A representatividade lésbica nas telas ainda é um território em construção. Enquanto algumas produções apostam em tramas inovadoras e autênticas, muitas ainda insistem em recontar clichês ultrapassados e estereótipos, resultando em desserviços para a comunidade.
Se você também já se cansou de dar play em histórias que prometem representatividade, mas terminam em decepção, este guia é a escolha certa. Aqui, estão reunidos filmes e séries com protagonismo lésbico com diferentes propostas e gêneros para te ajudar na hora de escolher o que assistir (ou evitar).
Descobertas e Dramas Adolescentes
O tema mais recorrente em produções lgbtqiapn+, os famosos “Coming of Age” são os queridinhos dos roteiristas e de grande parte do público. Por esse motivo, filmes e séries que giram em torno da descoberta da sexualidade podem parecer batidos quando mal executados.
Assunto de Meninas (2001)
Assunto de Meninas (2001) acompanha a vida de três alunas de um internato feminino, rígido e conservador no Canadá, em 1990. Paulie (Piper Perabo) é uma jovem rebelde e impulsiva que secretamente se envolve com Tori (Jessica Paré), uma estudante mais reservada. A história é narrada por Mary (Mischa Barton), uma aluna nova e colega de quarto que observa a relação entre as duas.
O longa traz representações estereotipadas e diálogos que invalidam, ainda que de forma indireta, não apenas as lésbicas, mas a comunidade LGBTQIA+ como um todo. Após serem flagradas juntas, o primeiro instinto de Paulie e Tori é negar a própria sexualidade. Ao longo do filme, a palavra “lésbica” é evitada ou retratada como algo sujo e motivo de vergonha.
No final, a mensagem reforça a ideia de que beijar garotas deve ser apenas uma fase, e que o final feliz é algo impossível para pessoas LGBTQIA+, deixando um tom desanimador para quem busca representatividade.
Everything Sucks! (2018)
Em contrapartida, a série “Everything Sucks!”, da Netflix, acompanha o processo de autodescoberta de Kate, uma adolescente de 15 anos que começa a notar que sua atração por garotos não é exatamente como o esperado.
Com uma atmosfera leve e divertida, a série se passa durante os anos 90, em um típico high school norte-americano, onde os alunos segregam-se entre tribos que parecem defini-los e ditar seu status social. No “grupo dos excluídos”, Kate é surpreendida quando a inimizade com uma garota popular se transforma em um romance inusitado.
Em apenas 10 episódios, a série consegue retratar que o relacionamento entre duas garotas e o processo de entender a própria sexualidade pode ser bonito e calmo, ao invés de trágico, turbulento e assustador. Além disso, o elenco composto por jovens e o ritmo lento, que abraça a tensão das “primeiras vezes” da adolescência, foram fatores que contribuíram para a construção de um Coming of Age verossímil.
Comédias para esquecer o mundo lá fora
Gosta de filmes sáficos, mas está cansada de chorar com dramas? Então talvez seja hora de apostar nas comédias com protagonistas lésbicas. Divertidas e descontraídas, elas oferecem a chance de se ver representada nas telas em histórias que fogem do trágico, desafiando a lógica que insiste em reduzir a vivência Queer à dor.
Clube da Luta para Meninas (2023)
Neste longa, duas adolescentes nada populares têm a ideia de fundar um clube de luta e autodefesa para mulheres na escola, com o objetivo de impressionar garotas. Movidas pelo medo de terminarem o ensino médio virgens, PJ (Rachel Sennot) e Josie (Ayo Edebiri) embarcam em uma aventura caótica, que acaba saindo totalmente do controle.
O filme de Emma Seligman aposta em uma comédia escrachada que beira o surrealismo, com piadas controversas, cenas nonsense e plots insanos. Clube da Luta para Meninas é um típico besteirol americano, mas, ao invés de um grupo de “losers” composto por garotos, você encontrará meninas desajeitadas que sonham com as garotas mais bonitas do colégio.
A premissa da obra é bastante interessante, mas talvez não agrade a todos. O humor ácido e as cenas de tom nonsense podem soar desconexos para alguns espectadores, levando a obra a ser vista como “rasa” ou até “boba”.
Imagine Eu & Você (2006)
Dirigido por Ol Parker, Imagine Eu & Você (2006) conta a história da jovem Rachel (Piper Perabo) que, no dia de seu casamento com Heck (Matthew Goode), conhece a florista Luce (Lena Headey) durante a cerimônia e sente-se instantaneamente atraída por ela.
À medida que Rachel e Luce se aproximam, a jovem florista revela ser lésbica, e Rachel começa a questionar a própria sexualidade, abalando seu recente casamento e deixando-a em um verdadeiro impasse: insistir em seu relacionamento perfeitamente estável ou mergulhar nessa nova paixão intensa?
Imagine Eu & Você é uma comédia romântica digna de sessão da tarde, cheia de momentos emocionantes e cenas hilárias, que vai aquecer seu coração. Com química contagiante entre as protagonistas, esse longa celebra o amor de forma leve e encantadora, mostrando que seguir o coração pode ser a loucura mais sã de todas. Se você busca esquecer os problemas e embarcar em uma jornada de descobertas, risadas e romance, este filme é uma ótima pedida.
Histórias de Paixão e Desejo
Nem todo romance se resume a flores e declarações. Alguns nos levam a explorar desejos e conexões intensas, e é comum buscar por isso em retratos televisivos. Mas, quando se trata de relacionamentos entre duas mulheres, é preciso ter o dobro de cuidado para que as relações não sejam mostradas de forma desrespeitosa ou reduzidas à objetificação.
