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Nova amizade, velhos interesses: como a relação entre Trump e Lula evoluiu para um novo eixo Brasil-EUA?

Isabella Scaramucci Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Foi na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque, em setembro de 2025, que Donald Trump e Lula se cumprimentaram pessoalmente, pela primeira vez, desde que ambos voltaram ao poder da presidência. O encontro, que até então prometia ser marcado pela repulsa entre os dois, tomou uma direção totalmente oposta após abraços, elogios e até promessas de encontros futuros entre eles.

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O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, disse, durante a abertura da 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (23/9), que encontrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). e que os dois tiveram “uma química excelente”. Tradicionalmente, o presidente brasileiro é o primeiro chefe de Estado a discursar. Em seguida, é a vez do titular da Casa Branca. “Nós conversamos e nós concordamos em conversar na próxima semana. Ele parece um homem muito agradável e eu gosto dele. E ele gosta de mim. E eu gosto de fazer negócios com pessoas que eu gosto. Quando eu não gosto de uma pessoa, eu não gosto, mas tivemos ali esses 30 segundos ali, foi uma coisa muito rápida, mas foi uma química excelente. Isso foi um bom sinal”, disse Trump, já no final de seu discurso. #tiktoknoticias 📸 ONU

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Já em outubro, no mês seguinte à ocasião, a promessa de um reencontro entre os presidentes foi finalmente cumprida. Na Malásia, como convidados da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), eles se reuniram oficialmente e, ao contrário da hostilidade esperada, Trump disse que era uma honra estar com Lula, e que ambos fariam “alguns bons acordos”.

Entretanto, em novembro, Trump mudou de postura ao criticar a construção da Avenida da Liberdade, em Belém do Pará. A obra, que liga o centro da capital a municípios vizinhos, a fim de melhorar a mobilidade urbana durante a COP 30, causou danos à Floresta Amazônica e às populações tradicionais ribeirinhas. Em publicação na rede Truth Social, o norte-americano utilizou a obra para ironizar o discurso ecológico do governo de Lula, e chamou-a de “grande escândalo ambiental”.

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Análise – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, postou nas redes sociais, neste domingo (9), sobre a construção da avenida Liberdade, uma via que atravessa uma área de floresta no Pará, estado sede da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30). “Devastaram a floresta do Brasil para construir uma rodovia de quatro pistas para ambientalistas. Virou um grande escândalo!”, escreveu o republicano, referindo-se à Avenida Liberdade, uma obra que não possui ligação direta com a COP 30, segundo o governo brasileiro.​ Para André Trigueiro, esse comentário é uma ‘hipocrisia’ da parte do presidente Trump. Saiba mais no g1. #Trump #g1naCop30 #amazônia #belém #pará

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A tensão no relacionamento entre os presidentes já era uma realidade no cenário político mundial, dada a distinção ideológica entre as suas lideranças. Esse cenário agravou-se ainda mais em 2025 após, dentre outras atitudes, os Estados Unidos terem taxado em 50% os produtos brasileiros. Trump justificou a ação como uma medida comercial, mas, na verdade, ela também escondia motivações políticas.

O polêmico presidente republicano é conhecido, na geopolítica mundial, pela sua postura pouco humanitária e ambiental, movida a critérios pessoais e contrária ao multilateralismo político, como se viu no tarifaço. Contraditoriamente, mesmo após ter desafiado a soberania brasileira com a imposição da sobretaxa, foi ele quem abordou amigavelmente o governante do Brasil.  

O que estaria por trás desse “esquenta e esfria” no relacionamento dos presidentes? A volátil amizade formada entre os líderes seria sincera, ou apenas uma disputa entre os países para ver quem se manterá no centro da geopolítica mundial?

O retorno de Trump à Casa Branca

Após a reeleição de Trump em 2025, os Estados Unidos reestruturam sua política externa para reviver o “America First”, que já esteve presente durante o primeiro mandato do presidente, de 2016 a 2020. A doutrina é focada na segurança nacional e no avanço da economia americana, ela ainda busca recolocar o país como o centro do poder global, posição ameaçada pela emergência de potências como Rússia e China.

Segundo o artigo As relações do Brasil com a China e os Estados Unidos: Panorama da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID) entre 2017 e 2024”, por Júlia Soares, Marina Santos e Lenira Oliveira, o “America First” tenta recentralizar o país na geopolítica mundial por meio da priorização de seus interesses nacionais, pautados pela defesa da soberania estatal e pela busca de influência do país sobre o restante da América. 

Na prática, isso leva os EUA a tomar decisões que se opõem ao multilateralismo – a cooperação política e econômica entre países. Exemplos disso foram o congelamento de recursos para assistencializar países necessitados, a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e o endurecimento das fronteiras nacionais, associando os imigrantes, sobretudo os latino-americanos, a uma ameaça à segurança nacional.

