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“Se eles podem, nós também”: a primavera antifascista que floresceu no Brasil e ecoou mundo afora

Luiza Kellmann Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Passamos anos cantando certos versos sem pensar muito no que dizem. Aprendemos na escola, repetimos no pátio, cantamos toda segunda-feira enquanto a bandeira sobe. As palavras saem quase no automático, até que a vida dá a elas outro peso, deixam de ser cerimônia e cobram seu sentido.

Verás que um filho teu não foge à luta. Nem teme, quem te adora, a própria morte”

Em outubro de 2026, o Brasil precisou responder ao próprio hino. Um mar de vermelho tomou as ruas em mobilizações, mãos em L se ergueram e, milhões de brasileiros foram às urnas levando consigo uma ideia de país que não queriam entregar:

Um país em que quem trabalha seis dias por semana tenha mais tempo para viver, sem depender de um acordo individual com o patrão para conseguir descansar. Em que os direitos das minorias sejam respeitados e a Constituição, preservada, sem mudanças que enfraqueçam as instituições democráticas.

Estavam em jogo os direitos de quem vive hoje, a dignidade de quem envelheceu neste chão e ajudou a construí-lo, a soberania de quem chama esta terra de sua, o futuro de quem ainda vai nascer. “Brasileiro não tem memória curta”, como dizem por aí. Tem memória de calo, e lembra onde doeu, quem apertou e o que pode perder se deixar de reagir.

No fim da noite de 25 de outubro, o TSE contou mais de 64 milhões de votos para Lula, 51,79% dos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Segundo a Gazeta do Povo, foi uma virada inédita desde a redemocratização, porque nenhum segundo colocado no primeiro turno havia vencido o segundo. A abstenção, de 21,08%, caiu para 19,21%. Quando a coisa apertou, mais gente saiu de casa. É tudo o que a estatística consegue dizer sobre coragem.

O resto está no que ela não alcança. Estudantes se organizaram sem esperar convite e foram para a rua, e a sociedade civil veio atrás, articulada sobretudo no digital. Na noite da eleição, conforme a ABC da Austrália, o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, reunia mais de 10,8 milhões de pessoas. Gente sem mandato, sem palanque e sem garantia nenhuma, que decidiu que o destino do país era assunto seu.

Uma letra, muitas mãos

O L é uma letra pequena. Cabe numa mão erguida, numa fotografia, no canto de um vídeo… No Brasil, é de Lula e, lá fora, passou a servir como sinal de reconhecimento entre pessoas que enfrentam o mesmo tipo de adversário em países diferentes.

Segundo o Diário Carioca, Mark Ruffalo, Tilda Swinton, Javier Bardem, Pedro Almodóvar, Guillermo del Toro, Juliette Binoche, Julie Delpy, Gael García Bernal e Joachim Trier fizeram o gesto num vídeo idealizado por Kleber Mendonça Filho. 

O jornal registra ainda mensagens de apoio de Madonna, Roger Waters, Tom Morello e integrantes do The Strokes, ao lado de nomes brasileiros como Wagner Moura, Sônia Braga e Caetano Veloso. Ruffalo foi direto ao convocar o público a combater os fascistas e manter a democracia viva.

A mobilização também ganhou as ruas. O Diário Carioca registrou atos em Berlim, diante do Portão de Brandemburgo, em Lisboa, no Rossio e em Londres, onde brasileiros se reuniram a movimentos latino-americanos, feministas, ambientalistas e antifascistas. Na véspera da votação, a Revista Fórum noticiou manifestações em Dublin e Bruxelas, além de uma roda de samba política em Paris.

E o apoio não veio apenas de brasileiros que vivem no exterior, também veio de pessoas de outras nacionalidades que reproduzem o L em vídeos publicados nas redes sociais, tanto para demonstrar solidariedade à resistência democrática no Brasil quanto para expressar resistência ao cenário político de seus próprios países.

O L não virou uma saudação universal do antifascismo, e seria vaidade dizer o contrário. O próprio Diário Carioca faz essa ressalva. Mas pense em Katniss Everdeen. Segundo a AFP, publicada pelo Jornal de Brasília, a saudação de três dedos de Jogos Vorazes virou símbolo do movimento pró-democracia na Tailândia. Depois atravessou a fronteira e apareceu nas ruas de Mianmar.

Um sinal pequeno o bastante para caber em qualquer mão e grande o bastante para dizer a um desconhecido “eu estou aqui, e você não está sozinho”. Em qualquer idioma, liberdade, liberté, libertad, o recado é o mesmo.

A esperança 

A campanha brasileira tinha um manual quase doméstico. Os “soldados” recebiam missões diárias, hashtags combinadas e conteúdos para compartilhar, e o status do WhatsApp virou outdoor. Qualquer pessoa, com um celular na mão, podia fazer alguma coisa na hora do almoço. O truque era esse mesmo, transformar vontade de agir em tarefa pequena o bastante para ser cumprida.

