O Brasil registrou 3 milhões de novos leitores no ano de 2025, segundo levantamento da Câmara Brasileira do Livro. Os dados indicam que 18% da população adulta comprou ao menos um livro durante esse período. Entretanto, mesmo com esse aumento, os índices de não leitores ainda são maiores que os daqueles que leem, sendo 51% e 49% respectivamente.
O quadro está ligado a fatores históricos, como a desigualdade social, marginalização e o acesso limitado à educação. Essas condições, ao longo do tempo, contribuíram para um baixo nível de alfabetização, impactando a formação de público leitor no país.
Mas, nos últimos anos, foi possível observar avanços, como o aumento do número de crianças alfabetizadas na rede pública, com índices que superam a meta prevista para 2025. Com isso, as taxas de leitura crescem ao lado das melhorias no sistema educacional, mas não são suficientes para superar a quantidade de não leitores.
Quem são os novos leitores e por quê?
O destaque para o aumento do público leitor no país se dá principalmente em relação aos jovens de 18 a 34 anos, que, em análise, representam a faixa etária com maior crescimento. O protagonismo feminino também se encontra nesse contexto, uma vez que, de acordo com a Câmara Brasileira do Livro, as mulheres representam 60% do total de pessoas que leem, sendo 30% delas pretas e pardas.
Segundo a psicanalista Manuela Xavier, colunista da Revista Glamour, a forma como cada gênero é criado desde a infância, com base em estereótipos sociais, permite compreender por que as figuras masculinas leem menos em relação às femininas. A partir de um viés ainda machista e patriarcal, é possível perceber que muitos homens não são incentivados a desenvolver hábitos ligados a práticas intelectuais e culturais, já que deles é esperado um comportamento viril, associado à força e à coragem.
Nesse aspecto, o feminino tende a criar uma maior proximidade com os hábitos literários, muitas vezes incentivados no ambiente familiar. A leitura, nesse contexto, é frequentemente associada a características como introspecção, sensibilidade, delicadeza e reflexão, atributos que, historicamente, foram mais associados às mulheres.
Mesmo que pensamentos preconceituosos e limitadores ainda influenciem os índices atuais, o cenário se mostra cada vez mais propício a mudanças. Isso se deve, principalmente, à influência da internet, que constantemente apresenta novas tendências.
Ao serem visualizadas pelo público, elas podem despertar curiosidade e levá-lo a consumir conteúdos relacionados, como indicações de obras que estão em alta nas plataformas digitais, ampliando o interesse pela literatura.
Como as tendências estão ajudando a aumentar as taxas?
Os livros se tornaram tendências nas redes sociais, transformando a leitura em um fenômeno cultural e mais atrativo, especialmente para os jovens, principais usuários da internet. A prática de ações como o scrolling, visualização contínua de conteúdos, mantém os usuários por horas nas telas e os deixa a par do que está em alta.
Há uma grande variedade de conteúdos que fazem parte desse movimento, que convergem na criação de sentimentos de identificação e pertencimento no público. Dessa forma, esse movimento vêm gerando aumento no interesse pelo universo literário, uma vez que atrai pessoas que antes não faziam parte desse meio.
1. booktok e bookstagram
Comunidades digitais têm o objetivo de nichar assuntos específicos e unir pessoas com os mesmos interesses. O “BookTok” e o “Bookstagram” fazem parte de subcomunidades de suas respectivas redes, o TikTok e o Instagram. Nesse sentido, buscam promover conteúdos sobre livros, eventos literários e autores.
Essas plataformas se relacionam com o aumento de 3 milhões de novos leitores, pois os vídeos publicados são dinâmicos, muitas vezes curtos (com duração entre um a cinco minutos) e com uma linguagem simples, que aproxima o usuário do emissor.
Isso faz com que os livros que não eram totalmente cativantes apenas por suas capas e sinopses passem a ser vistos como mais interessantes.
Conteúdos criados pela geração Z, como esses, têm incentivado um aumento significativo na quantidade de compradores e leitores. Além disso, essas plataformas contribuem para a criação de uma relação mais próxima com a leitura, estimulando o retorno dos usuários e a formação do hábito de ler.
2. trends
Dentro dessas comunidades existe uma comunicação própria, que leva à criação de padrões de publicações e temas recorrentes. As trends são um exemplo de como os usuários desses espaços passam a interagir entre si e desenvolver uma linguagem em comum.
Os posts, feitos por criadores de conteúdo, utilizam fotos e vídeos que representam a estética e os personagens dos livros como forma de atrair o público.
Conhecidas como “fanarts”, as imagens que antes eram desenhos digitais e pinturas, e que hoje estão sendo criadas principalmente pela inteligência artificial (IA), são uma grande parte do universo literário, uma vez que facilitam a compreensão de como cada leitor enxerga os personagens e os ambientes retratados.
Além delas, vídeos com títulos como “te convencendo a ler o livro pelo aesthetic”, se tornaram muito comuns nas redes. Há uma conexão entre eles e as fanarts, mas estes vão além delas, utilizando diversas fotos e músicas que representam não só um cenário ou protagonista, mas a estética que o livro, como um todo, transmite.
Ao entrarem em contato com essas trends, os não leitores passam a visualizar a forma como o livro se comporta, o que facilita e estimula a imaginação de como a leitura pode ser e o que ela pode proporcionar. Assim, as pessoas buscam conteúdos como esses para saber que perfil realmente combina com cada leitor, facilitando a escolha de livros na hora da compra e ler.
3. adaptações literárias
A febre das adaptações literárias vem crescendo a cada ano. Só em 2026, já tivemos diversas produções lançadas, entre elas O Morro dos Ventos Uivantes e De Férias com Você. Isso acontece porque o cinema vem apostando em estratégias mais seguras de vendas, visto que já existe um público interessado em determinadas obras, o que gera um maior otimismo sobre como os filmes serão recebidos pelos telespectadores.
O movimento contrário também acaba, inevitavelmente, acontecendo. As pessoas se interessam pela versão do cinema e acabam tendo a curiosidade de saber como a história foi contada no livro. Assim, esse mercado acaba influenciando a maior chance dos filmes terem um retorno lucrativo em relação aos gastos de produção e, ao mesmo tempo, cria um caminho direto para obras clássicas e contemporâneas.
um novo cenário para a leitura no brasil
A era digital proporciona novas possibilidades e experiências em diversos aspectos da sociedade, e com a leitura não é diferente. Se antes internet e livros eram vistos como opostos, hoje é possível perceber que podem atuar de forma complementar, contribuindo para a transformação do cenário literário no Brasil.
Nesse contexto, as novas formas de consumo e interação com os livros tornam-se um atrativo importante para o surgimento de novos leitores, indicando um caminho de mudança otimista para um país que ainda enfrenta baixos índices de leitura.
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O artigo acima foi editado por Mariana Camargo Aguiar.
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