A direita e a extrema-direita brasileiras atravessam um período de intensa turbulência e redefinição, lutando para manter a coesão e o apelo popular que definiram seu auge anos atrás. Se antes o bolsonarismo canalizava o descontentamento e mobilizava multidões, hoje o campo enfrenta um desgaste multifacetado: crises internacionais, a inegibilidade de sua principal liderança e um notável desalinhamento com a opinião pública em votações-chave no Congresso.
O Tsunami de Taxas e Sanções dos EUA
Um dos abalos mais significativos veio da arena internacional. A decisão do governo de Donald Trump de impor uma taxação de 50% sobre produtos brasileiros, justificada, em parte, pelo tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil, criou um imenso constrangimento. Além do tarifaço, as sanções aplicadas pelos EUA a autoridades e ministros brasileiros, chegando ao seu ápice com a imposição da Lei Magnitsky ao Ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, representaram um ataque direto à soberania nacional e ao sistema democrático do país.
Embora o governo Lula tenha reagido diplomaticamente, iniciando negociações para reverter as medidas, o presidente ainda assim reafirmou a soberania brasileira. Por outro lado, o episódio expôs uma vulnerabilidade crítica da direita: sua dependência e alinhamento incondicional com a política externa de Trump não se traduziram em proteção, mas sim em crise econômica e política para o Brasil. Em um cenário polarizado, a defesa das sanções por parte de alguns expoentes da oposição gerou uma imagem de pouco compromisso com o interesse nacional.
Bolsonaro Perde o Capital, o Movimento Perde o Fôlego
O panorama interno não é menos desafiador. A condenação e a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, que o afastaram da disputa eleitoral até 2030 – e em outros processos, como a condenação na trama golpista, até 2060, segundo a Agência Brasil – representaram um golpe para o capital político da direita. Sem seu principal líder no pleito, a extrema-direita se vê obrigada a buscar novas figuras, o que tem gerado disputas internas e uma perda de foco estratégico, como apontam analistas.
Em paralelo, a força das manifestações de rua tem diminuído. As grandes concentrações que marcavam o cenário político nos anos anteriores minguaram, indicando uma desmobilização da base de apoio. Cientistas políticos, como Priscila Lapa, avaliam que “Bolsonaro foi se enfraquecendo” e que a maior parte da população “estava favorável à atuação do governo Lula” após o desfecho de casos judiciais importantes, sinalizando uma mudança no humor popular.
O Descompasso com a Opinião Pública no Congresso
Talvez o fator mais corrosivo para o apelo popular da direita tenha sido o seu comportamento recente no Congresso Nacional. Parlamentares identificados com o campo têm votado a favor de pautas que geraram intensa repulsa popular, afastando o eleitorado que valoriza a moralidade e o combate à corrupção.
- A PEC da Blindagem: O apoio em peso à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que buscava ampliar o foro privilegiado para parlamentares e autoridades federais e, de certa forma, blindar os políticos de investigações criminais foi amplamente rejeitado nas ruas, ganhando o apelido de “PEC da Bandidagem“. Embora a proposta tenha sido derrubada por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado – impulsionada pela pressão popular – o voto favorável de muitos deputados da direita na Câmara deixou uma marca negativa.
- A Anistia: A articulação para aprovar uma proposta de anistia ou de redução de penas para condenados por atos antidemocráticos (como os de 8 de janeiro) também mobilizou protestos em todo o país, com o mote “Congresso Inimigo do Povo”. O principal objetivo da proposta era anistiar Bolsonaro e toda a considerada “Alta Cúpula do Golpe” condenada junto ao ex-presidente em 12 de setembro.
- Veto ao IR dos Ricos: Outro ponto de atrito foi o apoio ao veto presidencial, ou então a derrubada da proposta de aumento do Imposto de Renda (IR) para os super-ricos através dos votos na própria Câmara dos Deputados. Já que essa é uma medida que, para a maioria da população, representa um avanço na justiça fiscal.
Ao priorizar pautas corporativas e de interesse próprio, a direita brasileira se vê cada vez mais distante do discurso anticorrupção e “antipolítica” que a levou ao poder. A crise atual, portanto, é menos sobre ideologia e mais sobre a incapacidade de transformar o capital político de anos anteriores em uma plataforma legislativa coerente com as demandas de seu próprio eleitorado.
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O artigo abaixo editado por Marcele Dias.
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