Já passou o tempo em que dizíamos que alguém ia “entrar na internet”. Hoje, a conexão atravessa a vida cotidiana mesmo quando não estamos diante de uma tela. A lógica das plataformas digitais privadas ultrapassou o espaço virtual e passou a interferir na maneira como nos informamos, nos relacionamos e interpretamos o mundo. Se antes era preciso acompanhar um debate, assistir ao horário eleitoral ou procurar as propostas de um candidato para conhecer suas ideias, hoje um vídeo de poucos segundos pode alcançar milhões de pessoas antes mesmo que elas tenham procurado qualquer informação sobre política.
A política que aparece no feed
Essa transformação passa, em parte, pelo funcionamento dos algoritmos. No TikTok, o feed “Para Você” é organizado por um sistema de recomendação que considera diferentes sinais, como as interações do usuário, os vídeos assistidos, as contas seguidas e as informações presentes nas publicações. O próprio TikTok afirma que assistir a um vídeo até o fim pode ser um indicador relevante de interesse. Com isso, não é necessário seguir um político ou pesquisar sobre eleições para receber conteúdo político: ele pode aparecer entre vídeos aleatórios integrado ao fluxo cotidiano de consumo da plataforma. A questão, portanto, não é apenas o que os usuários procuram, mas também o que as plataformas decidem recomendar.
Segundo o relatório Digital 2026: Brazil, do DataReportal, o tempo médio mensal de uso do TikTok no Brasil chegou a 28 horas e 34 minutos por usuário na métrica apresentada pelo levantamento. Já a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, identificou que 46% dos usuários de internet de 9 a 17 anos acessam o TikTok várias vezes ao dia. Os indicadores têm universos e metodologias diferentes, mas apontam para a presença frequente da plataforma na rotina digital. Nesse cenário, como a política aparece para quem não necessariamente entrou no aplicativo para se informar?
Uma pesquisa do DataSenado, realizada em 2025 e divulgada em 2026, identificou que 72% dos brasileiros de 16 a 29 anos têm os meios digitais como principal fonte de notícias. No cenário internacional, o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, mostrou que, entre pessoas de 18 a 24 anos em 48 mercados, a proporção que apontava as redes sociais como principal fonte de notícias passou de 21%, em 2015, para 39%, em 2025. O relatório também observa que parte do consumo de notícias entre os mais jovens acontece incidentalmente: eles encontram informações enquanto utilizam as plataformas por outros motivos.
Visualizações e influência política
Um exemplo da dimensão que essa circulação pode alcançar é o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que acumula mais de 9 milhões de seguidores no TikTok e mais de 190 milhões de curtidas na plataforma. Em outubro de 2026, um levantamento do Sleeping Giants Brasil sobre o Instagram apontou diferenças acentuadas entre o desempenho de seus vídeos e o de publicações de outros perfis analisados. A pesquisa reuniu 300 vídeos de 30 contas, coletados em 11 de outubro, e comparou o desempenho do deputado ao de outros parlamentares e de grandes perfis brasileiros e internacionais, como Neymar, Anitta e Selena Gomez. Segundo a cobertura publicada pelo ICL Notícias, os vídeos de Nikolas apresentaram desempenho muito superior ao dos grupos de comparação.
O levantamento elucidou questionamentos sobre a distribuição de conteúdo político no Instagram e sobre favorecimentos controlados por quem comanda as empresas de plataformas privadas. Será mesmo que o consumo personalizado é tão personalizado assim? A política passa, então, a depender também de formatos, ritmos e estratégias de circulação próprios, cujo objetivo não é necessariamente formar cidadãos informados, mas recomendar conteúdos capazes de manter os usuários conectados.
A diferença entre alcance e influência aparece também nas eleições municipais de 2024. Em Fortaleza, um levantamento sobre a campanha no TikTok identificou que André Fernandes (PL) acumulou pouco mais de 18 milhões de visualizações entre 16 de agosto e 4 de setembro daquele ano, concentrando cerca de 85% das visualizações contabilizadas no período entre as publicações analisadas. Boa parte dos vídeos de maior alcance mostrava o candidato dançando ou cantando jingles de campanha. Apesar da visibilidade digital, Fernandes perdeu a disputa para Evandro Leitão (PT), eleito prefeito da capital cearense. O caso não demonstra que as redes sejam irrelevantes para as campanhas, mas evidencia que milhões de visualizações não se convertem automaticamente em votos.
A tela de fato chega à urna?
A presença da política nas plataformas, portanto, não deve ser medida apenas pelo número de seguidores, curtidas e visualizações. Um jovem pode assistir a um vídeo político e ignorá-lo; pode compartilhá-lo por ironia; pode se interessar pelo assunto e procurar outras fontes; ou pode incorporar aquela mensagem à maneira como compreende um candidato ou um acontecimento.
No TikTok, a ideia de sociedade do espetáculo, por exemplo, passa pela possibilidade de que propostas, disputas e conflitos públicos sejam consumidos por meio de performances, cortes e formatos pensados para capturar a atenção, que não necessariamente se traduzem na urna, mas que mudam toda a lógica de produção e consumo de peças e conteúdos políticos.
Se a política já circula entre vídeos de humor, músicas e recomendações personalizadas, talvez a pergunta não seja apenas se os jovens estão procurando informações sobre eleições, mas se reconhecem como informação política aquilo que encontram pelo caminho. A relação entre TikTok e voto exige investigar como esses conteúdos são interpretados, que conversas provocam e se, em algum momento, ultrapassam a tela para interferir na maneira como os jovens compreendem a vida pública.
A questão não é apenas se o TikTok influencia o voto dos jovens, mas como as plataformas privadas moldam sua relação cotidiana com a política. Entre consumir conteúdo e escolher um candidato, há um percurso complexo, no qual os jovens interpretam e compartilham sentidos dentro de um ambiente que também condiciona o que veem. Entender essa relação é essencial para refletir sobre como o espetáculo das telas influencia o comportamento dos jovens e a sociedade como um todo.
———————————————————————————————————————————————————————————————————————
O artigo acima foi editado por Ana Azeredo.
Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!