Clarisse Lispector, Machado de Assis, Homero, Shakespeare, Dostoiévski. Ao longo dos séculos, as obras clássicas continuam rodando pelas estantes e encantando novos leitores.
Para o escritor italiano Ítalo Calvino, “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Os clássicos possuem uma rara capacidade de dialogar com as grandes questões humanas, justamente por tratarem de assuntos que dificilmente mudam com o tempo, como morte, poder, amor, injustiça, identidade e culpa.
Como nascem os clássicos
Nem todos os clássicos percorreram o mesmo caminho para se tornarem os masterpiece que são hoje. Ao contrário do que parece, muitos passaram por um caminho bem mais complicado do que a atual reputação sugere.
Moby Dick (1851), de Herman Melville, vendeu mal e recebeu críticas duras. Melville morreu em 1891 praticamente esquecido como romancista. O Grande Gatsby (1925), de Fitzgerald, teve vendas medíocres e resenhas mornas. Fitzgerald morreu em 1940 achando que tinha sido um fracasso. Porém, os livros foram redescobertos décadas depois, atualizando seus status para obras-primas.
Entretanto, também existem os casos de sucesso imediato, como Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Ambos foram aclamados pela crítica e pela público, com seus autores ainda em vida.
Apesar de terem seguido caminhos diferentes, todos esses livros chegaram em um ponto em comum, essencial para seu sucesso atemporal: eles conseguiram cativar o âmago de seus leitores.
atemporais
Como analisado por Xavana Celesnah, jornalista e mestre em artes visuais, caiu no entendimento popular que os livros clássicos são antigos e obrigatórios nas escolas. Na verdade, um clássico se constrói pela capacidade de permanecer interpretativamente ativo.
Seu conteúdo se mostra ser tão valioso, que consegue viajar décadas provocando e questionando leitores. Diante dos novos acontecimentos do mundo, cada geração que o lê, acaba fornecendo ao clássico diferentes sentidos e entendimentos. Isso explica porque mesmo os livros que não tiveram uma boa aceitação inicial do público, décadas depois, foram reconhecidos como uma obras-primas.
No final, o que torna um livro em clássico é a sua capacidade de ser reconstruído a partir do momento e do contexto em que é lido e essa é a sua relevância atemporal.
Cada vez menos leitores
Infelizmente, os clássicos não são exceção na queda das taxas de leitura. Esse foi um fenômeno mundial ligado à ascensão dos streamings, das redes sociais e das mudanças de hábitos de atenção.
A concentração e paciência que um clássico exige é justamente o tipo de atenção que os hábitos digitais mais corroem. Como consequência, pessoas têm cada vez menos se interessado por leituras longas, que demandam mais atenção e reflexão, deixando os clássicos de lado.
No Brasil, o número de leitores também vem caindo. Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Literatura no Brasil, divulgada em 2024, o país tinha 104,7 milhões de leitores em 2015. Em 2015. Em 2019, eram 100,1 milhões. Já em 2024, o número chegou a 93,4 milhões, uma redução de 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior da pesquisa.
Mas ao mesmo tempo em que as taxas de leitura caem, um novo movimento nas redes sociais tem incentivado o interesse pelos livros.
plot twist
As novas gerações encontraram um local garantido para promover o incentivo do consumo de leituras nas redes sociais. O famoso “BookTok” reúne reviews, sinopses e análises de livros variados. As trends também não ficam de fora desse mundinho digital.
No tiktok, o público conta as histórias em primeira pessoa, como se estivesse dentro da trama, mas, claro, sem revelar o desfecho. Essa nova tendência capta a curiosidade do leitor e o mantém interessado pela narrativa.
Essa nova forma de apresentar as histórias alcança um bom engajamento de público e conquista cada vez novos leitores. Nas redes, muitos usuários têm relatado que entraram no universo literário justamente por meio dessas trends.
Vídeos curtos comentando trechos, plot twists e curiosidades fizeram muitos títulos conquistarem uma geração por meio do Tik Tok. Obras de autores como Franz Kafka também passaram a circular entre novos leitores por meio dessas tendências.
O novo universo clássico
Além das redes sociais, como porta de entrada para novos leitores, as editoras perceberam a onda de novos consumidores e criaram novos designs e edições, mais modernizados e com layouts, que tornam esses livros mais atraentes visualmente. O que é, para um público acostumado a decidir o que consumir pela estética, muito importante.
Quando já conquistados pelas novas edições e pelo próprio “BookTok”, a profundidade dos livros clássicos acaba deixando de ser uma questão de afastamento do leitor, a curiosidade e o interesse o fazem mergulhar na leitura.
Dessa forma, os jovens leitores se permitem encontrar um universo de identificação nos livros clássicos, com temas que abordam solidão, desconexão, sistemas opressores, existencialismos, entre muitos outros.
Justamente por essa capacidade de se manter atemporal, os livros clássicos têm conquistado seu espaço até mesmo nos cinemas. Garantindo ainda mais público, as adaptações literárias de obras clássicas reforçam a sua presença perene. Como foi o caso de Orgulho e Preconceito e O Ensaio Sobre a Cegueira, que ganharam adaptações cinematográficas.
Os clássicos não voltaram porque os jovens simplesmente começaram a gostar de livros antigos. Mesmo com suas narrativas se passando em contextos passados, a cerne do livro clássico acaba sendo redescoberta pelo novo público. Enquanto as redes sociais encontram novas formas de apresentá-los, os conflitos abordados nos clássicos continuam reconhecíveis e identificáveis, dessa vez, a partir das novas interpretações do mundo, mostrando assim sua relevância.
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O artigo acima foi editado por Maria Luiza Comitre.
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