As eleições gerais brasileiras estão entre os principais eventos do país em 2026. Pensando nas urnas, potenciais representantes políticos começam suas campanhas desde o início do ano eleitoral. O que tem sido observado é que a política do Brasil está cada vez mais dividida, tanto no poder Executivo quanto no Legislativo.
Para esta matéria, foi feita uma entrevista com o jornalista Guilherme Caetano, repórter do Estadão. Caetano informou e comentou sobre contextos anteriores, questões atuais e possíveis cenários do início oficial das campanhas.
Cenário político atual
As expectativas das próximas eleições é que as disputas, tanto para presidente quanto para o Congresso Nacional, mantenham-se polarizadas, ou seja, com uma concorrência de dois lados opostos no espectro político.
Este é um fenômeno que se repete desde as eleições de 2018, em que um representante do PT e outro da família Bolsonaro dividiram os votos de mais de 90% da população brasileira.
Nas eleições de 2018, o vencedor foi Jair Bolsonaro, então do PSL e atualmente no PL, apoiado no sentimento de antipetismo da época. De 2019 a 2022, somado com a gestão da pandemia, o cenário do Governo Federal era de hostilidade — principalmente com a imprensa. Os veículos jornalísticos eram descredibilizados e ofendidos em entrevistas pelo presidente da república. Guilherme Caetano relata que, durante a gestão dele, eram poucos os jornalistas que ficavam no “cercadinho de imprensa” da Alvorada.
Estes aspectos foram alguns dos fatores que levaram Lula (PT) à terceira vitória em 2022. A diferença do percentual de votos para o de Bolsonaro, entretanto, foi de 1,8%.
A gestão de Lula foi apontada por Caetano como mais democrática e menos hostil em relação ao governo anterior: a violência contra a imprensa diminuiu e o presidente se voltou à “manutenção da democracia”. Porém, seu período no poder foi marcado por criação de taxas, pelos impostos e pela criminalidade, amplamente divulgados pela mídia e pela oposição, mais do que outros feitos considerados positivos.
Atualmente, a tensão causada pela polarização ainda permanece, mas os acontecimentos mais recentes estão ligados à gestão de Lula e aos escândalos da família Bolsonaro – a prisão de Jair e a estadia de Eduardo nos Estados Unidos, que causou a pressão externa sobre o Brasil com o tarifaço.
Lula x Flávio Bolsonaro
A expectativa é que neste ano os protagonistas das eleições à presidência sejam Luiz Inácio Lula da Silva, atual ocupante do cargo e candidato a presidente pela quarta vez, e Flávio Bolsonaro (PL), senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Caetano afirma que a campanha de Lula deve focar nos feitos econômicos durante sua gestão, como o crescimento do PIB, a diminuição dos índices de desemprego e a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Somado a isso, ele também deve manifestar apoio à proposta de acabar com a escala 6×1, que ainda transita no Congresso.
Os principais problemas em sua campanha podem ser a falha na comunicação durante o governo, que não conseguiu deixar em destaque suas conquistas, e a segurança, pauta que segue em alta por conta de operações recentes contra o tráfico e a possibilidade de os Estados Unidos classificarem o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas;Este é o calcanhar de Aquiles do PT e da esquerda brasileira, que procuram uma abordagem mais “humanista” à criminalidade, enquanto a direita propõe soluções de efeito imediato e as coloca em destaque em suas propagandas.
A candidatura de Flávio Bolsonaro, por sua vez, deve dar continuidade ao legado de seu pai. Porém, a anistia de Jair, questão levantada por parlamentares do PL, ficou em segundo plano, já que essa medida se tornou impopular entre os brasileiros; em vez disso, sua campanha deve ter um discurso conservador que evoca maior rigidez na segurança e redução de impostos.
