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Casper Libero | Culture

O que é preconceito linguístico e de que forma impacta a percepção sobre o português brasileiro?

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Sofia Paiva Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Imagine o seguinte cenário: você é brasileiro, nasceu e cresceu no maior país da América Latina, e algumas de suas decisões te levam a visitar Portugal. O lugar é charmoso e parte significativa da mobília dos palácios históricos só existe porque séculos atrás portugueses aportaram na sua terra natal e levaram tudo, modificando culturas e línguas indígenas nesse processo. Em mais um dia de passeio, quando você está na frente do hotel à espera de um táxi, comenta com o porteiro: “Está chovendo forte, não?”. E ele responde: “Não ‘está chovendo’, está ‘a chover’!”. Atitudes como essa tem nome: preconceito linguístico.

Na teoria, o que é preconceito linguístico?

Preconceito linguístico pode ser definido como práticas que colocam um indivíduo em posição de inferioridade diante de outro em relação à forma como cada um fala. Dentro da sociedade em que essas pessoas estão inseridas, aquele que se coloca acima na hierarquia, geralmente, domina a língua padrão que tem maior prestígio social por escolha política e arbitrária enquanto aquele considerado inferior carrega elementos marcantes no modo de falar, como sotaque ou deslizes no uso da norma culta, que são vistos respectivamente como algo digno de piadas ofensivas e o “jeito errado de falar”.

@lizemopetey

Replying to @BenG disclaimer: this is different from correcting a language learner understanding standard pronunciation, or correcting someone on the pronunciation of your name. But overall, we could all do with a little less “um actually, you say it like this” in our lives. Thanks to Jane Setter, professor of phonetics from the University of Reading for this great info!

♬ original sound – Eliza Petersen

Para quem é vítima desse tipo de preconceito, os efeitos podem ser percebidos em diferentes escalas. Desde a mais pessoal, quando o indivíduo tenta “maquiar” a maneira como realmente fala por meio da alternância de códigos, por exemplo, que consiste em alterar constantemente os padrões naturais da fala para se adequar às normas. Até a que impacta diretamente o coletivo, como a criação de estereótipos que generalizam populações, cita-se a crença de que todo gaúcho opta por um “Bah, tchê” ao cumprimentar companheiros, além de ocultar culturas ao forçar os falantes da língua que as representa a abandonarem seus traços característicos, como aconteceu com os indígenas durante a invasão portuguesa.

@barbieunder

bora bater um papo sobre preconceito linguístico?

♬ som original – Barbie Under

Agora, de que forma a história hipotética entra nesse debate?

Simples. Se vemos como a percepção de diferentes dialetos em um microcosmo pode alterar a maneira como a sociedade enxerga as populações que os utilizam, pense em como esse efeito pode se tornar ainda mais significativo na esfera macro. 

Quando falamos de um país com dimensões continentais e que tem uma língua utilizada só nele, Brasil é o nome que vem à mente. Apesar de ser uma língua de origem latina e lusófona, elementos que poderiam aproximar o português brasileio do português europeu – da mesma forma que acontece entre os outros países que foram colonizados por Portugal – ou do espanhol, que é o idioma predominante entre os países da América Latina, a língua falada no Brasil se tornou única. 

O pesquisador da língua Caetano Galindo, na obra “Latim em pó – Um passeio pela formação do nosso português”, esclarece que, para além do que foi mencionado acima, o português brasileiro adquiriu o legado dos dialetos indígenas e dos vários falados pelos africanos que vieram para o país durante tráfico interatlântico de escravizados. Galindo ainda relembra que o português naturalmente passaria por processos de evolução como língua e, no que diz respeito à falada no Brasil, sofreria alterações exclusivas.

É inegável, nesse sentido, que a forma de falar do brasileiro será percebida em quase todo mundo. Características como uma língua cantada, com entonação arrastada e, dependendo da região do falante, com um chiado específico são frequentemente utilizadas para descrevê-la. Nenhuma dessas afirmações ofende quem tem o português do Brasil como língua-mãe. Entretanto, algo bem diferente acontece quando algum português, como o de exemplo hipotético, corrige a forma que um brasileiro fala, o tom é de ironia e desrespeito. Deixa de ser uma maneira de caracterizar o idioma e se transforma em uma atitude preconceituosa que diz, mesmo sem falar em termos claros, “a sua forma de falar o português está errada”.   


Essa percepção preconceituosa do português brasileiro não encontra apenas situações hipotéticas em que se balizar. Com a popularização do YouTube, crianças e adolescentes portugueses passaram a entrar em contato com canais, como o do Luccas Neto, em que os produtores de conteúdo falam o português do Brasil. O efeito disso foi percebido em toda sua magnitude quando esses jovens adotaram traços linguísticos brasileiros. Por exemplo, deixaram de falar “autocarro” para dizer “ônibus” e de priorizar o infinitivo para usar o gerúndio. “Abrasileiraram” o seu português. Desesperados, muitos pais contratam fonoaudiólogos na expectativa de sanar o que consideram um problema. Embora essa seja uma expressão do mesmo preconceito linguístico que foi apresentado logo no primeiro parágrafo da matéria, aqui as consequências são visíveis no mundo real.

Situações como essa, em que pais portugueses não aceitam o fato dos filhos falarem como os brasileiros porque se consideram superiores linguisticamente aos habitantes da ex-colônia, escancaram que não há justificativa plausível para negar uma forma de falar e, menos ainda, razões para estereotipar populações ou negar as nuances de dialetos. A língua é um organismo vivo que muda e nunca morre parecida com o que começou.

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O texto acima foi editado por Giulia El Houssami.

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Sofia Paiva

Casper Libero '28

– Viveu em quatro das cinco regiões do Brasil, sendo elas: Sudeste (Apiaí, Valinhos e São Paulo – SP, além de Pedro Leopoldo – MG); Centro-Oeste (Bodoquena -MS); Sul (Curitiba – PR) e Norte (Belém – PA);

– Estuda na Faculdade Cásper Líbero.