A PRISÃO DO POZE
Marlon Brandon Coelho Couto Silva, mais conhecido por MC Poze do Rodo, foi preso preventivamente no dia 29 de maio por apologia ao crime e suposta ligação com o Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções organizadas do país. Ele foi detido em sua casa no Rio de Janeiro, após um mandato de busca e apreensão e, algemado, foi conduzido à delegacia.
Ao longo dos depoimentos dados à polícia, o funkeiro admitiu ter ligação com o CV, o que teoricamente endossaria sua detenção. Mas a Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) declarou que esse é um comportamento comum entre os encarcerados a fim de terem a proteção da facção durante o tempo no presídio.
Após cinco dias preso no Bangu Três, Poze saiu da cadeia no dia dois de junho, após a justiça aceitar seu pedido de Habeas Corpus e revogar a prisão preventiva que ele cumpria. Ao longo da decisão, o juiz Peterson Barroso Simão criticou a atuação da Polícia Civil, por considerar que houve indícios de irregularidades e excessos no procedimento. Para o juiz, a polícia algemou e expôs o caso à mídia de forma desproporcional, além de não haver necessidade de prisão temporária. Para ele, a investigação deveria focar em “criminosos de maior porte”.
Na saída do presídio, o cantor encontrou uma multidão que o aguardava em clima festivo, mas foram dispersados pela Polícia Militar com violência.
Após a prisão do Poze, um dos detalhes que mais indignou a opinião pública foi a forma como ele foi tratado pelos policiais. Isso abriu espaço para críticas aos métodos usados, sobretudo em operações que envolvam a cultura periférica e artistas negros.
Logo passaram a circular vídeos que comparavam a abordagem ao funkeiro e a outros indiciados. Enquanto Poze chegou à delegacia algemado, descalço e sem camiseta, investigados como Renato Cariani (acusado por tráfico de drogas) e Roberto Jefferson (que humilhou uma Ministra do STF e atirou em policiais federais, chegando a jogar uma granada neles), foram levados sem algemas ou qualquer sinal de truculência.
ARTE OU APOLOGIA?
No Brasil ainda é muito difícil determinar a diferença entre arte e apologia, principalmente quando o crime e a violência fazem parte do cotidiano das pessoas desde a infância. Ainda não existe uma lei capaz de estipular o limite entre a liberdade de expressão e a glorificação de quem comete delitos. Mas a falta de uma classificação objetiva faz com que sempre enquadrem os mesmos grupos sociais como transgressores: pessoas periféricas, pretas e ligadas a grupos culturais marginalizados, atualmente representados pelo funk e rap e, anteriormente, pelo samba.
O Poze é uma dessas pessoas. Ele foi criado na Favela do Rodo, e sempre conviveu com a criminalidade na porta de sua casa, eventualmente, exercendo o papel que era tarefa do Estado, enquanto o próprio só aparecia em momentos de violência para com a população. Ele chegou a se envolver com o crime, mas o abandonou para ser cantor.
“Fazem apologia? […] Vocês não entendem a nossa revolta. Vocês nunca passaram perrengue na favela, mas ficam falando. Não dirijam a palavra a mim quando me refiro à favela.”, Poze bradou contra o Estado.
Os discursos empregados em suas músicas são reflexo de toda a vivência que ele carrega. Portanto, é comum que ele escreva sobre crime, drogas, armas e violência, por vezes, colocando o bandido em posições que, para alguém que nunca viveu aquela realidade, é difícil imaginar.
Fazer arte que fale sobre o crime não é uma exclusividade do Poze do Rodo. Não é difícil encontrar bandidos sendo retratados em novelas, séries, literatura, filmes e músicas. Essas construções costumam ir além do senso comum que já os envolve. O Bené, do filme Cidade de Deus, é um exemplo de personagem humanizado e que, apesar de atuar ativamente no crime, é uma figura carismática. Na música, o rap nasceu com o estigma de “música de bandido”, tendo o grupo Racionais MC’s como o maior expoente na cena e foi também quem mais viveu a perseguição do gênero.
Hoje, tanto os discos dos Racionais quanto o longa Cidade de Deus, são encarados como produções excepcionais para retratar a realidade brasileira. Elas são vistas como arte e não como apologia ao crime. Mas porque apenas o filme, dirigido por Fernando Meirelles, sempre foi visto como arte?
RACISMO CULTURAL
Após mais de 300 anos de escravidão, o Brasil ainda carrega as marcas dessa violência através do racismo. Os negros compõem a maioria da população carcerária, são maioria entre pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar e também estão mais sujeitas a serem assassinados. Por outro lado, são minoria entre políticos e classes mais abastadas.
O racismo impacta também na cultura. Ao longo dos anos de escravidão, eles foram massivamente aculturados. Sofreram a separação de sua cultura, a miscigenação forçada com outras etnias e, por vezes, foram proibidos de manifestar seus costumes. Desde a colonização, todas as manifestações nascidas do povo preto eram tratadas como diabólicas, transgressoras das leis e inferiores.
A música sofreu com o mau estigma por diversas vezes. O samba, criado por pretos e que atualmente é visto como patrimônio cultural brasileiro, já foi vastamente perseguido pelos mesmos grupos que hoje criminalizam gêneros como rap e funk. O que todos esses gêneros têm em comum? Eles representam a resistência de um povo marginalizado e uma real possibilidade de ascensão social para grupos que historicamente foram excluídos.
Além disso, as letras revelam um Brasil incômodo. Aquele Brasil que não passa nas propagandas do Ministério do Turismo e que as pessoas fazem questão de jogar para debaixo do tapete. Nesse país desconfortável, o Estado só chega para, supostamente, enfrentar o crime organizado.
A partir da perspectiva de que o funk é uma cultura inferiorizada, uma figura como a do Mc Poze do Rodo – funkeiro, preto, favelado e que antes estava inserido no tráfico da Favela do Rodo – passa a ser visto como inimigo do Estado. Para o cantor, a perseguição a pessoas como ele é clara, “Errei, paguei por isso, dei a volta por cima e hoje estou no topo. Topo, uma das coisas que o favelado nunca pode chegar, porque se chegar é bandido”, relata.
PERSEGUIÇÃO AO FUNK
Essa não é a primeira vez que o Poze estampa o noticiário policial. Desde 2018, a polícia tenta relacionar o cantor à organizações criminosas do Rio de Janeiro. O funkeiro já foi processado mais de uma vez por apologia ao crime e sofreu com algumas buscas e apreensão em sua residência. Ele foi absolvido de todas as acusações em novembro de 2024, quando a juíza do caso alegou que julgar as letras de Poze como apologia era uma forma de marginalização do funk.
Porém, Poze não é o único funkeiro a sofrer perseguição: Renan da Penha, MC Salvador da Rinha e Oruam, são exemplos de artistas que também passaram por episódios que demonstram esse abuso de autoridade.
Em meio a todas as polêmicas que envolvem seu nome, o funkeiro lançou no dia quatro de junho, dois dias após ser solto, a música Desabafo 2. Ao longo do clipe, ele passa cenas gravadas durante o momento em que deixava o presídio. Na letra, o funkeiro pede para ser deixado em paz pela polícia, além de relatar a perseguição que enxerga estar sofrendo.
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O artigo abaixo editado por Ana Carolina Carvalho.
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