Considerado um dos maiores símbolos culturais do país, o futebol brasileiro é um marco de identidade e paixão nacional. Com cantos e bandeiras de torcidas vibrantes, o sentimento de comunidade ultrapassa as linhas de campo. Porém, em um ambiente marcado por um histórico rígido de masculinidade, ser um torcedor gay ainda é um grande desafio.
Como força de resistência dentro desse espaço tradicionalmente excludente, surgiram as primeiras torcidas LGBTQIA+ brasileiras. Entre obstáculos e conquistas, esses coletivos buscam ampliar o significado das arquibancadas, mostrando que torcer também é um ato político.
A “COLIGAY”: O NASCIMENTO DE UMA NOVA ERA
Criada em 1977, por Volmar Santos, como resposta à uma arquibancada desanimada em plena ditadura militar, nasceu a Coligay – primeira torcida LGBTQIA+ brasileira. Dono da Boate Coliseu, espaço de festas e baladas de público gay em Porto Alegre, Volmar sentiu a necessidade de fundar uma torcida mais animada e diferente das outras. Reuniu frequentadores da Coliseu e lançou a ideia, que foi muito bem aceita. O nome do coletivo nasceu pela junção do nome da balada com o público que o acompanharia.
Ao se caracterizar como uma oposição ao regime militar, esse movimento homossexual buscava se inserir no debate público, conquistar espaços de visibilidade e constituir um cenário cultural e artístico LGBTQIA+. Contando com longas túnicas com as cores do tricolor gaúcho, além de uma banda própria, a nova torcida impulsionava cantos em apoio ao Grêmio ao longo de toda partida.
Mesmo com uma constante vigilância policial, o coletivo realizou um marco na história do país. “Pela primeira vez num Estado machista como o nosso, os homossexuais se manifestam em público”, relatou Volmar. Com a sorte da vitória do clube, os torcedores foram aceitos como um grupo de apoio ao Grêmio. Por um bom tempo foram considerados “pé-quentes”.
Sustentada pelo Movimento gays de Porto Alegre e por jantares beneficentes, a Coligay durou cerca de seis anos e testemunhou a conquista da Libertadores e do Mundial em 1983. Com tensões internas e intensificações de pressões externas, além de uma mudança no perfil das organizações, como um símbolo histórico, a Coligay chegou ao fim.
OS DESAFIOS DE SER UM TORCEDOR HOMOSSEXUAL
Dentro dos estádios, para defender seu time e atacar seus rivais, quaisquer provocações são tidas como liberadas. Cantos homofóbicos e até agressões físicas tornaram-se banais nas arquibancadas futebolísticas. Em 2022, segundo o Observatório da Discriminação Racial no Futebol (que monitora também LGBTfobia), o país registrou um aumento de 76% de cenários de LGBTfobia nos estádios brasileiros.
Nesses ambientes, buscando diminuir o time rival, a homofobia motiva cantos discriminatórios, insultos e até agressões. O “torcer” mistura-se com o preconceito, e a violência é o resultado. Ao frequentar os jogos, muitos torcedores homossexuais relatam evitar utilizar símbolos que referenciem sua sexualidade, como bandeiras e camisetas nas cores do arco-íris, por medo de serem atacados.
Apesar do pioneirismo da Coligay ter sido essencial para que novos coletivos inclusivos ganhassem espaço, a luta só aumenta. A partir de 2010 novos movimentos homossexuais surgiram para combater o machismo institucionalizado no futebol brasileiro.
A NOVA ONDA DE TORCIDAS
Com a popularização da internet, as iniciativas vieram do meio virtual. Muitos coletivos LGTBQIA+ surgiram como grupos organizados no Facebook, Twitter e Whatsapp, com o principal objetivo de se organizar para marcar presença nos estádios e combater hinos homofóbicos e violências contra homossexuais. Quase todos os principais clubes do Brasil tem pelo menos uma torcida arco-íris. Por medo de frequentar os estádios, a maioria delas ainda concentra suas ações nas redes sociais
Em entrevista para o Estadão, Carlos Costa, que acompanha o Palmeiras desde 1997, diz que agora está na esperança de que o coletivo do qual faz parte, a PorcoÍris LGBT, criado no Twitter em 2019, possa frequentar o estádio de forma assumida. Por enquanto, os membros do coletivo continuam indo torcer pelo time sem usar símbolos LGBTQIA+.
