Ser mulher é ter útero e gestar. Foi o que o apresentador Ratinho disse nesta quarta-feira, 11, em seu programa no SBT durante o discurso contra a deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Segundo ele, “para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três ou quatro dias”.
A declaração veio poucos dias depois de Erika Hilton assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara e provocou reações em setores do conservadorismo político. Nas redes sociais, o deputado Nikolas Ferreira também criticou a presença da parlamentar no comando da comissão e chegou a defender manobras para alterar sua presidência.
Em vez de um debate institucional sobre a atuação da deputada ou sobre as pautas que poderiam ser discutidas nesse espaço, o foco rapidamente deixou de ser a política e passou a girar em torno da própria existência da parlamentar. A estratégia foi questionar a legitimidade de sua identidade e retomar um argumento antigo: o de que a condição feminina poderia ser definida apenas por critérios biológicos.
A ideia de que o corpo determina o lugar social da mulher foi mobilizada durante séculos para justificar exclusões na política, na produção intelectual e na ciência — espaços historicamente associados ao exercício do poder. Quando esse argumento reaparece no debate público, ele revela como ainda se tenta delimitar quem pode ou não ocupar certos lugares de fala e representação.
O episódio também levanta questionamentos mais amplos, não apenas sobre o fato de que essa suposta preocupação com a mulher costuma surgir em contextos de descredibilização de figuras públicas que determinados grupos buscam “derrotar”, mas também sobre uma questão central: o que é ser mulher?
Essa resposta segue em disputa. E, paradoxalmente, mulheres continuam sendo silenciadas em uma discussão que diz respeito à própria autodeterminação.
TORNAR-SE MULHER
Todo ano temos um dia no calendário reservado à mulher — o 8 de março — e, ainda assim, cabe a nós defender a nossa causa todos os outros 364 dias do ano, porque aparentemente um dia só de valorização basta para muitos, como se um único dia de reconhecimento fosse suficiente para compensar séculos de silenciamento.
A omissão da voz da mulher se deu durante centenas de anos; filósofos, teóricos e líderes políticos escreveram sobre a condição humana como se ela fosse universal, quando, na prática, descreviam majoritariamente a experiência masculina.
Nessa perspectiva, o homem era apresentado como o ideal humano, e a mulher como exceção ou complemento.
Foi nesse cenário que, em 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir publicou “O Segundo Sexo”, uma das obras mais influentes da reflexão moderna sobre a condição feminina. Ao escrever sobre a experiência das mulheres a partir de sua própria perspectiva, Beauvoir rompeu com uma tradição que tratava o feminino como objeto de análise, mas raramente como sujeito de pensamento.
O livro foi atacado por setores conservadores, criticado por instituições religiosas e acusado de imoralidade.
O fato de um dos textos mais importantes sobre a experiência feminina só ter sido publicado no final dos anos 40 expõe um atraso histórico e social. A voz das mulheres demorou séculos para conquistar legitimidade intelectual, e essa reflexão ter sido recebida com escândalo revela o quanto a sociedade ainda resistia à ideia de que as mulheres pudessem interpretar a si mesmas.
A Construção do “ser mulher”
O que a filósofa propôs foi uma mudança extrema de perspectiva. Ela elaborou uma das frases mais conhecidas e revolucionárias do pensamento feminista: “não se nasce mulher, torna-se”.
Ser mulher, escreveu ela, não se resume ao corpo com o qual se nasce. Trata-se também de um processo social, construído por expectativas, normas e papéis que a sociedade projeta sobre esse corpo desde o início da vida. Antes mesmo de nascer, meninas já recebem um destino simbólico. O quarto rosa, as bonecas e as brincadeiras de cuidar e de servir são exemplos disso.
Meninas aprendem a falar mais baixo, a sentar com as pernas cruzadas, a juntar as pernas quando um homem escancara as dele no transporte público, a não urinar em espaços públicos como os homens fazem, a usar ou não certas roupas, a não ser simpáticas nem demais nem de menos, a pedir licença antes de ocupar espaço…
Elas aprendem que precisam ser delicadas, educadas e agradáveis. A mulher vive sob um conjunto de expectativas frequentemente contraditórias.
Mesmo após décadas, o pensamento de Beauvoir, ao desafiar a definição de “ser mulher” como algo restrito à biologia e afirmar que é uma construção social, permanece atual diante de episódios contemporâneos.
Isso pode ser exemplificado pelo que ocorreu com a atriz Bruna Marquezine, criticada nas redes sociais por não corresponder a um padrão corporal considerado “feminino”, especialmente durante seu envolvimento com o cantor Shawn Mendes.
Esse tipo de reação evidencia como a sociedade ainda impõe condições à feminilidade, deslegitimando mulheres que não se encaixam nesses moldes – mesmo se elas de fato correspondem à biologia.
