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Síndrome de Rebecca: Quando o ciúme obsessivo vira recurso narrativo

Updated Published
Aline Moraes Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Você conhece a Síndrome de Rebecca?

A adaptação do best-seller de Colleen Hoover, Verity, finalmente chegou aos cinemas. A trama acompanha a ghostwriter Lowen (Dakota Johnson) ao ser contratada para terminar a série de livros da renomada autora Verity Crawford (Anne Hathaway), após esta sofrer um grave acidente que a deixou incapacitada. Em meio a uma série de segredos de família, Lowen luta para separar a ficção da realidade enquanto confunde os limites com Jeremy (Josh Hartnett), o marido de Verity.

Ao final da narrativa, Lowen se encontra desenvolvendo sentimentos controversos, começando a criar uma obsessão com o passado do relacionamento dos Crawford’s, competindo constantemente com a “sombra” de Verity. 

Esse é um estilo narrativo que aborda como poucas são as forças capazes de abalar sentimentos humanos quanto a presença de uma mulher ausente. Não sendo necessariamente sobre a presença corporal, mas no espectro psicológico. Figuras femininas do passado como, ex-esposas, crushes não correspondidos ou rivais, são “fantasmas” que continuam ditando os medos e as inseguranças de quem está naquele relacionamento atual. Esses recursos narrativos se encontram na psicologia através de um conceito: a Síndrome de Rebecca.

A origem da síndrome 

Na psicologia, a Síndrome de Rebecca descreve um quadro de ciúme obsessivo e ansiedade patológica um relacionamento romântico. Também chamado de ciúme retroativo ou ciúme retrospectivo, o indivíduo afetado sente ciúmes do passado do seu parceiro amoroso, onde o ex aparece como um fantasma na vida do atual casal. 

O termo tem origem no livro Rebecca, a mulher inesquecível de Daphne du Maurier. A trama acompanha uma jovem de 20 e poucos anos, que conhece um rico inglês, Maxim de Winter, um viúvo de 42 anos. Após quinze dias de namoro, ela concorda em se casar com ele e, após o casamento, o acompanha até sua mansão na Cornualha, um condado da Inglaterra. Ao longo desta nova rotina, a protagonista passa a viver atormentada na nova casa pela “presença” da falecida primeira esposa do marido, a enigmática Rebecca.

O romance constrói Rebecca uma narrativa unilateral: tudo o que sabemos sobre ela é mediado por vozes enviesadas: o marido, a nova esposa, os parentes e empregados que a veneram ou temem, mas a própria nunca se apresentou na narrativa, criando a reflexão. Na história, o primeiro nome da protagonista nunca é revelado, sendo chamada de Sra. de Winter durante toda a narrativa, numa maneira de representar como a sua obsessão a faz perder sua identidade e autoconsciência.

O livro já foi adaptado para dois filmes, Rebecca (1940) de Alfred Hitchcock, e Rebecca (2020) dirigido por Ben Wheatley e estrelado por Lily James (Sra. de Winter) e Armie Hammer (Maxim de Winter).

Embora a síndrome não seja um diagnóstico clínico formal apresentado no CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), o termo é utilizado por terapeutas, como explicado no Jornal do Médico, para descrever padrões de comportamento reais, como:

  • Pensamentos intrusivos: Imaginar constantemente momentos vividos pelo parceiro no passado, criando narrativas mentais autodepreciativas.
  • Sentimento de inadequação: A crença internalizada de que a relação atual é inferior ou de que a pessoa nunca será tão marcante quanto a antecessora.
  • Investigação digital compulsiva: O hábito de monitorar redes sociais da ex do atual parceiro, buscando obsessivamente pontos de comparação físicos ou profissionais.

Personagens na ficção

Esse mecanismo cria uma dinâmica narrativa única: uma mulher “assombra” a narrativa de outra mulher não para destruí-la fisicamente, mas para minar sua identidade. Em narrativas com o teor feminista, o tropo é utilizado para expor como a sociedade estrutura as relações de forma a colocar mulheres em competição, onde o valor de uma é medido pelo padrão estabelecido por aquela que veio antes.

O verdadeiro conflito raramente é contra a outra mulher, mas um reflexo distorcido que criamos da nossa própria insegurança, como abordado pela psicóloga clínica, Vera de Melo, na revista digital Selfie.

A identificação com a vida real é o que torna essas personagens ainda mais marcantes. Conheça outras personagens que se enquadram nesse arquétipo: 

Laura Palmer (Twin Peaks)

Em 24 de fevereiro de 1989, na pacata cidade de Twin Peaks, Washington, foi encontrado  um corpo embrulhado em plástico à margem de um rio, dando início à investigação liderada pelo Agente do FBI, Dale Cooper. O corpo seria identificado como o da adolescente Laura Palmer.

Vista como a rainha do baile e uma jovem querida por todos, a morte de Laura abala a estrutura de falsa moral da cidade. Por trás da imagem perfeita, a garota enfrentava diversos traumas e escondia segredos. Além do mistério em relação a sua morte, sua melhor amiga Donna Hayward, se encontra em sentimentos conflituosos conforme descobre segredos e se relaciona com o ex da melhor amiga.

Jackie Taylor (Yellowjackets)

Um time de jogadoras de futebol do ensino médio tentam sobreviver a um acidente de avião em meio a uma extensa floresta. A série narra a transformação delas em durante período na natureza selvagem, ao mesmo tempo em que acompanha as vidas das sobreviventes anos depois.

Jackie é a capitã do time, carismática e popular, ela encontra dificuldade em se adaptar à realidade selvagem. Após a primeira temporada, a presença de Jackie funciona como uma força invisível que molda as escolhas, o trauma e o colapso psicológico das sobreviventes, principalmente de sua melhor amiga Shauna, agindo como a âncora moral de toda a série.

Alison DiLaurentis (Pretty Little Liars)

Alison é a abelha rainha do cenário social da fictícia Rosewood, na Pensilvânia, até desaparecer durante uma noite com suas quatro amigas. Após seu desaparecimento, as amigas de Alison começam a receber mensagens com ameaças assinaladas com “A”, alguém que, assim como Alison, sabe todos os seus segredos.

A “presença” de Alison é o que guia o mistério da série. Tentando recriar os últimos passos antes de desaparecer, suas amigas entram em uma investigação para descobrir qual é o seu paradeiro e quem é “A”. 

Viola Lloyd (A Maldição da Mansão Bly)

A trama conta a história de uma jovem governanta contratada por um homem para cuidar de sua sobrinha e sobrinho na casa de campo da família depois que eles caíram sob seus cuidados. Chegando à propriedade de Bly, ela começa a ver aparições que apresentam o local como amaldiçoado.

A relação entre as irmãs Viola e Perdita é o ponto de partida para a maldição da propriedade. Depois de dar à luz sua filha, Viola é diagnosticada com uma doença pulmonar (provavelmente tuberculose). Mesmo acamada, Viola se recusa a aceitar que está morrendo e sobrevive com muita teimosia. Ao longo de seis anos de sua “morte viva”, Sua irmã Perdita, se aproxima de seu marido e de sua filha, como uma tentativa de “ocupar” o seu lugar como a lady da casa.

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O artigo acima foi editado por Eduarda Mahrouk.

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Aline Moraes

Casper Libero '29

hi! I’m a journalism student who loves music, culture, and aspires to be a documentary filmmaker.