Para Entender o Agora: Por Que Os Clássicos da Literatura Ainda Encantam o Público?

Um livro clássico pode parecer algo completamente assustador para algumas pessoas. Jovens, muitas vezes, têm seu primeiro contato com um livro do gênero através de lições da escola, e talvez esse seja o grande aspecto que popularizou a ideia de que clássicos são chatos. Afinal, ninguém aceita com um sorriso genuíno a tarefa de reservar algumas horas do dia para algo que não decidiu fazer por escolha própria.

Entretanto, é uma verdade universalmente reconhecida que livros possuem um papel valioso na vida pessoal, já que são capazes de nos agregar conteúdo, divertir, e até mesmo nos apresentar ao amor. Ao iniciar uma boa história, o leitor é transportado para uma realidade completamente diferente, e o impacto que essa viagem pode causar em sua vida vai muito além do encanto de entrar em contato com algo novo, já que também é a oportunidade de entender como pessoas diferentes pensavam e se comportavam. Essa apresentação a novas perspectivas provoca reflexões no leitor que engrandecem seu modo de pensar. Por causa disso, é possível não apenas conhecer um pouco mais sobre o mundo, como também observá-lo e interpretá-lo de forma diferente, com um olhar mais atencioso e empático para coisas que passavam despercebidas até então.

Woman reading a book on the couch Photo by Seven Shooter from Unsplash

Frequentemente, a discussão sobre a relevância dos livros clássicos vem à tona, e a opinião de que essas obras já se tornaram antiquadas é, infelizmente, bastante popular. Mas é valido refletir: quando uma pessoa relê um livro, é possível que desenvolva uma opinião completamente diferente daquela que teve quando o leu pela primeira vez, e os clássicos funcionam da mesma forma, já que possuem diferentes significados para diferentes gerações.

Não há exemplo melhor para tal fato do que a obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Hoje em dia, muito se discute sobre o maior debate da literatura brasileira: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Entretanto, quando o livro foi publicado, os leitores da época não tinham dúvidas de que Capitu havia cometido o adultério. Isso porque a discussão sobre a possibilidade da personagem não ter cometido a traição foi desenvolvida nos dias atuais, mostrando o impacto que o crescimento do feminismo teve para a mudança de opinião: hoje, o discurso de Bentinho pode ser classificado como sexista e fruto de seu ciúme doentio.

Outro título que não poderia deixar de ser mencionado é “Orgulho e Preconceito”. Quem pouco sabe sobre os clássicos acredita que suas narrativas são moldadas através de clichês, e a obra-prima de Jane Austen é a prova de que tal afirmação não é verídica. Darcy e Elizabeth estão longe de se enquadrar nos tradicionais príncipes e princesas dos contos de fadas, uma vez que a relação dos dois teve dificuldades. Como próprio título revela, são personagens repletos de sentimentos orgulhosos e preconceituosos, Darcy frequentemente julga a família Bennet, que não é tão rica quanto a dele, e Elizabeth por causa disso, passa a desprezá-lo e mantém seu orgulho firme mesmo depois de Darcy confessar seu amor por ela. Ambos são complexos, impossíveis de serem explicadas em poucas palavras, e a prova de que o amor é uma construção e uma escolha. E é em meio as qualidades individuais de cada um deles e reconhecimento de seus erros que se tornaram o herói e a heroína de uma história que ainda atrai milhares de leitores, mesmo depois de dois séculos.

Sobre o romance, em entrevista ao blog Por Essas Páginas, Bianca Rossato, autora da tese de doutorado da UFRGS “O Retrato das Mulheres em Orgulho e Preconceito (1813) e Os Diários de Lizzie Bennet (2012/2013)” (em tradução livre), comentou: “[...] as fraquezas, o orgulho, o preconceito, o medo da mãe em relação ao futuro das filhas, a indiferença do pai, os julgamentos precipitados: todos esses são temas que transcendem um período histórico ou literário. Mais do que uma história de amor, Orgulho e Preconceito é uma análise profunda do caráter humano”.

Pride and Prejudice, Jane Austen, book, flowers, roses Elaine Howlin | Unsplash

Muito além de apenas um espelho da sociedade, a literatura também deve ser vista como uma crítica para hábitos e pensamentos de determinadas épocas. Para isso, vale a pena ressaltar “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë. É inegável que Heathcliff e Catherine cometeram crueldades, erraram e sentiram a raiva da forma mais extrema possível e dessa forma viveram uma história inesquecível, mas que divide opiniões. O rompimento do maniqueísmo e a apresentação de personagens que são, acima de tudo, humanos, fez com que Emily se consagrasse na literatura mundial, revelando que um mesmo indivíduo pode ser envolvido não só pela fúria, mas também pelo amor. Lamentavelmente, porém, uma sociedade vitoriana marcada por sua plenitude jamais foi capaz de aceitar a apresentação do ser humano dessa forma. Por causa disso, “O Morro dos Ventos Uivantes” é o livro correto para evidenciar que a literatura também pode englobar um caráter humanizador.

Os clássicos são capazes de atrair leitores pois, mesmo publicados há décadas e até mesmo séculos, tratam de temas universais. “Orgulho e Preconceito” é uma sátira da sociedade que, atualmente, evoluiu em determinados aspectos, mas ainda comete alguns dos mesmos erros do passado. “Dom Casmurro” é uma grande narrativa sobre o ciúme, tema ainda vigente no século XXI. “O Morro dos Ventos Uivantes” é um retrato sincero da vida, da complexidade dos sentimentos humanos e do desejo de ser livre e viver de forma verdadeira. Por isso, um livro antigo não é sinônimo de livro ultrapassado, pois buscar algo naquilo que a humanidade já viveu pode ser valioso.

E os exemplos citados acima são apenas três de muitos clássicos que influenciaram e ainda influenciarão muitos leitores ao redor do mundo. São os livros perfeitos para conhecer grandes personagens, enredos, palavras, ideias, a história não só do Brasil, como também do mundo e ainda entender como a sociedade chegou até o momento atual. Assim, não existe uma obra tão enriquecedora quanto um bom livro clássico!

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O artigo acima foi editado por Luíza Fernandes.

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