O feminino como “o outro”
Em “O Segundo Sexo”, Beauvoir descreve como a mulher foi historicamente colocada em uma posição simbólica que ela chama de o “Outro”. Nessa condição, o homem aparece como o sujeito universal, o padrão a partir do qual o mundo é interpretado, enquanto a mulher é definida em relação a ele.
Quando as mulheres são colocadas nesse lugar de alteridade, a identidade delas passa a ser narrada de fora para dentro. São outros que definem quem e como elas devem ser, como se fossem homogêneas e não tivessem direito à liberdade de se autodeterminar.
Essa lógica não se manifesta apenas nas leis ou nas estruturas de poder: ela também é observada em comportamentos superficialmente inocentes.
Aquilo que pertence ao universo masculino costuma ser tratado como neutro, sério ou positivo. Já aquilo que é associado ao feminino frequentemente é visto como exagerado, superficial ou menor.
Filmes com grande público feminino, como Barbie (2023), são rotulados como bobos ou dramáticos demais. Artistas seguidas pelo público feminino são ridicularizadas. Interesses associados ao cuidado, à sensibilidade ou ao romantismo são frequentemente tratados como frivolidade.
Nesse sentido, a desvalorização do que é considerado feminino funciona como mais um mecanismo de manutenção da hierarquia cultural de gênero. Isso não só desumaniza a mulher, mas também faz com que ela seja vista como um objeto manipulável.
O corpo da mulher é, muitas vezes, contemplado como algo público e privado. Ela, além de ser reduzida a ele, tem o seu corpo constantemente observado, julgado, regulado e comentado no espaço social.
Ao mesmo tempo, esse mesmo corpo é tratado como se devesse permanecer sob controle moral rígido, como se fosse propriedade simbólica da família, da religião ou da sociedade.
O Terror feminino
Ser mulher significa aprender, desde muito cedo, a conviver com o medo cotidiano.
Estar no transporte público ou caminhando em algum espaço público e não saber quem está te olhando com malícia. Quem pode passar a mão em você sem seu consentimento. Se alguém que te olha com um desejo perturbador pode tomar liberdades maiores. Quem tem intenções de te arrastar para algum lugar e violar seu corpo e sua mente. Se você deu algum olhar que pode ter sido interpretado com segundas intenções.
Será que a sua educação “provocou” alguém sexualmente? As suas roupas? Tem alguém te seguindo? Quantas pessoas são? Há chances de sobreviver? Consigo correr? Se eu disser “não”, serei ouvida?
“Não volte sozinha”; “não use tal roupa”; “avise quando chegar em casa”; “compartilhe sua localização”; “caminhe rápido”; “não use fones de ouvido na rua”; “esteja atenta”; “tenha olhos atrás da cabeça”.
Seja nas ruas, em locais abertos ou fechados, dentro de casa, em escolas, conventos ou igrejas, podemos não estar seguras.
Em alguns casos, a violência sequer se limita ao abuso sexual. Há agressões que buscam marcar o corpo feminino de forma permanente. Ataques que resultam em desfiguração do rosto, violência doméstica extrema, crimes motivados pela recusa de uma mulher.
Essas histórias aparecem com frequência inquietante nos noticiários, e cada uma delas reforça uma sensação coletiva difícil de ignorar: a de que o corpo feminino ainda é tratado como objeto público. Isso porque, para muitas mulheres, sempre existe a consciência de que o corpo pode se tornar alvo.
O medo do estupro e do feminicídio não é apenas uma estatística distante. De acordo com o artigo Feminicídio no Brasil: quatro mulheres assassinadas por dia, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso, e com a reportagem Nove estupros por hora: entenda por que tratar estupradores como ‘monstros’ esconde problema real, da Itatiaia Brasil, aproximadamente quatro mulheres são assassinadas por dia por razões de gênero, e nove vítimas de violência sexual por hora (um estupro a cada 6 a 7 minutos).
Uma causa compartilhada
Mais de setenta anos depois da publicação de “O Segundo Sexo”, a reflexão de Simone de Beauvoir continua atual. A pergunta sobre o que é ser mulher permanece aberta não porque faltem respostas, mas porque aceitar essas respostas implica reconhecer e questionar estruturas de poder que organizam a sociedade.
Essa realidade atravessa diferentes experiências de vida. Mulheres cis, mulheres trans — como Erika Hilton —, mulheres de cor ou brancas, mulheres heterossexuais ou LGBTs+ vivem contextos distintos, mas compartilham um mesmo campo de disputas sobre o corpo, a autonomia e o direito de existir.
Quando se afirma que gênero é uma construção social, trata-se de reconhecer que aquilo que se espera de uma mulher foi historicamente inventado, organizado e imposto por estruturas culturais elaboradas por grupos dominantes.
E é justamente por isso que tantas mulheres, com trajetórias e lutas diferentes, acabam compartilhando uma mesma causa: a luta pelo direito de definir a própria existência e não ser reduzidas ao corpo.
O artigo abaixo editado por Isabella Scaramucci.
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