Entre os dias 4 e 13 de setembro, o Distrito Anhembi se tornou o maior ponto de encontro dos leitores do Brasil. A 28º Bienal Internacional do Livro de São Paulo pode ser considerada a maior da história, com mais de 80 mil m² de área ocupada, bateu recorde de visitação e reuniu cerca de 270 expositores e 350 autores. Não à toa, a Bienal segue sendo um dos maiores encontros literários do mundo.
Para quem faz parte de algum clube do livro, segue booktokers ou simplesmente vive perdida entre uma leitura e outra, os dez dias de evento funcionaram como um verdadeiro paraíso. Entre corredores lotados, filas gigantes para as diversas palestras e várias promoções, a 28º Bienal reforçou algo que quem acompanha o mercado editorial já vinha percebendo: hoje, o ato de ler é pertencer a uma comunidade.
O que é a Bienal do livro?
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo nasceu de um projeto bem mais modesto do que a mega estrutura que ocupou o Anhembi essa semana. Tudo começou em 1951, quando a Câmara Brasileira do Livro (CBL) organizou a primeira Feira Popular do Livro, na Praça da República. A experiência se repetiu ao longo da década seguinte, até que, em 1961, surgiu uma parceria com o MASP, que se repetiu outras duas vezes, dando origem à primeira Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas.
Porém, foi só em 1970, no Parque Ibirapuera, que o evento ganhou o formato e o nome pelos quais é conhecido até hoje. Depois de tantos anos, a Bienal trocou de endereço algumas vezes até se firmar no Distrito Anhembi, onde a edição deste ano celebra mais de cinco décadas de história.
diversidade e leitura
Mais do que um espaço para lançamentos e sessões de autógrafo, a Bienal deste ano pareceu funcionar como uma espécie de mapa do momento atual da leitura no Brasil. A convivência entre estandes de grandes editoras, selos independentes, quadrinhos, e literatura Indígena e afro-brasileira mostrou uma curadoria que tentou falar com públicos bem diferentes dentro do mesmo pavilhão.
Essa mistura também apareceu na grade de debates, que passeou por temas que vão do mercado editorial tradicional a discussões mais atuais, como o papel da tecnologia na forma como se escreve e se lê hoje. Não à toa, a programação parece menos preocupada em vender um único tipo de experiência literária e mais interessada em mostrar a pluralidade de formas como a leitura pode acontecer. Para isso, contou com a presença de Conceição Evaristo, Leandro Karnal e celebridades das bookredes, como Pedro Pacífico (Bookster) e Tiago Valente.
A Bienal é muito mais do que uma reunião de leitores, é um incentivo a leitura. Em um mundo tão imediatista, o evento nos convidou a parar e refletir através da palestra de Leandro Karnal, historiador e professor brasileiro, e Uriã Francelli, analista político e comentarista da CBN: porque ainda precisamos de livros em um mundo tão mediado por redes sociais, vídeos curtos e inteligência artificial?
por que ler?
Ambos veem a leitura como algo obrigatório, seja a de um best-seller ou de um clássico. Pois mais do que uma forma de entretenimento, é uma maneira de construir e preservar a memória. “Livros são perigosos, porque oferecem memória, e a memória impede você de ser passado para trás”, afirmou Karnal. “Eu pessoalmente não confio em uma casa que não tenha livros.”
A ideia defendida pelos palestrantes é que a memória permite ao leitor conhecer o passado e questionar o presente. Obras como 1984, Fahrenheit 451, Capitães da Areia e Revolução dos Bichos são exemplos de livros que levaram os leitores a questionar governos, suas atitudes e a própria sociedade, tanto que alguns foram queimados em praças públicas.
E para além do espectro político, Karnal também apresentou outro lado: o exercício da mente. A leitura também é uma forma de estimular o pensamento. Em um mundo de tantas distrações e estímulos, o livro obriga o leitor a prestar atenção e silenciar o mundo ao redor, especialmente os clássicos. Para ele, os best-sellers contribuem para o hábito da leitura, mas os clássicos exigem um esforço maior, pois são obras que provocam crises no pensamento do leitor:
“Ler um best-seller é bom, mas é como ir a uma academia e levantar pesos leves; já ler um clássico é como ir e levantar pesos pesados”, disse Leandro.
a comédia romântica perfeita
Apesar dos clássicos nos ajudarem a entrar em crise, não podemos esquecer que os best-sellers são essenciais na construção do hábito de leitura. E, na Bienal, eles estavam por toda parte, inclusive nas mãos dos leitores que aguardavam para encontrar uma das autoras mais populares das bookredes: Lynn Painter.
