Ainda Estou Aqui levou cerca de 5 milhões de brasileiros ao cinema para assistir a história da família Paiva durante a ditadura militar (1964 – 1985). Sendo a primeira vez, desde 2020, que um longa nacional alcança esses números. É indiscutível que o longa despertou o interesse de grande parte dos espectadores devido às indicações em grandes cerimônias cinematográficas fora do país. Com isso, a pergunta que fica é – uma indicação ao Oscar é a chave para que o brasileiro dê o devido valor e reconhecimento para as produções nacionais?
A visibilidade que o último filme produzido por Walter Salles alcançou, nos faz olhar de forma ampla para o cenário das produções brasileiras, com maiores investimentos em profissionais da área, o que é fundamental para a consolidação de uma cinematografia reconhecida e de qualidade. Porém, o cinema nacional vai para além dos prêmios ou da necessidade de validação internacional. Nossa relação com essa arte e as telonas não vem de agora.
A chegada dos filmes no Brasil
A chegada do cinema no Brasil aconteceu em 1896 no Rio de Janeiro. Os filmes apresentados nesse período eram curtos e tinham como foco o cotidiano europeu. Não demorou muito tempo para que os jovens cineastas no país começassem a produzir suas próprias histórias, tendo que enfrentar grandes dificuldades, como a falta de infraestrutura e baixo índice de distribuição. Dois dos primeiros filmes feitos em território brasileiro foram : Baía de Guanabra e Chegada do Trem em Petrópolis
Na década de 1930, a Cinédia, primeiro grande estúdio do Brasil foi criado, possibilitando uma ampla criação. Filmes como Limite e A Voz do Carnaval foram destaque nesse período. Uma década depois, as chanchadas, filmes cômicos, ganharam seu espaço nas telonas. Procurando uma forma de reproduzir o estilo norte-americano, com parórias e características sociais e culturais do “jeitinho brasileiro”, por mais que não agradassem a crítica, trazendo de volta temas da vanguarda euriopeia, agradou a maioria de seus telespectadores.
Cinema Novo : Reviravolta
Entre 1960 e 1970, o movimento cinematográfico passa por uma transição. As pautas principais eram sobre política e questões sociais. O foco era retratar a realidade do brasileiro.
O Cinema Novo ganhou destaque em meio a Ditadura Militar, o que impactou as produções, com muitas censuras e limitações e com artistas e cineastas sendo perseguidos. Filmes como Vidas secas e Terra em Transe abordam a repressão e desigualdade, em forma de protesto.
Nesse contexto, o movimento alcançou reconhecimento nacional e internacional. Produziu filmes que marcaram o cinema brasileiro, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968), de Glauber Rocha, um dos cineastas que marcaram o movimento, bem como, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade
O legado do Cinema Novo transcende gerações e influencia os dias atuais. Despertou a consciência crítica, desde espectadores a cineastas, trazendo uma nova forma de expressão artística. Seu compromisso era com a realidade brasileira, evidenciando a desigualdade social, a pluralidade religiosa, política e étnica. Mas também a beleza e autenticidade do país.
Vale ressaltar que a estética visual foi o destaque e combinação ideal juntamente com temas relevantes. As principais características são: a utilização de luz natural, contrapondo as produções em estúdios e com luz artificial, usando cores, como forma de dramatização, destacando personagens ou contexto. Além disso, o ângulo da câmera para gravações, não era acidental e sim proposital para trazer o espectador para dentro da cena.
História no Cinema Internacional
O cinema brasileiro, deixou sua marca internacional, no movimento Terceiro Cinema, novo movimento que propõe produção cinematográfica revolucionária de diversos países.
1962 foi um ano importante para a nossa cinematografia; O Pagador de Promessas filme dirigido por Anselmo Duarte, se tornou o primeiro e até então único filme brasleiro a ganhar a Palma de Ouro. Esse acontecimento foi o pontapé inicial para que o Brasil começasse a ganhar certos holofotes e espaços no mercado exterior, por mais que ainda passasse por dificuldades.
Nos anos seguintes, dois filmes entraram para a história, não só do Brasil, mas do cinema como um todo. Central do Brasil teve duas indicações ao Oscar, de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz; tempos depois, Cidade de Deus reafirmou a qualidade das nossas produções para quem ainda tinha dúvidas, concorrendo a quatro indicações, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Fotografia e Edição.
Cotas no cinema – Valorização
É notável que o cinema brasileiro é maior do que qualquer premiação internacional ou validação externa. Mas para que ele seja sempre comemorado e feito, é necessário que os próprios brasileiros deem atenção às nossas produções de qualidade, até porque grandes trabalhos não se sustentam apenas por prêmios, mas com o público.
As cotas de tela são uma das alternativas que contribuem para que outros filmes possam alcançar a mesma ou semelhante visibilidade de Ainda Estou Aqui. Encontra-se o respaldo pela Lei de Cotas de Tela, vigente desde 2011, por meio do Decreto nº 7.499 , que exige que uma porcentagem das obras exibidas nos cinemas seja composta por filmes nacionais, garantindo acesso às mais variadas produções. Além de alimentar e fortalecer o mercado cinematográfico. Com essa medida, produções internacionais não são priorizadas, consequentemente não prejudicando os horários e calendários nacionais. Sem dúvidas, o sistema de cotas é um potencializador na valorização do cinema brasileiro, abrindo mais portas para a visibilidade da arte nacional.
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Texto editado por Ana Luiza Sanfilippo
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