No dia 7 de abril se comemora, no Brasil, o Dia do Jornalista, data instituída em homenagem a Líbero Badaró, jornalista opositor de D. Pedro I, morto em 1830. Defensor da liberdade de imprensa em tempos de autoritarismo, especula-se que ele tenha sido assassinado por ordem do imperador. Dois séculos depois, em 25 de março de 2025, um tribunal na Turquia ordenou a prisão provisória de sete jornalistas, acusados de participar de manifestações contra o presidente Recep Tayyip Erdoğan, considerado autoritário.
No século 21, apesar da ampla difusão da importância da liberdade à informação, a perseguição a profissionais de imprensa ainda é realidade em diversas partes do mundo. Especialmente no Oriente Médio, região considerada por especialistas como uma das mais críticas para o exercício do jornalismo. A Turquia, um de seus poucos países que ainda se diz uma democracia, ostenta um histórico de censura, prisões e assassinatos de comunicadores.
“Uma ‘democracia’ entre várias aspas, no sentido de que há poucos mecanismos de transparência, de prestação de contas, eleitorais e de todo o funcionamento da máquina pública”, diz o professor de relações internacionais Rodrigo Amaral, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O especialista comenta os protestos, que eclodiram após a prisão do principal adversário político do presidente, o prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu.
No último dia 19 de março, uma operação policial deteu İmamoğlu e outros 100 opositores do regime de Erdoğan, que governa a Turquia há mais de 20 anos, em um período marcado por uma escalada autoritária e restrição da mídia. A prisão desencadeou aquelas que têm sido consideradas as maiores manifestações populares do país em uma década.
A popularidade do prefeito entre diferentes setores da sociedade turca, e o declínio do atual líder frente à crise política e econômica que vive o país, transformou-o em alvo do regime. A justificativa de sua prisão, às vésperas das primárias que o definiriam como candidato do partido de oposição CHP (Cumhuriyet Halk Partisi, ou Partido Republicano do Povo), são acusações de corrupção e ligações com o terrorismo.
Censura à imprensa
Apesar de majoritariamente pacíficas, as manifestações têm sido ativamente reprimidas pelas forças aparelhadas por Erdoğan, cujos próprios escândalos de corrupção inflamam o discurso de críticos. Segundo o Ministro do Interior, Ali Yerlikaya, quase 1,9 mil pessoas foram detidas desde o início dos protestos no dia 26 de março. Dentre elas, 13 jornalistas foram presos em cinco dias. Até a última atualização desta matéria, o país possuía cinco profissionais mantidos sob custódia.
Um correspondente da BBC chegou a ser deportado por suposta “ameaça à ordem pública”, que a rede britânica nega. O jornalista Mark Lowen ficou preso por 17 horas, e na sequência, foi expulso do país no qual residiu durante cinco anos, em situação que descreveu como “extremamente angustiante”.
Já o jornalista sueco Joakim Medim foi acusado de possuir filiações com terroristas e “insultar o presidente”, segundo o braço turco da ONG Repórteres sem Fronteiras. A organização sediada na França, que monitora a liberdade de informação ao redor do mundo, posicionou a Turquia em 158º no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2024.
Em movimentação tipicamente autoritária, o encarceramento de críticos de Erdoğan não é novidade no país, cujo código penal estabelece “insulto ao presidente” como infração passível de prisão. O monitoramento do discurso nas redes sociais também ocorre. Na última terça-feira (1º), a empresa de tecnologia Meta anunciou que foi multada por não cumprir ordem do governo para suspender contas ligadas ao protesto.
Segundo a RSF (Repórteres sem Fronteiras), 90% da mídia nacional é controlada pelo governo, que também instrumentaliza a justiça no país, atuando no cerceamento ao exercício do jornalismo, revogando permissões de trabalho e atentando contra a liberdade de expressão. Canais de comunicação que defendem o presidente são favorecidos, enquanto a mídia em desacordo com os valores do regime é boicotada pelo Conselho Superior Audiovisual.
desafios do jornalista em tempos de autoritarismo
“A restrição da atividade jornalística prejudica o direito do público de ter informações confiáveis e de questionar os poderosos. Quando a atividade jornalística sofre censura ou intimidação, os ditadores e seus amigos operam sem nenhuma transparência, permitindo que o abuso de poder e as violações de direitos se perpetuem”, pontua o correspondente sênior da CNN Brasil, Américo Martins.
O jornalista destaca a imprensa livre como um dos princípios fundamentais de qualquer democracia. “Uma democracia só pode ser plena com o funcionamento sem restrições da imprensa. Quando o jornalismo sofre censura, os poderosos passam a abusar da disseminação de desinformação e de propaganda para enganar o público. É por isso que os jornalistas precisam resistir diariamente a qualquer tipo de impedimento colocado em seu caminho”, diz o jornalista.
Para Amaral, a perseguição do governo turco aos jornalistas “não surpreende”, tendo em vista o controle pleno mantido por Erdoğan. Apesar da crescente rejeição à sua figura, o presidente se mantém no poder pela profundidade dos laços que possui com as elites. “As elites do poder na Turquia são muito bem conectadas, e é muito difícil, senão improvável, que haja qualquer tipo de transformação de poder sem o rompimento do tecido das elites”, argumenta.
O professor também não é muito otimista quanto aos protestos representarem uma possibilidade de mudança. Sem a interferência da comunidade internacional, que “não parece ter qualquer interesse de se envolver no que está acontecendo”, e com a força do Estado turco e sua alta capacidade militar, o especialista considera pouco provável que as manifestações populares ensejem grandes transformações democráticas.
Neste Dia do Jornalista, fica aos comunicadores e aos consumidores de notícias a reflexão acerca dos desafios de se fazer jornalismo nos lugares que mais necessitam do trabalho da imprensa. “Apesar das ameaças, os jornalistas precisam tentar forçar os limites, dentro do que consideram seguro, para informar seu público”, afirma Martins, que conclui: “A repressão é a pior inimiga do bom jornalismo”.
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O artigo abaixo foi editado por Carol Malheiro.
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