Esta pré-candidatura não era esperada por quem acompanha política. Guilherme diz que “foi uma surpresa para todo mundo”. Flávio teria sido escolhido pelo próprio pai para colocar a família de volta na presidência enquanto o mesmo cumpre sua pena de 27 anos e 3 meses, devido à tentativa de Golpe de Estado empregada entre os anos de 2022 3 2023. Segundo Caetano, três nomes eram mais estipulados antes do ano passado:
– Michelle Bolsonaro (PL): atual esposa de Jair. Porém, apresentava problemas com o resto da família e já revelou em entrevistas que não pretendia se candidatar à presidência;
– Eduardo Bolsonaro (PL): deputado federal, um dos filhos de Jair mais cotados para seguir seu legado. Estima-se que tenha deixado de ser uma possibilidade após ter se reunido com o presidente dos EUA, Donald Trump, para convencê-lo a aplicar o “tarifaço” no Brasil em 2025, ato que o fez réu no Supremo Tribunal Federal (STF);
– Tarcísio de Freitas (Republicanos): governador de São Paulo, aliado dos Bolsonaro. Poderia ser uma opção mais equilibrada para atrair eleitores de centro-direita, contrários a Jair, mas apresenta conflitos de interesse devido à sua suposta moderação.
A campanha de Flávio, entretanto, deve ter como maior problema algo semelhante ao problema de Eduardo: suas visitas a eventos conservadores nos Estados Unidos, nos quais pediu pressão diplomática para eleições “livres e justas baseadas em valores de origem americana”. A soberania nacional já era um assunto defendido por esquerdistas, centristas e direitistas moderados desde a primeira ocorrência, e pode ser usado na campanha de Lula novamente em período eleitoral.
O Congresso Nacional e a internet nas eleições
No período atual, ainda predomina a incerteza quanto aos candidatos a senadores e deputados federais. Isso acontece porque a janela partidária, período em que parlamentares podem mudar de partido sem perder o mandato atual, ainda está em vigor e acaba no dia 3 de abril. Alguns nomes já foram anunciados, como o de Pablo Marçal, candidato à prefeitura de São Paulo em 2024 e julgado inelegível até 2032, pelo partido União Brasil. Outros nomes como Nikolas Ferreira (PL) e Erika Hilton (PSOL) são esperados para serem candidatos à reeleição na Câmara.
Em relação aos partidos, Guilherme Caetano observa uma tendência de número recorde de deputados do PL: “A maior bancada de um partido desde a redemocratização foi do PFL, do FHC (Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil de 1995 a 2003), com 105 deputados. O PL elegeu 99, falta pouco para chegar nisso”. Em contrapartida, o PT e o PSOL, base de Lula no Congresso, procuram aumentar sua popularidade para que o atual mandatário, tenha mais apoio no Legislativo em caso de reeleição.
Um dos problemas da esquerda, porém, é o acesso aos jovens. “O PSOL tem uma bancada mais jovem, mas o PT tem uma das idades médias mais altas do Congresso”, diz Caetano. E um dos campos mais frequentados por adolescentes e jovens adultos são redes sociais. A internet se tornou um ambiente importante para a disseminação de informações, tanto as verdadeiras como as falsas,
Pesquisas apontam que os políticos mais engajados na internet são os de direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira e o vereador pelo município de São Paulo Lucas Pavanato (PL). O motivo da popularidade ainda é questionado por especialistas, mas Guilherme, que atualmente cobre a “nova direita brasileira”, aponta o uso do sensacionalismo nos conteúdos, o que ativa e preocupa mais ainda quem os recebe. Além disso, tais políticos são mais novos e se comunicam como jovens, o que inclui o uso de memes e vídeos no TikTok, por exemplo.
Para além das próprias redes sociais, uma preocupação geral das eleições, segundo Caetano, é a presença da inteligência artificial generativa e seu potencial para produzir desinformação. As chamadas “fake news” são problemas conhecidos desde 2018, com casos como o “kit gay”; com a criação de imagens, áudios e vídeos, pode ser ainda mais difícil identificar o que é e o que não é real. Isso pode prejudicar campanhas de qualquer espectro político.
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O artigo acima foi editado por Marcele Dias.
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