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O que o caso Brigitte Macron revela sobre misoginia na política

Brunna Bitencourt Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A primeira-dama da França, Brigitte Macron, anunciou no último mês junto ao marido, o presidente Emmanuel Macron, que pretendem enviar evidências fotográficas e laudos científicos comprovando que Brigitte seria mulher. A ação faz parte de um processo judicial por difamação, aberto em julho deste ano, contra a youtuber e influenciadora norte-americana Candace Owens, que afirma que a primeira-dama francesa teria nascido homem.

Segundo a definição jurídica da Faculdade de Direito da Cornell, a difamação é uma declaração falsa que prejudica a reputação de terceiros. O delito em questão teria sido decorrente de declarações e vídeos publicados pela youtuber. Por se tratar de um processo aberto em território americano, um dos requisitos é que o casal Macron, autores da ação, comprove a “malícia real”, ou seja, que a divulgação de informações falsas tenha sido feita conscientemente ou com negligência em relação à verdade.

OUTROS ATAQUES

Essa não é a primeira vez que a primeira-dama é alvo de alegações desse tipo. Em 2021, circulou nas redes sociais uma teoria conspiratória de que Brigitte Macron seria, na verdade, seu irmão Jean-Michel Trogneux, que teria passado por uma transição de gênero e assumido a identidade feminina. Como resposta, Brigitte e o irmão entraram com uma ação de difamação pública. Em 2024, um tribunal de Paris condenou Amandine Roy e Natacha Rey a pagar multa e indenização por danos morais, mas, neste ano, a decisão foi revogada após recurso dos acusados, com base na prerrogativa de “liberdade de expressão”.

De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo, as mulheres que atuam na política recebem duas vezes mais ataques pessoais e misóginos do que os homens, que são mais criticados por seu desempenho profissional. A pesquisa ainda sinaliza que, embora as mulheres representem cerca de 24% dos políticos na amostra, elas foram alvo de cerca de 18% das mensagens analisadas.

Em entrevista, a psicóloga e especialista em Relações de Gênero Tatiane Ramos explica por que as mulheres ainda são questionadas, seja pela aparência, pelo gênero ou pelo posicionamento, e quais impactos ataques desse tipo podem ter na representação política feminina.

Podemos pensar que o corpo feminino é um território público, passível de dominação. Há toda uma etiqueta a ser zelada para manutenção das coisas como são e dos papéis estabelecidos para cada grupo. Existe uma tentativa de definir aquilo que, na leitura social, faz alguém ser mulher, o que implica a criação de políticas públicas a partir das necessidades de cada grupo. Aquilo que escapa dessa etiqueta e dessas normas está sujeito à dominação e domesticação. A aparência e a identidade das mulheres ainda são questionadas na política, justamente como forma de dominação sobre esse corpo público. As mulheres na política não são julgadas necessariamente por suas ideias, mas por como se comportam, falam e com quem se relacionam.”, declara a psicóloga

Tatianne ainda aponta que ataques relacionados ao gênero provocam impactos emocionais profundos, gerando sentimentos de impotência, raiva, medo, humilhação e dúvidas sobre suas próprias capacidades. Ela explica que a distorção da imagem pública pode levar ao isolamento social e a diversos sofrimentos psíquicos, como ansiedade, depressão e transtornos alimentares. Segundo a especialista, qualquer boato ou distorção ligada ao gênero tem consequências significativas para a saúde emocional das mulheres.

MAIS VÍTIMAS

Além de Brigitte, outras figuras públicas, como a ex-primeira-dama dos EUA Michelle Obama, também já foram alvo de teorias conspiratórias sobre gênero. Em seu livro Minha História, Michelle aborda ataques que, muitas vezes, atingem mulheres envolvidas na política.

Desde que entrei, relutante, na vida pública, fui considerada a mulher mais poderosa do mundo e apontada como uma ‘mulher negra raivosa’. Queria perguntar aos meus detratores qual parte da expressão eles consideram mais relevante: ‘mulher’, ‘negra’ ou ‘raivosa’? Sorri para as fotos com gente que chamava meu marido de nomes horríveis em cadeia nacional, mas mesmo assim queriam uma lembrança emoldurada para pôr no console da lareira. Ouvi falar dos lugares lamacentos da internet que questionam tudo a meu respeito, até se sou homem ou mulher. Um congressista americano já fez piada da minha bunda. Fui magoada. Fiquei furiosa. Mas, acima de tudo, tentei rir dessas coisas”, afirma Michelle.

Casos como Brigitte Macron e o de Michelle Obama evidenciam como ataques de cunho misógino continuam sendo uma ferramenta presente no cenário político. A tentativa de deslegitimar mulheres públicas por meio de boatos, aparência ou identidade de gênero revela que, apesar dos avanços na representatividade, o controle sobre o corpo e a imagem feminina ainda é usado como forma de silenciamento e exclusão.

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The article above was edited by Beatriz Gatz.

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Brunna Bitencourt

Casper Libero '25

Journalism student who loves to talk about art,music,fashion,travel,books. Looking for to write new stories.