A autora best-seller de obras como Melhor do que nos Filmes, Apostando no Amor e Patinando no Amor, voltou ao Brasil pela quarta vez, reunindo diversos leitores tanto para as sessões de autógrafos quanto para sua palestra, que tinha como tema “Como criar uma comédia romântica perfeita”.
Nessa palestra, Lynn disse aos seus leitores que tudo o que escreve e todas as suas inspirações vêm tanto dos filmes de comédia romântica que ela assiste, quanto das coisas que ela também sonhava na adolescência:
“Eu sonhava que aquele menino que eu gostava ia me beijar de uma determinada maneira, que ia acontecer de tal jeito… Eu criava essas situações na minha cabeça, imaginava como seria e hoje eu uso elas nos meus livros”, afirmou.
A autora também revelou novidades sobre a nova adaptação de seu livro Melhor do que nos Filmes. Segundo ela, as gravações já começaram, e, assim como nós, Painter está ansiosa para ver o resultado final, principalmente por estar participando ativamente da produção.
Mas a relação dela com os leitores não ficou apenas no palco. Durante sua passagem, fãs se reuniram para conseguir um autógrafo e, principalmente, encontrar de perto a autora responsável por histórias que os fizeram virar madrugadas lendo.
outros grandes nomes
A 28º Bienal do Livro reuniu um time expressivo de autores nacionais e internacionais ao longo dos 10 dias de evento. Entre os brasileiros, marcaram presença Raphael Montes, Paula Pimenta, Socorro Acioli, Itamar Vieira Jr e Sérgio Vaz, além de nomes ligados à área do jornalismo e entretenimento, caso de Pedro Bial e Luiza Helena Trajano, reunindo muitos dos principais nomes da literatura brasileira.
Raphael Montes foi o destaque da Companhia das Letras. Seu novo lançamento A Estranha na Cama foi o livro mais vendido do estande juntamente com Jantar Secreto, em ambas edições de capa comum e a nova edição de colecionador, que conta com um capítulo extra.
A escritora Carla Madeira também teve grande destaque com o seu romance Quando, que foi lançado no dia 14 de agosto deste ano e já se tornou um dos títulos mais comentados do ano.
A edição comemorativa de A hora da Estrela de Clarice Lispector e Cabeça de Santo da autora Socorro Acioli entraram nos livros nacionais mais vendidos da Bienal.
No time internacional, o destaque ficou por conta de autoras best-seller do romance e da fantasia jovem adulta, como Alice Oseman, Ana Huang e Elena Armas, além de Jay Kristoff e Danielle L. Jensen, em uma programação que reuniu os principais lançamentos e os títulos mais vendidos do ano. A passagem desse elenco de escritores foi o fator chave que impulsionou as vendas do fim de semana de abertura.
Alice Oseman, autora de Heartstopper, reuniu milhares de fãs da história de Nick e Charlie, tanto nas páginas quanto na adaptação para as telas, transformando sua participação em um dos momentos de destaque da Bienal.
O Massacre da família Hope, de Riley Sager, foi um dos mais vendidos do estande da Intrínseca, juntamente com Patinando no Amor, de Lynn Painter, e Alchemised da autora SenLiuYu.
A psicologia financeira, de Morgan Housel, foi o livro mais vendido da Bienal, com 109 mil cópias, seguido por Verity da autora Colleen Hoover, com 98 mil cópias vendidas. Outro destaque foi o livro Nunca Minta de Frida McFadden.
Quebrando o recorde de público, atingindo mais de 760 mil visitantes ao longo dos dez dias de evento, a Bienal do Livro de São Paulo nos mostrou que, mesmo em meio a um mundo cada vez mais digital e acelerado, os livros continuam reunindo milhares de pessoas e criando memórias.
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O artigo acima foi editado por Mariana Camargo Aguiar.
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