Em um casarão isolado e luxuoso, três seguidoras são escolhidas para participarem de uma imersão à virtuosidade. Sob a liderança de Virgínia Heinzl, interpretada por Bruna Linzmeyer, uma carismática e imponente coach, que cativa mulheres “perdidas” por meio do discurso da fé. O retiro VIP assegura a conquista de uma “feminilidade que está em forma de um rubi bruto e precisará ser lapidado” mediante a submissão ao casamento e ao lar. A maior referência bíblica usada para justificar a ultra religiosidade dessas moças é o capítulo 31 do livro de provérbios.
No decorrer da narrativa, as contradições morais orquestradas por Virgínia rapidamente saem do controle e direcionam para o horror psicológico das personagens. Enquanto a influenciadora ensina o poder da mulher de recuar e servir ao seu papel, a própria acumula faturamento, autoridade e influência política.
“Ser submissa não significa ser fraca, como gostam de dizer, oprimida. É o nosso papel destinado por Deus. […] Todos nós somos submissas a alguma coisa. Essa é a verdade que ninguém quer admitir: submissa ao dinheiro, à falta de tempo, aos vícios, às dívidas, ao chefe. Então, por que não escolher ser submissa à família, ao marido e aos filhos?”
O cenário acima descreve o enredo do lançamento de Virtuosas, longa-metragem da diretora catarinense Cíntia Domit Bittar, produzido pela produtora Novelo Filmes, liderada inteiramente por mulheres. Contemplado com humor ácido e doses de terror social, o filme vem adquirindo projeção como um dos retratos mais fiéis do Brasil contemporâneo. Todavia, também tem sido alvo de um intenso debate nas redes sociais, com reações e boicotes de influenciadoras cristãs.
O espanto provocado pelo filme, porém, não está somente em seus acontecimentos ficcionais, os quaisocorrem em dimensões estrondosas (mortes, cárcere privado e tortura), mas na precisão com que reflete uma realidade encontrada no país, atrelada ao perigo de estarmos caminhando em direção a um lugar radical no que diz respeito à religião. Para além de uma mera discussão sobre a fé ou uma tendência de estética, a existência e o lançamento de uma produção como ‘Virtuosas’ são utilizados como ponto de partida jornalístico para investigar um fenômeno muito mais profundo: o momento em que a escolha individual e íntima passa a ser um tipo de pensamento conservador projetado para política, mercado e padronização moral do coletivo.
A Exaustão neoliberal e a Nostalgia de “ordem”
Compreender o avanço de discursos que retrocedem aos papéis rígidos de gênero dos anos 1950 pode ser simplificado pelo movimento global das tradwives (esposas tradicionais), contudo, é preciso olhar mais a fundo a superficialidade de bolos caseiros e aventais vintage. Esses discursos encontram o solo fértil para se desenvolver não na ignorância, mas no esgotamento de várias mulheres. No Brasil atual, a jornada de trabalho feminina é marcada por uma desigualdade estrutural.
De acordo com o 3º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego (2025), as mulheres recebem, em média, 20,9% a menos do que os homens. As dificuldades elevam-se quando o aspecto da maternidade é inserido com cerca de 48% das trabalhadoras sendo demitidas após o retorno da licença-maternidade. Na mesma medida que, mais de 11 milhões de mães solo arcam sozinhas com os cuidados dos filhos sem apoio paterno. Estes números revelam, nas entrelinhas, que as mulheres lidam com um mercado precarizado e uma dupla jornada exaustiva (entre o trabalho e casa), sobrevivendo na ausência de redes públicas de apoio e cuidado. Diante desse cenário, a decisão de retirar-se do mercado de trabalho e entregar a autonomia financeira aos maridos, é percebida como uma escolha de caráter racional por parte das mulheres que possui como objetivo garantir a própria sobrevivência
O teórico linguístico Yuri Lotman, criou o conceito de alta semioticidade para explicar que, quando as pessoas tentam entender novos códigos culturais, é possível que ocasione em inseguranças psicossociais, podendo desencadear respostas conservadoras para algo que já conhecemos ou somos habituados. A Sociologia chama de nostalgia regressiva o regresso imaginário a um passado onde os papéis eram claros e o futuro parecia previsão estável, conduzindo à uma busca incessante pela restauração da ordem Essa é umas das operações que o conservadorismo feminino caminha, oferecendo uma promessa de estabilidade e sentido para mulheres exaustas do sistema.
