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Casper Libero | Culture

10 técnicos demitidos em 10 rodadas do Brasileirão: O que isso diz sobre o futebol nacional?

Beatriz Martins Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

O que você pensa quando ouve a pergunta “o que melhor representa o Brasil”? Temos um milhão de possibilidades diferentes, mas, em qualquer lugar do mundo, a resposta é quase sempre a mesma: FUTEBOL. O que fazer se a nossa é a única seleção pentacampeã mundial?

Porém, no cenário nacional, o futebol que um dia já foi tão celebrado hoje é conhecido pela instabilidade. Seja pela pressão de torcedores, dirigentes ou até mesmo patrocinadores, a troca de técnicos é algo constante. Nas primeiras 10 rodadas do principal campeonato nacional, o Brasileirão, 10 treinadores já foram demitidos, e outros estão sob pressão. O número escancara a instabilidade que há anos marca o futebol brasileiro e reforça uma pergunta recorrente: o problema está, de fato, nos treinadores?

*O 10º demitido foi Dorival Júnior, no Corinthians, não contemplado no post acima

A alta rotatividade no comando das equipes não é novidade. Em 2025, 22 técnicos foram demitidos ao longo das 38 etapas do campeonato nacional, ou seja, em média, houve uma troca de treinador a cada 1,7 rodadas, praticamente um demitido a cada dois fins de semanas de competição. No ano anterior, outros 20 deixaram seus cargos. O cenário evidencia uma cultura imediatista, em que resultados a curto prazo frequentemente falam mais alto do que planejamento e continuidade. No Brasil, o técnico costuma ser o primeiro a cair, mesmo raramente sendo o principal culpado.

Diante desse contexto, cresce o questionamento entre especialistas e torcedores: até que ponto a troca de técnicos resolve os problemas de um clube? Ou seria ela apenas uma resposta rápida para falhas mais profundas, como gestão ineficiente e falta de projeto esportivo? 

Exemplos reais

Casos recentes ilustram a complexidade da questão. Nomes como Filipe Luís, no Flamengo, Dorival Júnior, no Corinthians, e Hernán Crespo, no São Paulo, mostram que a permanência de um treinador nem sempre está diretamente ligada a títulos e resultados.  

Embora sequências de resultados negativos sejam frequentemente apontadas como justificativa para demissões, esse nem sempre é o único fator. Questões políticas internas e a pressão da torcida também desempenham papel importante nesse processo. Demitir técnicos virou uma ‘solução fácil’, mas escancara uma dura realidade: não falta apenas paciência, mas, principalmente, planejamento.

Na contramão desse cenário, o português Abel Ferreira se destaca como exceção. No comando do Palmeiras desde novembro de 2020, ele se tornou o treinador mais longevo do futebol brasileiro. Mesmo diante de momentos de oscilação, o clube optou por manter o trabalho e conquistou 11 títulos até aqui. Durante esses cinco anos, os outros 19 clubes da Série A acumularam 183 trocas de treinadores. 

Do outro lado do Atlântico

Definitivamente, não existe uma fórmula mágica para um time de futebol vencer, mas a comparação com o futebol europeu evidencia ainda mais esse contraste. Na última temporada, 75% dos clubes da La Liga, na Espanha, mantiveram seus treinadores. Enquanto na Europa a permanência média de um técnico varia entre 1,5 e 2,4 anos, no Brasil esse número gira em torno de oito meses. Ainda assim, há exemplos de longevidade que se tornaram referência, como Diego Simeone, à frente do Atlético de Madrid desde 2011. Os dados escancararam a diferença de mentalidade: enquanto a Europa aposta na continuidade, o Brasil se tornou refém da urgência. 

Para Pep Guardiola, considerado um dos melhores treinadores da história do futebol, o cenário brasileiro evidencia um problema estrutural. “No meu primeiro ano, eu não ganhei. Se tivessem me demitido, não teríamos vivido os oito anos como vivemos”, comentou o espanhol em 2024. Técnico do Manchester City desde 2016, Guardiola já venceu 19 títulos no comando da equipe, mas, com os números do seu primeiro ano, dificilmente teria permanecido em um clube brasileiro. 

Os números mostram que os técnicos nem sempre são o maior problema dos clubes, ainda que o time esteja em uma fase difícil. A troca de treinador pode até parecer uma solução, mas nem sempre resolve questões mais profundas. Sem planejamento, clareza nos objetivos da temporada e confiança no próprio trabalho, qualquer projeto acaba sendo interrompido antes de realmente dar resultado. O número revela a instabilidade e expõem um ciclo vicioso de decisões reativas e pouca visão a longo prazo. 

No fim das contas, demitir o técnico virou quase um padrão no futebol brasileiro e isso não é uma coincidência, mas o reflexo de uma estrutura que prefere trocar peças a resolver problemas. Enquanto essa lógica continuar, os resultados dificilmente serão diferentes.

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O artigo acima foi editado por Olivia Nogueira.

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Beatriz Martins

Casper Libero '26

journalism student, bookworm, always fangirling about Taylor Swift, and constantly talking about any music, movies, series or sports.