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Resenha: “Uma Vida e Tanto”, novo livro de Emily Henry

Gabriela Tortora Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Em seu mais novo romance, Uma Vida e Tanto, Emily Henry se afasta das praias e do tom ensolarado de seus sucessos anteriores para mergulhar em uma narrativa mais densa e introspectiva, que se equilibra entre o romance, a autoficção, o jornalismo literário e a reconstrução emocional.

Ao colocar no centro da trama uma jovem repórter e uma ex-estrela da mídia que escolheu desaparecer do mundo, Henry nos entrega não apenas uma história de amor, mas uma reflexão sensível sobre o poder e o perigo de contar a própria história.

“E se eu não quiser que seja a minha versão da história? E se eu quiser que seja a verdade completa e horrível?”— Margaret Ives

A PROTAGONISTA E O JORNALISMO COMO MISSÃO (E CRISE)

Alice Scott é jornalista freelancer do The Scratch, um veículo de cultura pop e interesse humano. Ela vive o que muitos jovens profissionais enfrentam: uma carreira promissora, porém instável, marcada por altos e baixos emocionais, relações mal resolvidas, e a constante sensação de não estar “à frente” da própria vida. “Nunca consegui estar de boa na vida”, admite Alice já nas primeiras páginas.

O que muda tudo é um e-mail anônimo. A mensagem diz que Margaret Ives, herdeira de um império midiático e ícone cultural que sumiu do radar há vinte anos, estaria viva, escondida em uma ilha no sul dos EUA. Movida pela curiosidade e pela chance de publicar a matéria de sua vida, Alice embarca em uma viagem que mistura jornalismo investigativo, memória e emoção. Mas, ao encontrar Margaret, ela descobre que a matéria não será sobre fama ou escândalos. Será sobre intimidade. Sobre o trauma. Sobre redenção.

A escolha da autora de fazer de sua protagonista uma jornalista não é aleatória. O livro faz questão de discutir o papel da mídia em narrar vidas alheias e como isso molda, distorce ou apaga quem está no centro da notícia. Margaret, que cresceu sob os holofotes, afirma:

“Você é o tipo de pessoa que tenta enxergar beleza em tudo.” “E você não é assim?”, responde Alice. Margaret dá de ombros. “Costumo esperar o pior das pessoas.”

Essa tensão entre as duas, entre olhar de dentro e olhar de fora, permeia toda a narrativa. Emily Henry cria uma ponte entre o fazer jornalístico e o direito de ser complexo, sobretudo quando o objeto da história é uma mulher.

QUANDO A HISTÓRIA PESSOAL SE INFILTRA NA PAUTA 

Ao longo do livro, Alice se vê cada vez mais envolvida emocionalmente com Margaret e com Hayden Anderson, seu concorrente direto, ex-namorado e biógrafo vencedor do Pulitzer. Os dois foram convidados por Margaret para “competir” pela vaga de autor da biografia oficial da artista. O que poderia ser apenas um enredo clichê de triângulo amoroso se transforma em um debate honesto sobre ética, sensibilidade e verdade narrativa.

Hayden, cético e sisudo, representa o jornalismo tradicional. Alice, ao contrário, se permite afetar, observar, sentir. É ela quem diz:

“Se você estiver pronta para contar sua história, merece que ela seja contada exatamente do jeito que preferir. Ela precisa ser sua e de mais ninguém.”

Em tempos em que tanto se fala sobre ética jornalística, sensacionalismo e exploração da dor alheia, essa frase é um manifesto. E também um espelho para leitores e leitoras que consomem biografias, crimes reais e narrativas de sofrimento feminino sem se perguntar quem está contando e por quê.

MARGARETE IVES: UMA PERSONAGEM QUE MARCA 

Esqueça o clichê da diva decadente. Margaret é uma mulher calejada, misteriosa, que escolheu o silêncio como forma de resistência. Ela viveu escândalos, maternidade interrompida, exposição extrema e o abandono da própria imagem pública.

Sua presença na narrativa é quase magnética. Sarcástica, profunda e ferida, ela carrega uma densidade rara  e serve como espelho torto para Alice, que precisa encarar seus próprios fantasmas: um término mal resolvido, traumas familiares, a insegurança crônica de quem quer ser amada a qualquer custo.

É em Margaret que o livro alcança suas maiores reflexões. Ela é a materialização do cansaço de performar, de tentar ser a mulher perfeita para o mundo e da coragem de escolher desaparecer para sobreviver.

“A maternidade não é uma narrativa em linha reta. É uma bagunça emocional cheia de lacunas. Às vezes, você ama alguém que nunca chegou a existir.”

