Cassie de Euphoria se casando com o Nate Jacobs, Zendaya se casando em The Drama, Sabrina Carpenter usando vários looks que fazem referência a moda bridal, Enola Holmes, a personagem de Millie Bobby Brown, casando-se no terceiro filme da franquia – cujo lançamento está previsto para o dia 1 de Julho na Netflix. Afinal, o que essa tendência tem a nos dizer sobre as novas formas de entender o significado do casamento em 2026 e como isso pode prever uma crise econômica?
Casamentos sempre foram esteticamente bonitos e agradáveis
Como visto em filmes, séries e músicas, o casamento hoje, mais do que nunca, virou uma estética antes de ser um rito de passagem. É quase impossível ver um casamento simples e reservado, todos são um evento, uma experiência – até aqueles que se dizem discretos.
Bridal weeks em Barcelona, Paris e Nova York. Trocar o clássico bolo branco de três andares por um tiramissu. Cenários diferentes. Flores coloridas. Proibição de celulares e o uso de câmeras analógicas. Arranjos de flores super diferentes usados como buquê. Maquiagens menos produzidas. Broches para o noivo.
Todas essas tendências são um must em praticamente todas as festas de casamento, transformando em um verdadeiro espetáculo para as redes sociais. A partir disso, a cultura pop se apropria dessa estética e a transforma em arte e em crítica o que muitos querem esconder.
A vida em matrimônio não pode mais ser romantizada, e assim surgem filmes como The Drama, onde a vida a dois é colocada em prova dias antes da festa casamento, e em séries como Euphoria, quando Cassie finalmente realiza seu sonho de se casar, com um abusador. Nada disso é á toa, muito pelo contrário: está enraizado na sociedade há décadas.
Retrocesso velado?
O casamento foi, por muito tempo, visto como uma Instituição central em diversas sociedades. Em muitos contextos históricos, casar e ter filhos eram expectativas sociais fortemente associadas às mulheres, e o matrimônio frequentemente representava uma forma de reconhecimento e respeito social. No Brasil do século XIX, por exemplo, a estrutura familiar era marcada por relações patriarcais em que a autoridade masculina predominava e a vontade do homem era frequentemente colocada acima da feminina. Em diferentes períodos históricos, mulheres divorciadas, solteiras ou que recusavam o casamento podiam ser marginalizadas socialmente, enquanto a figura da “boa esposa” e da mãe dedicada era tratada como ideal feminino. No Direito Romano, inclusive, existiam modelos matrimoniais em que a a mulher passava a integrar a família do marido e se submetia ao poder marital.
Atualmente, esses valores vêm sendo mais debatidos, e muitas mulheres passaram a ter maior liberdade para decidir se desejam seguir um modelo tradicional de casamento e maternidade ou não. Esse movimento aparece no aumento de mulheres que optam por não ter filhos, no crescimento de famílias formadas por mães solo por escolha, em casais que preferem não oficializar a união e também em debates culturais sobre a ideia de que a realização feminina não depende necessariamente do casamento. Mudanças legais, como a consolidação do divórcio e o avanço da autonomia feminina contribuíram para transformar a forma como os relacionamentos são encarados.
Em diferentes culturas, porém, essas transformações acontecem de maneiras distintas. Em países com legislações e debates mais consolidados sobre igualdade de gênero, modelos familiares mais diversos tendem a ser mais aceitos socialmente. Já em sociedades mais conservadoras ou fortemente marcadas por tradições religiosas e patriarcais, estruturas familiares tradicionais continuam predominantes, e mulheres ainda enfrentam pressão para casar e constituir família dentro de determinados padrões sociais estruturas familiares tradicionais continuam predominantes.
O mundo, apesar de não parecer, mudou tanto, que até o número de casamentos diminuiu. Se formos usar como exemplo os EUA, nos anos 2000, a taxa de casamentos a cada mil pessoas era de 8,2%. Nos mesmos parâmetros, mas 22 anos depois, abaixou para 5,1%. Diferente de antigamente, as mulheres estão se casando mais velhas, seguindo o modelo de casamento capstone, em que primeiro os jovens buscam se estabilizar financeiramente, conquistando seu patrimônio e diploma antes do casamento, visto como etapa final do sucesso.
De repente, toda essa mudança é colocada em xeque quando as redes sociais tornam o casamento, novamente, uma tendência. Mas se você acha que isso não se passa de uma moda boba que vai passar, eu tenho algo para lhe contar, essa tendência é um indício de recessão econômica.
Como a recessão econômica pode explicar esse fenômeno
Recessão econômica é um período prolongado de desaceleração na economia, em que o Produto Interno Bruto (PIB) sofre uma queda significativa. Quando isso acontece, é mais difícil achar emprego, conseguir crédito, o governo arrecada menos impostos e consequentemente, o consumo diminui – e é isso que nos importa agora.
Não estamos vivendo em um período de recessão, mas os indícios que esse período está próximo, estão mais recorrentes do que nunca. Um deles, e talvez o mais importante, é a volta de valores tradicionais. A sociedade busca se apegar a princípios mais robustos e antigos, a valorizar dons domésticos, laços familiares e desromantizar o consumo – já que consumir já não é mais tão fácil como antes. Tudo isso serve como um refúgio para esse período de incertezas, voltar as raízes e ao conforto é voltar para o seguro.
E se casar ainda costuma ser associado ao início da chamada “família tradicional” e à ideia de estabilidade e segurança.
Tendências culturais geralmente refletem transformações, desejos e tensões presentes na sociedade. Quando determinados comportamentos reaparecem como estética ou fenômeno de consumo, eles também revelam disputas simbólicas sobre afeto, pertencimento, futuro e reconhecimento social. O casamento pode ser um ato de amor, mas historicamente também esteve ligado a questões econômicas, familiares e sociais. Em diferentes contextos, uniões matrimoniais já funcionaram como acordos de status, manutenção patrimonial ou consolidação de papéis de gênero. Isso não significa que relações afetivas sejam necessariamente definidas por esses fatores, mas mostra que o matrimônio nunca existiu completamente separado das estruturas sociais ao seu redor.
Essa estética continua despertando fascínio porque o casamento ainda é frequentemente representado como símbolo de permanência, estabilidade e realização afetiva, especialmente em períodos marcados por inseguranças econômicas, crises políticas ou mudanças aceleradas nos modos de vida. Ao mesmo tempo, a arte, o cinema, a moda e a cultura pop vêm tensionando essa imagem idealizada ao retratar casamentos atravessados por frustrações, desigualdades, expectativas irreais e conflitos cotidianos. Em vez de destruir completamente o imaginário romântico, muitas dessas obras parecem interessadas em torná-lo mais complexo, contraditório e próximo da experiência real.
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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.
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