Azul é a Cor Mais Quente (2013)
Neste filme, acompanhamos a história de Adéle (Adèle Exarchopoulos), uma adolescente francesa que ainda está explorando sua identidade e seus desejos. Inicialmente, a narrativa segue sua vida cotidiana, porém tudo muda quando Adèle conhece Emma (Léa Seydoux), uma estudante de artes mais velha que desperta nela sentimentos inéditos e muito intensos.
Os bastidores de “Azul é a Cor Mais Quente” foram marcados por diversas polêmicas envolvendo assédio sexual, abuso psicológico e agressões. A situação mais comentada foi a famigerada cena de sexo de 7 minutos, gravada em plano sequência. Em entrevistas na época, as atrizes revelaram ter sido obrigadas a filmar cenas íntimas por mais de 10 horas consecutivas.
O diretor Abdellatif Kechiche exigia que as atrizes repetissem as cenas mesmo quando exaustas ou fisicamente feridas, alegando querer captar a perfeição. Adèle Exarchopoulos chegou a chorar no set devido à dormência e sangramento nas partes íntimas provocados pelo uso de próteses. Além disso, Kechiche frequentemente tocava o corpo das atrizes para “mostrar a maneira certa” de executar as cenas.
Com três horas de duração, o filme se perde em cenas prolongadas de sexo, reduzindo as protagonistas a meros objetos de fetiche, que dão vida às fantasias problemáticas do diretor. Para quem busca um romance realista e saudável entre mulheres, esse definitivamente não vale o tempo investido.
A Criada (2016)
Vencedor do prêmio BAFTA de “Melhor Filme de Língua Não Inglesa” (2018), o longa sul-coreano A Criada, de Park Chan-wook, foi aclamado mundialmente por sua abordagem sofisticada de temas como desejo e sexualidade, sendo a escolha perfeita para aqueles que procuram um romance sensual e envolvente.
Ambientada em 1930, durante a ocupação japonesa, o filme segue a história de Sook-hee uma jovem vigarista recrutada pelo golpista Conde Fujiwara e enviada para trabalhar como criada de Hideko, uma herdeira japonesa, com o objetivo de seduzi-la e influenciá-la a se casar com Fujiwara para roubar sua fortuna. No entanto, à medida que Sook-hee e Hideko se aproximam, uma relação inesperada se desenvolve entre elas, desafiando os planos do Conde e estipulando uma relação de desejo e manipulação.
Além da trama bem elaborada e roteiro excepcional, a obra recebeu críticas positivas por evitar clichês do “lesbianismo fetichizado”, mostrando a sexualidade de forma respeitosa e centrada nas mulheres. Longe de serem gratuitas, as cenas de sexo em “A Criada” revelam desejo e representam a evolução emocional das protagonistas. A forma como o erotismo é utilizado — como um símbolo de poder e vulnerabilidade — é um dos grandes diferenciais da produção.
Para fãs de Terror
Caso o seu lance seja um bom suspense e altas doses de susto, saiba que personagens LGBT+ estão cada vez mais presentes nesse gênero. Felizmente, a diversidade tem ganhado espaço em produções de terror e suspense, o que demonstra que o gênero, muitas vezes associado a fórmulas repetitivas, também pode ser terreno fértil para novas perspectivas e representações.
A Maldição da Mansão Bly (2020)
Dos mesmos criadores de A Maldição da Residência Hill, A Maldição da Mansão Bly estreou em outubro de 2020 na Netflix e rapidamente ganhou popularidade. Contendo 9 episódios, a minissérie de terror combina suspense, drama e romance de forma genial. Além dos sustos, a produção se destaca pela emocionante história de amor entre as protagonistas Dani Clayton (Victoria Pedratti) e Jamie (Amelia Eve).
Nesta ficção seriada, acompanhamos Dani, uma jovem governanta recém-contratada para cuidar dos órfãos Miles e Flora na luxuosa mansão Bly. Não demora para que a atmosfera sombria da propriedade se revele e a jovem, que presencia cenas estranhas e aparições de fantasmas.
O que, a princípio, pode parecer apenas mais uma história de casa mal-assombrada, revela-se uma narrativa instigante, cheia de plot-twists e metáforas brilhantes. A Maldição da Mansão Bly utiliza elementos clássicos do terror para representar traumas e “assombrações” da vida real — como, por exemplo, um fantasma que simboliza a heterossexualidade compulsória. Se você procura uma história envolvente, que une romance, melancolia e o sobrenatural, essa é uma escolha imperdível para maratonar.
Rua do Medo: A Trilogia (2021)
A trilogia Rua do Medo, lançada pela Netflix em 2021, é dividida em três partes: 1994, 1978 e 1666. A narrativa acompanha a cidade de Shadyside, aparentemente pacata, mas marcada por uma onda interminável de crimes brutais que atravessam gerações.
Neste slasher, Deena (Kiana Madeira) e seus amigos embarcam em uma aventura sobrenatural para salvar sua ex-namorada, Sam (Olivia Scott Welch), enquanto desenterram cada vez mais segredos sombrios sobre o passado da cidade. Entre perseguições e reviravoltas, a trama também dá profundidade à relação das personagens, trazendo representatividade lésbica de forma orgânica para dentro do gênero de terror.
“A Rua do Medo” é a escolha ideal para quem curte um clássico terror sangrento. Com tramas entrelaçadas e protagonistas autênticos, a trilogia prende o telespectador do começo ao fim e definitivamente vale o seu play!
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O artigo acima foi editado por Camila Iannicelli
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