Em cenário similar, em 2022, a Fiel LGBT, coletivo do Corinthians, estreou o lançamento de uma camiseta própria no Dia internacional do Orgulho LGBT. A reação dos demais torcedores foi direta e clara: ameaças homofóbicas à fornecedora das camisetas. A Fiel LGBT optou por pausar temporariamente a produção.
Em entrevista à ESPN, Harryzera, vice-presidente do coletivo, relatou que os ataques iam de diálogos machistas à ameaças de morte. Sobre a situação, conclui: “Nos uniformizamos por dois motivos: pela diversidade, representatividade e credibilidade. Estamos ali, naquele momento, unicamente em prol do clube, que a gente ama e vive. Chegou a hora de estarmos a caráter como um todo”.
DIRETAMENTE DO COLETIVO
Na busca pela democracia nos estádios de futebol, o coletivo Canarinhos LGBTQ surgiu em novembro de 2019. Com o intuito de combater a LGBTfobia, o coletivo se une para discutir ações, campanhas, iniciativas e sugestões de inclusão e diversidade. Ao longo dos anos, foram-se somando coletivos que surgiram com o mesmo intuito em diversos clubes. Entre eles: As Marias de Minas, Palmeiras Livre e o Vou Festejar.
Com menos de dois anos de existência, o Vou Festejar, torcida LGBTQIA+ do Atlético Mineiro teve um início completamente fluido. “Em 2024, o Galo tinha chegado à final da Libertadores e da Copa do Brasil. Resolvi sentar em um bar e assistir um jogo. Postei uma foto no Instagram e apareceram umas quatro pessoas achando aquilo tudo maravilhoso. Falaram que queriam assistir o próximo jogo comigo.”, conta Felipe Marcelino, fundador e organizador do coletivo.
Aos poucos, as pequenas reuniões começaram a tomar proporções maiores. Hoje, a torcida é composta por 110 pessoas – seis são mulheres lésbicas e o restante homens gays. Felipe observa: “As pessoas da comunidade LGBT são muito sozinhas, falta espaço de sociabilização. Eu percebo uma carência desse lugar de encontro, num ambiente seguro”.
Apesar de formarem esse novo espaço, de certa forma, seguro, os torcedores continuam com um pé atrás. O medo e a insegurança permanecem rondando-os. O torcedor percebe uma certa confusão nas comemorações da própria torcida. O futebol é um dos poucos lugares que ainda predomina os valores de uma machosfera, onde ser escroto, misógino, homofóbico é tolerável e incentivado. No caos das arquibancadas, o principal xingamento é uma pura combinação de misoginia com homofobia.
“Muitas vezes ficamos meio sem saber o que fazer. Estamos lá, animados e torcendo. O que fazemos? Cantamos juntos? Xingamos também?”
questiona Felipe Marcelino.
Unidos em nome do time, a torcida se reúne para assistir aos jogos, animar as arquibancadas e se fazer companhia. Temendo sua segurança, tentam manter uma certa discrição. “Acabamos de criar um boné. Colocamos o símbolo colorido e o ‘Atleticanos com orgulho’”, contou Felipe animado. “Pensamos em fazer uma camisa, mas alguém falou que camisa é demais. Vamos devagar.”, o torcedor conclui.
Entre comemorações e parcerias, o grupo pretende levar o projeto para o campo político. Pleiteando um projeto de lei junto à Assembleia Legislativa, reivindicam políticas públicas para o combate à LGBTfobia no futebol. Pretendem realizar uma discussão ampla para formular um projeto de lei com mais substância. Apesar de sentirem uma certa distância por parte do clube, com a necessidade vigente de estabelecer um espaço democrático e seguro, pensam em buscar uma comunicação para promover alguma ação.
Torcer é um direito. Mesmo sendo crime, a homofobia ainda está muito presente no universo do futebol, seja em cantos de torcida, nas arquibancadas, ou nas próprias redes sociais. Mais do que apoiar seus clubes, esses coletivos transformam o ato de torcer em uma afirmação de pertencimento. A população LGBTQIA+ tem direito de frequentar os mesmos espaços de forma segura. O futebol só será verdadeiramente do povo quando todo povo couber dentro dele.
O artigo acima foi editado por Laís Hidalgo.
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