A película, dirigida por Brady Corbet, tem seu início com a chegada do personagem principal, László Tóth (arquiteto judeu-húngaro), a Nova Iorque. Destaca-se a primeira cena de forte impacto do filme por meio da Estátua da Liberdade enquadrada em ângulo não convencional, simbolizando a futura quebra de expectativa de László ao perceber que tudo que almeja está tão perto e, ainda sim, tão distante.
Logo após a chegada, o arquiteto vai a um bordel com seu companheiro de viagem e lá, diante de uma cena de tamanho constrangimento, mostra-se impotente, o que reflete a impossibilidade de canalização da sua energia vital após ter sobrevivido a um trauma tão impactante quanto a Segunda Guerra. Tal cena utiliza de extrema sutileza por parte do diretor, para demonstrar de maneira indireta que a perpetuação do personagem enquanto “homem” deverá ocorrer de outra forma, que não a biológica.
Mais tarde, o personagem se encontra com seu primo, Attila, que está extremamente mudado em concordância ao “american way of life”, de forma que Attila mudou seu sobrenome para um foneticamente americano, renegou sua raízes judias ao adotar o catolicismo, e abriu uma loja de móveis (o que representa a submissão ao capitalismo).
A princípio, na tentativa de explorar os talentos de László, seu primo o inclui em uma proposta de reformar a biblioteca de um milionário, Harrison Lee Van Buren. A partir desse ponto a trama é baseada no antagonismo e brutalidade entre ambos os personagens.
De início, a obra é fracassada devido a reação negativa do empresário, o que resulta na decadência de László e o torna indigente. Entretanto, após admiração da obra por artistas especializados, Harrison busca László para a realização de outro projeto.
Lászlo, submisso ao poder e explendor do milionário, aceita a proposta de construir um instituto que incluirá diversos cômodos, dentre os quais uma capela cristã, no alto de uma colina na Filadélfia capaz de abarcar tamanho ego e narcisismo de Harrison, com a desculpa de homenagear postumamente sua mãe.
A estética de László se debruça inteiramente no estilo Brutalista ao propor como instituto uma espécie de bloco de concreto quase sem vãos para o exterior, que expressa uma referência, talvez inconsciente, à parte industrial presente nos campos de concentração europeus.
A determinação e insistência de László durante o decorrer do filme, mesmo após uma sequência de conflitos com Harrison, parte de uma vontade primordial e irracional em manter a sombra do passado projetada no presente.
A presença de sua esposa, também fugida da guerra e agora completamente adoecida, marca momentos de perda de sanidade e da própria essência de Lászlo, após ser corrompido pela memória e pela necessidade de manter o passado vivo que, de maneira metafórica, mostra o quanto grandes acontecimentos históricos são capazes de moldar o estilo de vida.
O movimento arquitetônico em questão emergiu no pós-Segunda Guerra Mundial e teve seu auge nas décadas de 1950 a 1970. O termo “Brutalismo” deriva da palavra francesa “brut”, que significa “cru” ou “bruto”, e não está associada à violência, como o nome pode sugerir.
O Brutalismo tornou-se uma resposta à necessidade de reconstrução, já que, após a Segunda Guerra, muitas cidades foram devastadas completamente, proporcionando aos arquitetos a possibilidade de exploração de novas abordagens arquitetônicas e diferentes materiais de construção. O concreto emergiu como uma opção popular devido à sua durabilidade e versatilidade, extremamente úteis diante da instabilidade europeia vigente.
Muitos edifícios brutalistas foram construídos para fins públicos, como escolas, universidades, hospitais, habitação social e edifícios governamentais. Isso reflete uma ideia de arquitetura como ferramenta para a igualdade social e o bem-estar público.
Já no filme , a escolha por uma forma ousada e até mesmo hostil define a arquitetura enquanto arte e símbolo de resistência, de forma que a intencional alienação americana perante a Segunda Guerra permitiu que uma construção semelhante aos campos de concentração europeus fosse admirada aos olhos do capitalismo americano.
A personagem principal: Sinestesia. O filme é facilmente lembrado pela sua confusão imagética e sonora que, na verdade, é muito bem planejada e pode ser percebida logo no começo da obra.
A cena que mostra a estátua da liberdade se dá diante de um excesso de movimentos imagéticos e sonoros. Em determinado momento, o exagero característico da película passa a ser sufocante ao espectador, que se sente “esmagado” por tanta informação.
Outra característica de destaque da obra e que a torna forte concorrente ao Oscar de Direção de Arte, Fotografia, Trilha Sonora, e até mesmo Melhor Filme, é a utilização de VistaVision, um formato de tela mais “esticado” e de maior resolução, não utilizado em filmes desde 1961. A abrangência da tela em conjunto a uma extensa trilha sonora e movimentos não usuais de câmera criam a ideia de tridimensionalidade e absorção mais intensa da obra.
O filme apresenta muitas cenas de forte teor gráfico que podem impactar o público sensível. Entretanto, o incômodo gerado nessas cenas é responsável pela construção da trama, assim como o tumulto contínuo simboliza o fracasso do mundo pós-guerra diante da crescente falta de empatia e a capacidade de obter vantagem por quaisquer meios, já que, como mostrado na película, László é uma vítima de Attila, de Harrison, da Guerra, das drogas e principalmente, dele próprio.
—————————————————————–
O artigo acima foi editado por Camila Iannicelli
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!