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Felicity Warner / HCM
Casper Libero | Culture > Entertainment

Os filmes estão ficando mais cinzas? Entenda a tendência da dessaturação no audiovisual

Samantha Coutto Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Por que tudo o que estreia parece ter a mesma cara?

Você já percebeu que tudo o que estreia agora parece igual? As produções estão com um ar plastificado, sem textura. Há algum tempo, principalmente nos originais de streaming, um certo visual virou padrão. As imagens são lavadas, os rostos suavizados, os cenários bem minimalistas, e a luz vem de tantos lados que as sombras somem. Essa tendência foi apelidada pelos cinéfilos de Netflix Lighting. Não importa se é um filme de época, série teen ou filme de ação, quando você presta atenção, dá para perceber como esse visual atravessa quase todos os catálogos.

Os exemplos são vários. Quando o teaser do remake de Harry Potter em formato de série foi lançado pela HBO Max, os fãs notaram na hora que a nova versão parece muito menos mágica do que os filmes. A franquia original tinha um visual que mudava com a história, começando pelo encanto dos primeiros anos em Hogwarts e ficando cada vez mais sombria conforme a saga avançava. Já a série adota a mesma paleta fria e lavada que se vê em quase tudo hoje. Tem quem até tenha começado a editar manualmente os frames do trailer para mostrar como a imagem ficaria com mais cor e brilho.

Em outros casos, a mudança acontece dentro do mesmo projeto. Stranger Things, por exemplo, construiu seu sucesso justamente apostando na textura granulada e no alto contraste dos filmes dos anos 80 que homenageava. Contudo, ao longo das temporadas, foi perdendo essa identidade visual e se rendendo à mesma tendência à qual, em tese, deveria resistir.

E o fenômeno não se limitou aos streamings. Se você foi ao cinema assistir a O Diabo Veste Prada 2 nas últimas semanas, deve ter percebido uma mudança estética em relação ao primeiro filme. E não foi só você. Antes mesmo da estreia, o público já comentava a mudança visual nas prévias divulgadas. A diferença é mais óbvia nos rostos das atrizes: a luz difusa suaviza tudo, escondendo quase duas décadas de envelhecimento entre os filmes.

Além disso, o filme perde profundidade e presença de cor, aquilo que faz um filme ter “cara de filme”. A Miranda Priestly do primeiro filme tinha uma presença forte, também por parte das sombras, que davam contorno ao rosto dela. Na sequência, esse efeito perde força. 

A pergunta que fica é inevitável: por que isso acontece? Como o cinema, que sempre teve na imagem uma das suas formas mais potentes de expressão, foi se tornando cada vez mais uniforme? A explicação vai muito além de escolhas artísticas dos diretores.

Como chegamos até aqui 

Boa parte disso vem da evolução das próprias câmeras. Durante décadas, iluminar uma cena foi um trabalho artesanal. O filme analógico exigia que cada sombra e cada feixe de luz fossem pensados com precisão antes da gravação. Hoje, com as câmeras digitais, os sensores conseguem captar imagens em condições de pouquíssima luz. Quando essa preocupação técnica sai de cena, o trabalho fica mais rápido e também menos intencional. Então, em muitas produções, a luz deixa de ser esculpida e passa a ser apenas captada.

A pós-produção também passou a ocupar mais espaço no processo. Os cenários são finalizados digitalmente, os fundos são CGI e os rostos podem ser retocados depois. Mas para que isso funcione, a iluminação no set precisa ser neutra e uniforme. Quando a luz vem de todos os ângulos, ela cancela as próprias sombras, e os rostos ganham aquela suavidade borrada característica desse padrão visual. A imagem nasce genérica de propósito para ser completada na edição, como acontece em produções recentes da Marvel, por exemplo. 

O segundo ponto se baseia em como o audiovisual é consumido hoje. O que antes era feito para ser visto em grandes telas de cinema, com toda a atenção do espectador, agora é assistido em telas pequenas de celular. E muitas vezes, nem isso. A TV virou plano de fundo enquanto o espectador “rola” o feed.