RELAÇÕES HUMANAS COM CICATRIZES

O romance entre Alice e Hayden é um caso à parte. Não há encantamento imediato, mas uma tensão lenta, marcada por feridas antigas, sarcasmo e saudade mal resolvida. O amor aqui não é idealizado, ele é construído nos silêncios, nos embates e nos gestos pequenos. A dinâmica entre eles expõe o contraste entre o jornalismo emocional de Alice e o olhar cético de Hayden. E a forma como o afeto se reconstroi entre os dois é comovente em sua crueza.

Ao mesmo tempo, o verdadeiro centro emocional do livro está na relação entre Margaret e Alice. O vínculo que nasce entre as duas não é maternal, nem de amizade convencional. É uma conexão feita de feridas expostas, cumplicidade silenciosa e admiração mútua. As duas se reconhecem em suas ausências: do amor, da segurança, da versão heroica de si mesmas.

AMOR, IDENTIDADE E SEGREDOS 

O livro também é, claro, sobre relações humanas. E sobre amor. Mas não o amor idealizado de comédias românticas. Aqui, Emily escreve sobre o amor entre mulheres de gerações diferentes, sobre o amor silencioso que sobrevive ao trauma, sobre o amor que exige reconciliação e vulnerabilidade. Hayden e Alice, separados por mágoas e inseguranças, só reencontram uma conexão quando deixam de lado a necessidade de vencer e aceitam ser vistos.

“Porque agora sei que ainda tenho chance”, diz Alice, após um dos encontros tensos com Hayden. A frase soa como um sussurro para todas nós que já achamos que era tarde demais. 

E então vem Margaret, personagem brilhantemente construída. Longe do estereótipo da diva decadente, ela é uma mulher de carne, osso, e muitas sombras. A maternidade, em especial, aparece como uma ferida aberta tanto em quem a vive, quanto em quem não teve chance de vivê-la.

JORNALISMO, VERDADE E HISTÓRIAS: QUEM TEM O DIREITO DE CONTAR? 

Agora, voltando-se novamente ao lado jornalístico do livro, Emily Henry faz escolhas narrativas que beiram o ensaio literário. Ao colocar jornalistas no centro da trama, ela tensiona o papel da mídia na construção (ou destruição) da identidade feminina. Há discussões potentes sobre sensacionalismo, ética e o impacto de narrativas que desumanizam mulheres públicas.

“Se você estiver pronta para contar sua história, merece que ela seja contada exatamente do jeito que preferir.” – Alice Scott

Essa frase, embora simples, carrega o manifesto silencioso do livro: contar a própria história não é apenas um direito, é um ato de sobrevivência. Num mundo que vive de versões, existe algo mais revolucionário do que encarar a verdade nua?

UMA NARRATIVA SOBRE O DIREITO DE DESAPARECER  

Uma Vida e Tanto poderia ser sobre recomeços. Sobre encontrar um novo amor. Sobre deixar o passado para trás. Mas talvez seja mais acertado dizer que é um romance sobre o direito de não performar para o mundo. O direito de silenciar. O direito de sumir.

“A vida é bem complicada. E acho que faz parte da natureza humana tentar resolver essas complicações. A gente quer que as coisas façam sentido. […] Aprendi o que importa de verdade.”

Emily Henry nos entrega sua história mais madura até agora. A escrita continua fluida, os diálogos continuam envolventes — mas aqui, há um silêncio que ressoa. Um tipo de melancolia que não pesa, mas permanece. Como as boas histórias devem fazer.

ENTÃO, “Uma Vida E Tanto” VALE A LEITURA? 

Emily Henry não está interessada em finais perfeitos desta vez. Ela quer te deixar desconfortável. Quer te fazer chorar por aquilo que você não viveu e, ainda assim, te dar a chance de recomeçar. Uma Vida e Tanto é um livro que te encontra onde doi, mas também onde há esperança.

Se você procura um romance inteligente, emocional e verdadeiro, desses que ficam ecoando dias depois da última página, essa é sua leitura. E talvez, como eu, você também termine o livro com vontade de contar sua própria história do jeito que ela realmente é. Afinal, algumas verdades só podem ser ditas quando temos coragem de contá-las. E outras só podem ser vividas quando finalmente nos libertamos da versão que inventaram pra nós.

Nota final: 5/5

Uma leitura intensa, elegante e inesquecível. Prepare o coração, a mente e, sim, os olhos marejados.

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O artigo acima foi editado por Juliana Sanches.

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I’m Gabriela Tortora, a 19-year-old Journalism student at Cásper Líbero. I’m passionate about books and sports, and I truly believe that words have the power to transform, inspire and connect people. As Victoria Schwab writes in The Invisible Life of Addie LaRue, I believe in living countless lives through stories — and in sharing those stories with the world. ♡