A ciência brasileira pode estar diante de um momento histórico. À frente dessa possibilidade está a bióloga Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A pesquisadora lidera um estudo que pode representar um avanço revolucionário no tratamento da paraplegia e que já é apontado como um trabalho com potencial para colocá-la na corrida pelo Prêmio Nobel de Medicina. Desde 1998, a professora de histologia conduz pesquisas sobre a laminina, proteína capaz de modular células e estimular a regeneração de tecidos nervosos.
Da pesquisa de décadas aos primeiros resultados clínicos
Há 30 anos, a equipe da UFRJ realiza estudos sobre a laminina, mas foi em 2025 que surgiram respostas positivas em testes clínicos iniciais. A partir dessa proteína, foi desenvolvida a polilaminina, um polímero aplicado experimentalmente em oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos, com melhora observada em seis deles. Em um dos casos mais emblemáticos, um paciente que estava paralisado do ombro para baixo recuperou a capacidade de andar após o tratamento, o que mostra o potencial transformador da descoberta.
O avanço representa um passo importante no campo da recuperação de movimentos em pessoas com paralisia e pode abrir novos caminhos na medicina regenerativa. Ainda assim, especialistas ressaltam que os resultados são preliminares: em janeiro deste ano, a Anvisa autorizou um estudo clínico voltado à avaliação da segurança da polilaminina em humanos, etapa fundamental antes de qualquer aplicação em larga escala. Apesar de exigir mais estudos, o avanço representa um marco para a medicina brasileira.
Com a descoberta, a professora carioca entra na corrida para a indicação ao Prêmio Nobel de Medicina, possivelmente a quinta brasileira indicada. Os brasileiros já indicados incluem Carlos Chagas, indicado duas vezes (1913, 1921), Manoel de Abreu (1946-1953), com seis indicações, além de Adolfo Lutz (1938) e Antônio Cardoso Fontes (1934). Em 124 anos de premiação, há 14 mulheres laureadas com o prêmio e apenas uma, Barbara McClintock, ganhou de forma individual. Atualmente, são 6 vencedoras americanas, 5 europeias, 1 asiática e 1 oceânica. Até hoje, nenhuma mulher latino-americana recebeu o prêmio nesta categoria.
Apesar da baixa representatividade feminina, três cientistas latino-americanos já levaram a estatueta para casa: Bernardo Houssay (Argentina), Baruj Benacerraf (Venezuela) e César Milstein (Argentina). Embora o brasileiro Peter Medawar tenha nascido em Petrópolis (RJ), ele ganhou o Prêmio Nobel de Medicina em 1960 como cidadão britânico, tendo desenvolvido seu trabalho principal no Reino Unido.
O desafio da desigualdade de gênero e protagonismo feminino na ciência
Na área da saúde, 71% dos cargos são ocupados por mulheres, mas apenas 30% dos cargos de liderança são ocupados por elas. Esse desequilíbrio revela como, apesar da forte presença feminina, ainda existem barreiras estruturais que dificultam o acesso das mulheres a espaços de poder, muitas vezes atravessadas por preconceitos de gênero e pela sobrecarga entre vida profissional e familiar. Nesse cenário, o protagonismo feminino torna-se fundamental não apenas para a ciência, mas também para o enfrentamento da desigualdade e da discriminação. É nesse contexto que se destaca a trajetória de Tatiana, que dedicou a maior parte de sua vida acadêmica à pesquisa na UFRJ, onde é professora desde 1995, consolidando-se como um exemplo de perseverança e liderança feminina na ciência brasileira.
Em entrevista para o GloboNews, Tatiana revelou suas inseguranças em equilibrar seu sonho e sua família. “O que mais me mobiliza é a pergunta: será que o fato de eu ter uma carreira científica impacta nos meus filhos? Porque tem muito a questão do quanto que a nossa não presença como mãe, a nossa não permanência na vida deles impacta.”, diz a pesquisadora.
A presença feminina na ciência continua crescendo e gerando novos impactos. Recentemente, em 2022, as alunas do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Camily Pereira dos Santos e Laura Nedel Drebes, criaram um absorvente biodegradável. Composto por fibra do caule da bananeira e do açaí de juçara, algodão e bioplástico, o produto teria um custo de apenas R$0,02. Esse e outros feitos mostram que, mais do que ocupar espaços, as mulheres vêm redefinindo os rumos da ciência, cenário no qual histórias como a de Tatiana Sampaio ganham ainda mais relevância.
Mais do que uma possível corrida ao Nobel, a trajetória de Tatiana Sampaio representa algo maior: a prova de que a ciência brasileira continua abrindo novos caminhos. Sua história também inspira as próximas gerações de mulheres a se reconhecerem como protagonistas na construção do futuro da ciência.
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The article above was edited by Julia Galoro.
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