“A taxa de desemprego na casa dos 11% significa que esse indicador está retornando à trajetória em que ele vinha antes da pandemia”, afirma Vicente Loblein Heinen, pesquisador do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense
A taxa de desemprego do Brasil atinge a casa dos 11% nos primeiros três meses do ano de 2022 e se mantém estável, segundo a pesquisa Pnad Contínua. Esse é o menor índice para o trimestre encerrado em março desde 2016, quando ficou em 11,1%. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 29 de março de 2022 e mostraram uma divergência, já que o esperado é o aumento da procura por emprego devido aos desligamentos do trimestre anterior e não a estabilidade.
Isso não quer dizer, contudo, que a falta de trabalho esteja controlada. Ela ainda atinge 12 milhões de brasileiros, ou seja, um número alto. Houve sim crescimento dos trabalhadores formais, que se deu em empresas privadas, mas a expectativa do aumento dos ocupados foi interrompida. Trata-se de números melhores do que o esperado, pois informa uma recuperação do país em vista das rupturas ocorridas pela pandemia, mas não se lê como uma regeneração do mercado em si. Na verdade, é uma tentativa de sobrevivência do trabalhador que precisa encontrar meios de melhorar sua renda.
O pesquisador do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense, Vicente Loblein Heinen, afirma que a queda lenta no desemprego se vê desde 2017, ficando ainda mais devagar na pandemia. Tal diminuição é tomada mais pelo “autoemprego”, os chamados “bicos” ou “corres”, do que por iniciativas que de fato assegurem direitos e benefícios trabalhistas, uma vez que o mercado formal não consegue absorver todas as pessoas. O esperado é que a recuperação do mercado seja liderada pela informalidade, já que, mesmo tendo recuado de 40,7% para 40,1%, a taxa de indivíduos nessa situação continua elevada.
Ainda mais com a inflação nas alturas, o trabalhador se vê obrigado a aceitar qualquer tipo de emprego, e até mais de um, para colocar comida na mesa, sem nem poder negociar o salário. O operariado brasileiro vem sofrendo isso há anos, principalmente após a “contrarreforma” trabalhista ocorrida em 2017, a qual flexibilizou qualquer relação de trabalho. Mesmo com o preço dos alimentos básicos não parando de aumentar, estima-se que os trabalhadores ganhem ainda menos e o poder de compra diminua.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo necessário deveria ser de R$ 6.754,33, sendo que hoje ele é de R$ 1.212,00.
“O perfil é de um sujeito que trabalha de manhã, de tarde e de noite para ter o que comer de madrugada. De acordo com os dados mais recentes da PNAD Contínua, o número de horas trabalhadas no Brasil já é 3% superior ao que era antes da pandemia, porém a massa salarial ainda é 4,4% menor”, analisa Vicente. A recuperação pode até estar chegando, mas o trabalhador brasileiro não está sendo bem remunerado e a insegurança alimentar continua presente nas suas casas. Foram 19,1 milhões de pessoas no Brasil em experiência de fome, convivendo com ela dia a dia, nos últimos dois anos.
Para o fechamento de 2022, é presumido que a população consiga trabalho e que a taxa de desemprego continue em declínio, entretanto com salários muito baixos. A atividade empregatícia, desse modo, é vista como mero grito de sobrevivência, conduzindo-se pela informalidade e precariedade. Pensa-se também que por ser ano de eleição a situação esteja “parada”, na espera de atos decisivos para o rumo econômico do país.
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O artigo acima foi editado por Beatriz Testa.
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