Para quem ainda não completou 16 anos, aplicativos como Facebook, Instagram, TikTok, Snapchat, Threads, X (Twitter), Reddit, YouTube, Twitch e Kick não podem ser acessados, pelo menos não na Austrália.
Multas que podem chegar a 48,5 milhões de dólares australianos às empresas de tecnologia representam um alívio para pais e ativistas que argumentam que o uso das redes sociais para crianças e adolescentes é prejudicial à saúde mental.
Um estudo feito pelo governo australiano no começo do ano apontou que cerca de 96% das crianças de 10 a 15 anos usam redes sociais e que 7 em cada 10 delas já foram expostas a conteúdos ou comportamentos nocivos, que vão de materiais contra mulheres a vídeos de brigas e outros que podem contribuir também para o desenvolvimento de distúrbios alimentares e suicídio.
Segundo a BBC News Brasil, o governo diz que a medida – uma política inédita no mundo e popular entre muitos países – busca reduzir “pressões e riscos” a que crianças estão expostas nas redes sociais, “decorrentes de conteúdos prejudiciais à saúde e ao bem-estar”. Entretanto, há quem conteste a decisão da justiça, alegando a perda do direito de acesso à informação.
Vale lembrar que esses jovens ainda podem acessar a internet, sites educacionais e jogos que não sejam de redes sociais. A proibição foca no “vício” e no “bullying” disseminados pelos algoritmos das redes.
Proibir é educar ou solucionar?
“Eu não acho que proibir seja o melhor caminho”, diz a psicóloga Giulia Paspaltzis, especializada em Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) em crianças e adolescentes. Para ela, as redes são elementos importantes para uma boa convivência com amigos e isso faz parte do cotidiano do adolescente. Mas, uma vez que são menores de idade, é responsabilidade dos pais supervisioná-los e não proibi-los.
“Eu acredito que a comunicação deve ser uma via de mão dupla, então antes de proibir, podemos expor nossas formas de pensar entre pais e filhos para tentar chegar a um acordo. Assim eu vou dar uma possibilidade ao adolescente de se sentir ouvido”, afirma.
Supervisionar o adolescente e orientá-lo em relação às redes é essencial, uma vez que, na visão da profissional, eles não possuem maturidade suficiente para lidar com essas plataformas e tendem a fazer escolhas impulsivas.
“Os adolescentes não têm capacidade cognitiva de fazer escolhas com responsabilidade da melhor forma, já que o cérebro deles ainda não está totalmente formado, uma vez que isso só acontece aos 25 anos.”
Para que haja uma educação efetiva, é necessária uma comunicação aberta entre pais e filhos — muitas vezes o problema não está na proibição das redes em si, mas em como pais e adolescentes lidam com isso. O exercício da escuta, por exemplo, ajuda esses jovens a se sentirem acolhidos e compreendidos, diminuindo a necessidade de recorrerem às redes em busca desse apoio.
“É preciso trabalhar a aceitação dentro deles [adolescentes] e entender que isso não é o fim do mundo – tal lei é uma oportunidade para trabalhar a criatividade e habilidades sociais que, dentro de casa ou nas redes sociais, não conseguimos. Entendo que essa lei é uma tentativa de estimular isso, mas forçar não é o caminho” — argumenta Paspaltzis.
O isolamento de grupos vulneráveis — a proibição vale para todos?
Mesmo que a lei seja vista como “experimento” global, ela generaliza o uso das redes para todas as crianças e adolescentes australianos. Grupos vulneráveis, como aqueles que possuem deficiências cognitivas, não enxergam essa proibição como algo positivo no seu desenvolvimento em comunidade.
Para esses indivíduos, as redes sociais são mais do que apenas espaços de entretenimento. São ambientes que proporcionam identificação e construção de vínculos com pessoas que compartilham vivências semelhantes. Para Paspaltzis, as redes sociais são uma boa alternativa para socialização desse público, mas ela reforça a dificuldade deles em entender o perigo por trás dessas redes.
“Eles não entendem que pessoas nessas redes podem querer fazer mal a eles, o que exige ainda mais supervisão dos pais. Ainda assim, é preciso discutir exceções, porque pessoas com neurodivergência precisam de olhares diferentes devido às dificuldades de interação pessoalmente.”
Uma matéria divulgada no G1 sobre o caso de Lily — uma criança de 12 anos com espectro autista e paralisia cerebral exemplifica essa questão. A mãe da menor, Jennifer Crowther, que gerencia o acesso da filha à internet, reconhece os perigos das redes sociais, mas ambas se sentem frustradas com a perda de conexão que lhes foi imposta.
“Para crianças com deficiência ou outros grupos marginalizados, [as redes sociais] podem ser o único caminho para encontrar outras pessoas como elas”, diz Jennifer.
Nesse contexto, o debate sobre a proibição não diz respeito apenas à presença nas plataformas, como também à necessidade de acesso com moderação. Proibir completamente o uso desses aplicativos pode impedir que crianças com deficiência desenvolvam laços sociais e se sintam acolhidas em ambientes digitais. Mais do que restringir, entender o que essa comunidade jovem sente permite que, junto a eles, sejam construídas medidas que possam solucionar, de forma eficiente, o vício e o bullying propagados pelos algoritmos.
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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.
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