Desde o período de campanha de divulgação, presença nos mais renomados festivais internacionais até o momento de sua estreia, o filme Ainda estou aqui foi responsável por atrair novamente os olhares estrangeiros para o cinema brasileiro, e ainda mais, despertou os olhares dos próprios brasileiros para o nosso cinema.
O que pode parecer irrelevante, na verdade gerou um efeito dominó e contribuiu para a “subida de um patamar”, resultando no aumento da bilheteria de filmes nacionais e até mesmo no interesse de festivais internacionais e streamings na reprodução de obras brasileiras.
Consumo de cinema nacional
Se por acaso você realizasse uma entrevista e questionasse pessoas na rua sobre quais foram as últimas obras cinematográficas que elas assistiram, certamente uma grande maioria responderia de primeira alguma obra estrangeira.
Apesar do crescimento nas vendas de ingressos de filmes brasileiros de 2024 para cá, as produções nacionais possuem dificuldades em desbancar filmes estrangeiros (em sua maioria de Hollywood) na competição por audiência, muito por conta da insegurança cultural presente entre os brasileiros.
Nos últimos tempos, tivemos uma grande evolução técnica, diretamente ligada à tecnologia. Mas ainda existe uma diferença gritante entre os recursos utilizados no Brasil e a tecnologia do exterior, sendo este um dos grandes empecilhos ao compararmos nossos filmes, já que não conseguimos bancar a vinda desses equipamentos para cá.
Essas dificuldades não significam de forma alguma que nós somos inferiores em comparação com os estrangeiros. O cinema nacional sempre foi de altíssima qualidade e já produziu obras como Limites (1931), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Central do Brasil (1964), que até hoje são aclamadas pela crítica. Apesar disso, ainda possuímos uma cultura que necessita da validação estrangeira sobre a percepção do nosso próprio país, para, somente assim, valorizarmos o que é nosso.
Reconhecimento internacional
Felizmente ou infelizmente, um prêmio internacional é divisor de águas para a carreira de uma produção cinematográfica. O reconhecimento em um festival de prestígio pode abrir portas para a distribuição internacional.
Esse tipo de feito pode trazer como consequências para o mercado cinematográfico do país o aumento de investimentos estrangeiros nas produções nacionais, e também fortalece o mercado interno com a probabilidade do aumento das bilheterias. O reconhecimento internacional ainda valoriza os profissionais e os elevam a uma escala global, além de promover a cultura nacional.
Considerando que os brasileiros ainda sofrem com a inferiorização da própria cultura em relação a outros países, com o cinema não seria diferente. A partir do reconhecimento internacional dos filmes nacionais, passamos a valorizar qualidades e potencialidades que este país cheio de cultura possui. Essa premiação torna-se um motor que impulsiona a economia, a cultura e a imagem do Brasil no cenário global, criando um espaço propício que beneficia toda a cadeia produtiva do cinema.
A importância do investimento
Apesar de ser responsável pela geração de empregos, contratação de serviços, inovação e fortalecimento da cultura, muitas pessoas ainda questionam a necessidade de investimentos públicos e privados dentro do audiovisual. Esses investimentos tornam possível a existência de uma produção diversa e contínua, e sem esse suporte, a indústria se tornaria ainda mais instável, prejudicando a relação do público com o cinema nacional.
Analisando outras situações, entendemos o quão importante e necessária se faz a presença de subsídios para produção cultural no geral. Muitos artistas primeiro lançam discos comerciais, a fim de consolidar seu reconhecimento e estabilidade financeira, assim conquistam maior liberdade para lançar um álbum autoral, sem a necessidade de ser um sucesso de vendas, focados na sua arte. Primeiro algo comercial, e depois algo conceituado. E assim fazem os cineastas, primeiro se estabelecem no mercado e, a partir daí, podem explorar mais a linguagem artística e cinematográfica.
Temos uma tradição cinematográfica?
O cinema brasileiro surgiu por volta de 1896, quando foi exibida, no Rio de Janeiro, uma série de filmes curtos retratando o cotidiano nas cidades europeias e, desde aquela época, a produção nacional passou por altos e baixos. Essas oscilações foram divididas em períodos na história cinematográfica brasileira e atualmente vivemos a fase da Pós-Retomada.
Desde o surgimento do cinema no Brasil, o gênero da comédia é predominante. Originado nas chanchadas, eram filmes com caráter popular e que, apesar de possuírem forte influência norte-americana, buscavam pela essência brasileira, tratando de problemas do cotidiano e fazendo humor com uma linguagem de fácil compreensão. Nomes como Grande Otelo tiveram seu auge neste gênero. Nos dias atuais, ainda temos a comédia como “carro chefe” das nossas produções e bilheterias. Desde Trapalhões, Minha mãe é uma Peça e, uma das produções mais recentes, O Auto da Compadecida 2.
Impacto das plataformas de streaming
Muitas pessoas acreditam que a popularização das plataformas de streaming ameaça o cinema nacional. O avanço desses serviços afeta o hábito de ir ao cinema e, além disso, traz embates acerca da falta de obrigatoriedade tributária para essas empresas estrangeiras e como essa isenção afeta os produtores cinematográficos brasileiros.
Isso porque o catálogo dos streaming é composto predominantemente por obras internacionais, o que torna a competição desleal para o cinema nacional e produtores independentes, que enfrenta o domínio de filmes estrangeiros dentro do nosso próprio país.
Em contraposição, essas plataformas contribuíram para uma democratização do acesso para pessoas que vivem longe de centros urbanos e não conseguem ir ao cinema regularmente. Também colaborou com o crescimento de produções, e deu oportunidade para profissionais que não fazem parte de equipes das grandes redes de TV brasileiras, como é o caso do roteirista da novela Beleza Fatal.
Afinal, ele subiu de patamar?
O cinema e a indústria cinematográfica brasileira provaram que estão em ascensão nestes últimos anos, quando o quesito é reconhecimento internacional, evolução técnica e investimentos. Ambas a afirmação ou a negação de que o cinema subiu de patamar podem ser feitas dependendo do ponto de vista. Isso porque, ao analisarmos a história do cinema brasileiro vimos que temos obras maravilhosas desde o século XIX, e construímos uma bela tradição e narrativa nacional.
Talvez, essa consideração sobre o patamar esteja mais relacionada à percepção brasileira do cinema, do que de fato à qualidade das nossas obras. Subiremos de patamar no momento em que o Brasil reconhecer de verdade todo o seu potencial e diversidade, valorizando o quão ricos nós somos culturalmente.
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O artigo abaixo editado por Marcele Dias.
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