O manual atravessou o oceano. Segundo a RFI, publicada pelo Terra, surgiu na França o grupo não oficial “Les Soldats Insoumis“, com mais de 15 mil integrantes só no WhatsApp, seguindo a lógica de impulsionar hashtags, compartilhar conteúdo e convidar gente nova. A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, criou um grupo oficial, e um de seus deputados, Antoine Leaument, disse num vídeo que eles viram o que aconteceu no Brasil e vão aplicar um método que funcione. Em outra reportagem, a mesma RFI resumiu o clima na manchete. O que os brasileiros fizeram, os franceses também podem fazer.

A vice-prefeita de Saint-Denis, Silvia Capanema, contou à RFI que as iniciativas atraem sobretudo brasileiros que vivem na França, que é cedo para tirar conclusões e que o modelo não pode ser copiado igual, porque as necessidades são outras. 

Repare no que isso significa. Brasileiros longe de casa traduzindo, para a luta dos outros, o que aprenderam na própria. Estávamos dando dicas.

Em coluna na Eco21, Rudá Capriles lembra que, em 17 de outubro, centenas de milhares foram às ruas contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos e do ensino, 550 mil segundo o Ministério do Interior e 800 mil segundo os organizadores. Quer dizer, a eleição presidencial francesa é só em abril de 2027, e já tem gente aprendendo com a nossa.

Admiração internacional

Na América Latina, a vitória brasileira foi lida como um feito. Segundo o InfoMoney, o argentino Clarín chamou o resultado de extraordinário e disse que ele abre um cenário inesperado numa região que parecia homogênea.

Na Argentina, a RFI registra o surgimento de um “Exército do Peronismo”, com mais de 32 mil apoiadores em um canal do WhatsApp, inspirado na mobilização em torno de Lula. Nas redes sociais, argentinos também demonstraram apoio ao Brasil.

É um gesto que chama a atenção justamente pela relação entre os dois países, marcada por uma rivalidade antiga, sobretudo no futebol. Mas, quando a democracia está em jogo, as diferenças ficam em segundo plano. E o que acontece no Brasil também pode despertar esperança do outro lado da fronteira.

Na Europa, a pergunta virou palanque. Segundo o Diário Carioca, num ato do PSOE em Gijón, o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse “se o Brasil pôde, a Espanha pode” e pediu que seus apoiadores se vissem como uma luz de esperança no continente. A eleição espanhola é em 29 de novembro.

Nenhuma dessas falas decide uma eleição estrangeira, mas já é um jeito de a nossa vitória virar uma linguagem própria.

Globalização e coragem

A globalização prometeu um mundo em que tudo circulasse com mais facilidade: o dinheiro, as mercadorias, as informações. Nas redes, circula também a raiva, muitas vezes transformada em ferramenta política e lucro, mas nem tudo sai como as plataformas planejam. A mesma Meta que o TSE precisou mandar tratar duas campanhas com igualdade é a dona do WhatsApp por onde a mobilização brasileira chegou à França, à Argentina e outros países. Os cabos são os mesmos, a carga é que mudou.

Coragem, por exemplo. Uma mensagem de um lado do mundo dizendo ao outro fizemos assim, funcionou, adapte à sua maneira. Ninguém decidiu isso de cima, nenhum comitê resolveu que o Brasil seria sinal para os outros. Foi gente comum, com um celular.

Paulo Freire deixou um verbo que cabe aqui: “Esperançar: Esperança que não espera, que vai atrás”.

O depois

Seria desonesto fechar como se tudo estivesse resolvido. Flávio Bolsonaro teve quase metade dos votos. O New York Times lembra que, quando Lula tomar posse, em 1º de janeiro, a direita brasileira terá conquistado mais espaço, e há muito dela no Congresso. A pressão de fora não acabou, e a conversa sobre plataformas está só começando.

Mas o valor dessa história nunca foi a certeza, é a prova de que o resultado pode mudar quando a população não é passiva. Um povo cantou que não foge à luta e foi, um grupo compartilhou o que sabia, outro adaptou, e a distância entre eles, por um instante, encolheu.

Talvez alguém, em Paris, entre num grupo de WhatsApp porque viu brasileiros fazendo o mesmo. Talvez um militante espanhol repita a frase de Sánchez para convencer um amigo cansado. Talvez uma pessoa nos Estados Unidos, na fila de 3 de novembro, lembre que semanas antes milhões de brasileiros tinham ido às urnas num jogo que parecia perdido.

Ninguém aqui conseguiu vencer o fascismo em outros países, mas conseguimos dizer, com o corpo e a garra, que ele pode ser vencido. “Se eles conseguiram, nós também”, “se nós conseguimos, todos podem”.

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O artigo acima foi editado por Julia Galoro.  

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Luiza Kellmann

Casper Libero '29

Journalism student at Cásper Líbero;
I like to work with a sociological, philosophical and/or psychological bias.