uma evolução“. É necessária uma reeducação sobre o tema e transformações práticas no dia a dia, não somente na teoria. 

o desafio da conscientização

Um dos objetivos do Setembro Verde e Azul é a conscientização da sociedade para impulsionar ações que garantam a inclusão de pessoas com deficiências. Mas Catarina afirma que “fala-se muito de inclusão, mas pouco se pratica“.

A falta de informação afeta desde o diagnóstico precoce até o convívio social. De acordo com a fonoaudióloga Jaiede, no caso de perda profunda de audição, a identificação rápida é determinante para o desenvolvimento do indivíduo por proporcionar maior tempo de adaptação.

A especialista também afirma que “a sociedade precisa entender que essas pessoas têm mais dificuldades, mas que elas podem se comunicar, trabalhar e têm o espaço delas“, destacando que a sensibilização geral é o primeiro passo para combater o preconceito e levar transformações reais para o cotidiano. 

Heloisa Arévalo, de 18 anos, é deficiente auditiva com implante coclear, e reforça que o preconceito surge do desconhecimento: “é muito uma questão de curiosidade“. Por isso, a população deve ser introduzida ao assunto, pesquisar e se educar sobre, já que muitas vezes os comentários capacitistas e enviesados feitos pela falta de conhecimento sobre o tema se traduzem em aversão ao diferente e ao desconhecido.

Heloisa relata que ter uma rede de apoio conscientizada e ser incentivada a participar ativamente da comunidade teve um papel central para a sua aceitação da deficiência. Ela também compartilhou conhecer pessoas que “não conseguem nem amarrar o cabelo por causa da autoestima”, demonstrando o quanto a sociedade pode afetar a sua percepção de si mesmo. 

A fonoaudióloga esclarece que “embora hoje você veja muito mais gente usando aparelho e o acesso aos dispositivos tenha melhorado, o processo de aceitação social ainda é bastante complicado“. Há um preconceito muito grande na aceitação, principalmente na população adulta e na adolescência, provando que a sensibilização da pauta não chega ou não tem efeito em grupos com total capacidade de compreender a problemática de seus julgamentos.

por que as campanhas parecem ineficazes

Apesar do valor indiscutível das datas, a falta de mudança permanece e impacta diretamente na inclusão e acessibilidade que é defendida em Setembro. “É muito fácil falar de inclusão na teoria, mas na prática ainda existe muito preconceito social e estereótipos“, conta Catarina, que é monocular desde os dois anos e cresceu com a intolerância. 

Em relato, Catarina diz que elas possuem um intuito muito positivo, mas ainda são muito fechadas: “Não que não sejam eficazes, mas são restritas porque pouca gente conhece“. Em sua perspectiva, “a conscientização deveria acontecer fora das bolhas médicas e psicológicas, no dia a dia“, demonstrando que a verdadeira mudança precisa ocorrer no cotidiano da população, pois pessoas com deficiência ainda são renegadas socialmente. 

Ao invés de atingir o público que precisa se educar sobre o tema, as ações são focadas e chegam majoritariamente às pessoas que já fazem parte ou que tem contato com esses grupos, como por exemplo, uma pessoa com deficiência auditiva e seus familiares. 

Já a especialista Jaiede, apesar de reconhecer que as campanhas não têm criado grandes resultados com o público geral, enfatiza que “se a gente não fizer nada, nada vai mudar. Não podemos esperar uma mudança extraordinária do dia para a noite, porque é uma questão educacional“. O maior desafio enfrentado nas campanhas não é que a sua existência seja “inútil”, e sim que precisam ser ampliadas para chegar ao povo como um todo, e não somente à comunidade que já têm acesso às informações e contato com o tema diariamente. 

A conscientização precisa acontecer fora da bolha para realizar alguma transformação na estrutura. “É uma questão de aceitar as diferenças dentro do processo educacional, e essa mudança vem aos poucos“, explica Jaiede, ressaltando que a transição só será possível através da conscientização geral pela educação desde cedo. 

capacitismo e discriminação velada

Embora exista quem alegue que a discriminação ficou no passado, essa visão se opõe aos relatos dos entrevistados, que vivem essa realidade todos os dias e representam a situação de muitos indivíduos PCD. “Muita gente diz que não existe preconceito com pessoas com deficiência hoje em dia, mas eu passo por isso até hoje“, conta Catarina. 

O capacitismo não é somente o discurso de ódio escancarado, ele também está em falas sutis. Comentários capacitistas velados como piadas ou ironia são recorrentes no cotidiano dessa comunidade. Falas como  “Nossa, mas você fala bem!”, “Você sabe Libras?” ou “Nossa, mas você é surda mesmo? Você fala!”, são escutados com frequência por Heloisa, deficiente auditiva com implante coclear há 16 anos, e por muitas outras pessoas com realidades similares.   

As pessoas com deficiências passam a vida lutando pelos espaços e lidando com a intolerância da sociedade. Desde a infância até a vida adulta, o preconceito os segue injustamente. “A adolescência já é um período conturbado por natureza: tendo qualquer tipo de deficiência, torna-se ainda mais conturbado“, afirma Jaiede. Segundo a fonoaudióloga, é ainda mais complexo em casos que a própria família tem dificuldade de entender a se adaptar, pois mesmo dentro de casa não há uma aceitação e vivência plena, sem os estereótipos da sociedade. 

o esquecimento das deficiências invisíveis

Dentro dessas datas comemorativas, é importante destacar um grupo que faz parte das pessoas com deficiências, mas que, por vezes, enfrenta dificuldades diferentes e são repetidamente esquecidos: aqueles que possuem deficiências invisíveis. 

As deficiências “ocultas” são aquelas que não possuem sinais físicos facilmente perceptíveis, mas ainda impactam significativamente o cotidiano de quem as possui. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 1,3 bilhão de pessoas (cerca de 16% da população mundial) que vivem atualmente com alguma deficiência, e uma grande parcela delas não são visíveis.

Pessoas que se enquadram nesse caso passam por dificuldades em contexto sociais como a falta de compreensão, o julgamento, e comentários capacitistas enraizados por “surpresa”, desconhecimento e preconceito. Heloísa conta que, quando utiliza ajustes de acessibilidade, como filas e assentos prioritários, é repetidamente julgada e desconsideram a possibilidade de ela precisar do assento só por não ter alguma condição de fácil percepção aos olhos alheios. Ela desabafa ser exaustivo quando as pessoas não levam o laudo a sério, e relata: “As pessoas ficam cutucando, ficam pedindo para sentar e eu fico tipo: ‘Amiga, eu também preciso’ “. 

———————————————————————————————————————————————————————————————————————

O artigo acima foi editado por Mariana Camargo Aguiar.

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Malu Braga

Casper Libero '29

Journalism student at Cásper Líbero
Passionate about art, culture and politics.

Estudante de jornalismo na Cásper Líbero
Apaixonada por arte, cultura e política.