Diante disso, a riqueza de detalhes e contrastes acaba dando espaço a uma estética mais direta e mais fácil de absorver. Os close-ups tomam o lugar de planos abertos elaborados, e a imagem precisa ser legível em poucos segundos. O algoritmo dos streamings também contribui para esse resultado. Imagens muito complexas ou contrastantes não funcionam tão bem durante a compressão, o que reforça a preferência por cenários minimalistas e paletas suaves.

E não para por aí. O algoritmo também tende a recomendar conteúdos parecidos com o último que você assistiu, não só em gênero, mas também na aparência. Assim, vira uma cadeia: a audiência se acostuma com esse visual, a plataforma reforça, e qualquer coisa diferente disso passa a parecer estranha. 

Os fatores culturais também pesam. A perfeição da imagem virou obsessão nas redes sociais, onde rostos passam por filtros constantes e a textura real da pele é tratada como falha. E essa expectativa visual se encontra com a iluminação difusa das produções, que, ao apagar sombras, acaba também apagando rugas e marcas de expressão.  Além disso, nós vivemos em uma época de hiperestimulação generalizada, os cenários que antes eram mais robustos, com paletas vibrantes e densas, hoje podem soar como “too much”. Quando a mente está cansada, as estéticas minimalistas podem ser vistas como um respiro.

QUANDO OS FILMES AINDA TINHAM ASSINATURA

Tudo isso explica como chegamos até aqui. Mas e o que ficou para trás no caminho? Durante muito tempo, dava para reconhecer um diretor pela forma como ele lidava com a luz. Cada um tinha um estilo próprio, e bastava um plano para identificar quem estava por trás dele. Hoje, esse tipo de autoria virou exceção. A maioria das produções perdeu essa marca pessoal, e o que aparece nas telas fica bem feito, mas sem rosto.

Ainda assim, parte de quem assiste começa a perceber que algo se perdeu. No TikTok, vêm viralizando edits de filmes antigos, com Elizabeth Taylor ou Audrey Hepburn em Technicolor, técnica analógica que usava três tiras de cor e produzia imagens marcadas por vermelhos-sangue e verdes-esmeralda. E não são só os clássicos. Algumas obras dos anos 2000, como Encontros e Desencontros e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, também estão sendo redescobertas como referência, sempre acompanhadas de comentários pedindo para que “fizessem filmes assim de novo”. A nostalgia visual não é só saudosismo, é o sinal de que o gosto pelo cinema com personalidade não morreu.

NEM TUDO FOI PERDIDO

Mas há quem ainda escape desse padrão. Algumas produções mostram que a uniformidade visual da indústria é uma escolha, e que há diretores que ainda tratam a fotografia e a cor como elementos centrais do cinema, não como detalhe a ser resolvido na pós-produção.

Barbie, de Greta Gerwig, foi rodada em digital, mas com uma paleta construída especificamente para o filme, que resgata as cores saturadas dos musicais clássicos. Avatar: O Caminho das Águas, de James Cameron, é quase inteiramente computadorizado, mas tem uma profundidade visual que muitas produções com efeitos práticos não alcançam. 

Outros diretores foram pelo caminho oposto e voltaram ao filme analógico, como Yorgos Lanthimos em Pobres Criaturas, Damien Chazelle em La La Land e Anna Biller em The Love Witch. O ponto em comum não é a referência ao passado nem o uso de uma tecnologia específica, e sim o fato de que cada filme tem uma identidade visual pensada do início ao fim. Algo que exige tempo, intenção e equipe, recursos que a lógica do streaming raramente prioriza.

Talvez o saudosismo que vem aparecendo nos últimos tempos não seja exatamente sobre o passado, mas sobre o que o cinema sempre foi e ainda pode ser: um lugar onde a imagem não é apenas registro, mas arte. A forma como a luz incide num rosto ou o peso de uma sombra são parte da linguagem do cinema, e é o que diferencia um filme de qualquer outro formato. Quando tudo começa a parecer igual, o que se perde não é só a variedade visual, é a marca autoral de cada produção. E aí fica a questão: o que acontece com a arte quando ela passa a buscar o conforto em vez da expressão? E até quando isso vai continuar sendo o padrão dominante?

O artigo acima foi editado por Maryanna Arison.

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Samantha Coutto

Casper Libero '29

Estudante de jornalismo na faculdade Casper Líbero. Gosto de escrever sobre comportamento, cultura, história e sociedade. :)