O sistema do Backlash: O feminismo como Bode Expiatório
Tanto no filme quanto no debate público, o discurso conservador se estrutura a partir de um tipo de contra-ataque. A trama central, vendida por influenciadoras da “feminilidade cristã”, prega na premissa de que o feminismo é um dos culpados, senão o único, pelas angústias, cansaço e solidão da mulher moderna. Ter independência financeira e autonomia política, por exemplo, constituem questões ressignificadas não como conquistas, mas como um “fardo” pesado demais para ser carregado.
A própria recepção do lançamento de Virtuosas nos cinemas ilustra esse contra-ataque, demonstrando páginas conservadoras e influenciadoras digitais acusando o filme de “distorcer Provérbios 31” e “ridicularizar a mulher cristã”. Conforme a crítica da Rolling Stone, o filme é desconfortável por sua proximidade com a realidade. Assim, os efeitos que a obra têm gerado nas mídias evidencia que a reação conservadora não tolera a sátira porque ela desarma a perfeição que o movimento acredita.
Esta articulação foi mapeada pela jornalista Susan Faludi em sua obra Backlash: O contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres. Faludi Apresenta que as ofensivas anti feministas não são ataques centralizados ou pensados por um único grupo, mas reações históricas e cíclicas que voltam à cena quando as mulheres conquistam avanços institucionais significativos. A filósofa francesa Simone de Beauvoir já abordava em O segundo Sexo que a figura da mulher é historicamente colocada na posição de “Outro” – um ser dependente, na qual sua existência se justifica em relação ao homem.
O que ‘Virtuosas’ expõe, é em como essa posição de submissão é remasterizada hoje sob uma ideia atraente: o ato da mulher se submeter ao sistema patriarcal, é vendida como o verdadeiro empoderamento feminino. Desvendando a anatomia do “retorno” do conservadorismo entre as mulheres, não pode-se deixar de analisar os homens nessa história, os quais configuram-se como o ecossistema que financia e aplaude o movimento. A teórica política Wendy Brown dialoga que o desaparecimento do papel do homem como provedor único do lar e o avanço da autonomia feminina geram um profundo ressentimento masculino na contemporaneidade.
Esse sentimento é explicado pelo pesquisador Caíque Diogo de Oliveira, em seu artigo científico, publicado em 2022 na Revista Crítica Histórica, no qual aponta que a emergência de movimentos como o “tradwife” e “mulher virtuosa” atuam como um motor de políticas para comunidades misóginas e partidos de extrema-direita na sociedade brasileira. Ao aceitar e validar esses arquétipos, a mulher atua como um consolo para o ego masculino ferido. O homem ressentido deixa ver a mulher como uma concorrente qualificada no mercado de trabalho ou uma ameaça aos seus privilégios, transformando-a em sua criação icônica. Dessa forma, o crescimento desse movimento ideológico entre as mulheres é também uma resposta simbiótica à uma demanda masculina.
Fé, Dinheiro e Alcance: A indústria da Mulher Virtuosa
Uma das maiores críticas do filme de Bittar está em denunciar a eficácia econômica por trás do discurso da renúncia de seus desejos. Fora da obra fictícia, as redes sociais funcionam pela mesma lógica mercantil. O conservadorismo feminino não está sendo apenas propagado, ele se tornou um novo nicho de mercado altamente rentável. Influenciadoras digitais no Instagram e no Youtube acumulam dinheiro expressivo comercializando infoprodutos voltados para mentoria de “esposa ideal e feminina”. O movimento engloba diversos tipos: casamento, cursos online de etiqueta e mesa posta, e-books sobre como se comportar tradicionalmente e conteúdos patrocinados de marcas de utensílios domésticos.
O NetLab da UFRJ, em relatório divulgado em 2024, identifica 137 canais brasileiros no Youtube dedicados à divulgação de conteúdos misóginos e antifeministas, cujo registro acumula uma audiência de mais de 3,9 bilhões de visualizações e consequentemente gera receitas cheias por meio da monetização. A teórica política Sara Ahmed nomeia esse fenômeno por seu conceito de economias afetivas. Sara explica que quando ocorrem situações formadas por emoções intensas, como o ressentimento de ter uma família desestruturada ou medo de transformações sociais muito abruptas, elas abandonam o caráter individual, configurando-se como possíveis investimentos para o mercado.
A circulação desses sentimentos está principalmente nas redes digitais, gerando identificação coletiva e na criação de comunidades digitais fechadas. O MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) comprovou que, na prática, a desinformação espalha-se 70% mais rápido nas redes do que fatos construídos e contextualizados, servindo de preparação para a consolidação desses grupos digitais moralistas.
O paradoxo do Poder
Existe uma contradição aos discursos de feminilidade: como mulheres que defendem a transição para o lar e a submissão à liderança masculina conseguem, se transformar em lideranças políticas de massa e influenciadoras militantes no espaço público?
No filme, esse aspecto não é oculto. Durante toda a organização do evento VIP, estava tudo premeditado que uma mulher específica seria escolhida, Lorena (esposa de um político concorrendo às eleições), interpretada por Juliana Lourenção. A partir disso, Virginia desenvolve uma articulação política para conseguir entrar no partido mesmo que, em outros diálogos mostrados na trama com as outras personagens, a mentora deixa claro que na política apenas homens podem ocupar esse espaço.
Na realidade brasileira, a resposta histórica e sociológica a essa mobilização política de mulheres conservadoras no Brasil não é algo visto apenas hoje, mas uma força que estrutura a história, ficando à frente de muitos protestos em defesa da família, religião e valores tradicionais durante a ditadura militar. Recentemente, figuras imponentes como Damares Alves e Michelle Bolsonaro transformam essa atuação do passado. Elas não atuam na política apesar de seu conservadorismo, mas através de seu arquétipo de mulher conservadora brasileira.
Consoante a isso, as pesquisadoras Esther Solano, Camila Rocha e Lilian Sendretti articulam em sua pesquisa, publicada em 2023 no Caderno CRH, que a nova extrema-direita brasileira reformulou o termo de “empoderamento”. Sob essa perspectiva, a mulher que está engajada na política é convidada a agir pelos líderes como a “guardiã dos valores morais da nação”. Somado a isso, a pesquisadora de comunicação politica Luciana Panke, em sua obra Campanhas eleitorais para mulheres: desafios e tendencias da Editora UFPR mostra o uso estratégico de mais um arquétipo, o Maternal e da Guerreira nas campanhas de direita; a figura feminina assume o cargo não para defender seus direitos individuais, mas para travar uma disputa em defesa da integridade “Deus, pátria e família”.
Onde a virtude deixa de ser romantizada e passa a ser temida
O divisor de águas da obra cinematográfica acontece quando as engrenagens de impor as ideologias se chocam contra a realidade física e da legislação. O horror do filme assusta porque se baseia em estatísticas reais de violência e silenciamento. A teologia da submissão incondiconal deixa lacunas de extrema vulnerabilidade doméstica e propagação de discursos de ódio.
De acordo com os dados do Atlas da Violência (2025), o Brasil registra mais de 822 mil estupros por ano (uma agressão a cada seis minutos), em que 70,6% dos casos contra vítimas do sexo feminino são cometidos por familiares, parceiros ou ex-parceiros. Em comunidades religiosas, onde muitas das vezes a separação é percebida como um ato inconcebível e a aceitação do sofrimento pregada como parte de ser mulher espiritualmente virtuosa, cria-se uma sentença de cárcere psicológico e físico à mulher.
No universo narrativo de Virtuosas, as relações de violência psicológica sobrepõe-se às físicas, onde personagens como Lorena encontram-se à beira do desequilíbrio mentalpor achar que Deus está testando espiritualmente com uma figura mística – a bruxa da fita, que estaria tentando matar o seu bebê; Virginia precisa sustentar e validar seus delírios de forma bíblica para não colocar em risco seu futuro político que tinha em mente, mesmo que isso provoque a morte de alguém.
A busca por parâmetros éticos no processo investigativo não se confunde com críticas à religião nem com o julgamento de valores conservadores. A liberdade e diversidade religiosa são pilares bases de uma democracia, o foco está em somente acender um alerta aos desvios humanos que ocorrem quando uma interpretação radicalizada desses valores é convertida em um instrumento de imposição. O obstáculo social inicia quando o direito individual de expressar uma crença é modelado por discursos extremistas que buscam sobrepor a autonomia cívica das mulheres, silenciar abusos e violar os limites da própria legislação. Não se trata de debater a legitimidade da fé, mas de mapear onde o radicalismo ideológico costuma se incluir.
O espelho do Nosso Tempo
O que o produto audiovisual revela, em análise geral, é que o avanço do conservadorismo e da religiosidade radicalizada não deve ser reduzido como um anacronismo ou um “retrocesso” simples. Ele se configura hoje como uma construção identitária, sofisticada, que veicula religiosidade, empreendedorismo capital e ressentimento social. O filme aponta precisamente até quando é legítimo a liberdade de crença e a escolha individual de um estilo de vida tradicional para cruzar uma fronteira democrática e se transformar em uma engrenagem de desumanização.
Ao rir e tomar sustos com a jornada VIP de Virginia, o espectador não está distante de uma realidade impossível, mas diante de um espelho de uma sociedade que, estando cansada de suas crises, flerta perigosamente com a venda da ideia de submissão como mercadoria divina.
O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.
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