Essa lógica também se aplica na esfera econômica, por meio da taxação de países. Segundo o artigo “Sobre As Sanções dos EUA”, por José Luis Fiori, Trump não impõe tarifas somente para proteger a indústria norte-americana. Nas palavras do autor, as sanções também são uma forma de pressionar os países a ceder aos seus interesses em negociações e de punir aqueles que se negam a atendê-los. Isso reflete a forma a qual o governante utiliza o comércio mundial como uma extensão de sua política. 

Nesse contexto, o Brasil não saiu impune das iniciativas unilaterais de Trump. Em julho de 2025, o presidente norte-americano acrescentou uma sobretaxa de 40% sobre todos os produtos brasileiros exportados aos EUA, que já eram taxados em 10%. Na prática, a tarifa passou para 50%.

Mesmo após o clima entre os presidentes tornar-se acirrado pelo tarifaço, o autor afirma que Lula não se submeteu aos interesses dos EUA: ele utilizou a sanção econômica para reafirmar os princípios da política externa nacional, pautados na soberania do Brasil e na autonomia governamental, buscou uma resposta coletiva dos BRICS 9 grupo de países de economia emergente), e ainda manteve o canal aberto para diálogos e negociações futuras com Trump.

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Encontro com Trump – O presidente Lula afirmou na noite deste domingo, – já manhã de segunda-feira na Malásia – que a reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi “surpreendentemente boa” e que teve a impressão de que logo não haverá problema entre os países. Lula disse ainda reconhecer ser um direito de um Presidente da República aplicar taxas quando acredita que a indústria nacional está sendo prejudicada, mas que as decisões dos Estados Unidos foram tomadas baseadas em informações erradas. “O que não pode é acontecer o que aconteceu com o Brasil, com base em informações equivocadas, tomar uma decisão de taxar o Brasil em 50%. Ele sabe disso porque eu tive a oportunidade de dizer, agora não tem mais intermediário. Agora é o presidente Lula com o presidente Trump.” O presidente afirmou que ficou satisfeito e otimista depois da reunião e que, a depender do desenrolar da situação, já vai “importunar [Trump] com um telefonema direto” na próxima semana. Leia mais no #g1 #g1política #lula #trump #estadosunidos #brasil #tiktoknotícias

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Essa reação, que foi descrita pelo documento como um ato de resistência e de firmeza, aumentou o reconhecimento e a popularidade de Lula, tanto nacional, o que o levou a disparar nas pesquisas para as eleições presidenciais em 2026, quanto internacionalmente, como mostrou o jornal El País, que classificou Lula como “principal estadista do mundo situado à frente da resistência aos delírios imperiais de Trump.”

O cenário global ameaçador

As relações internacionais não voltaram a ser as mesmas desde que Trump saiu da presidência, em 2020. Durante seu primeiro mandato, norteado pela doutrina “America First”, os Estados Unidos enfraqueceram a sua posição na política mundial, consequência direta do ceticismo do governo em relação ao multilateralismo.

Segundo as autoras do artigo As relações do Brasil com a China e os Estados Unidos: Panorama da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID) entre 2017 e 2024”, essa postura foi expressa, dentre outras maneiras, no descredenciamento de instituições e de alianças geopolíticas tradicionais, responsáveis por garantir equilíbrio das relações internacionais desde o pós-guerra. Esse foi o caso, por exemplo, da Organização Mundial do Comércio que, em 2019, teve o órgão de apelação bloqueado por Trump, o que paralisou a capacidade da organização de arbitrar disputas comerciais.

A partir dessa retração dos Estados Unidos no cenário geopolítico, os países passaram a procurar arranjos próprios para compensar essa ausência de liderança, e o BRICS foi um deles. O fortalecimento da aliança entre as nações emergentes foi também um efeito do crescimento estrutural de potências como a China, especialmente nos setores de infraestrutura e energia, antes mesmo de Lula voltar à presidência em 2023.

Apesar dos esforços de Joe Biden, entre 2021 a 2025, para reverter a situação da política estadunidense, esses não foram suficientes para impedir o avanço da influência chinesa na América Latina e nos BRICS. Esse quadro foi ainda mais intensificado devido à menor atuação diplomática brasileira nos BRICS durante o governo de Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, o que contribuiu para a ampliação do espaço da China dentro do bloco.

Dessa forma, com Trump de volta à presidência em 2025, os Estados Unidos se deparam com uma nova ordem mundial – agora multipolar, marcada pela expansão da liderança chinesa, sobretudo na América Latina, e pelo crescimento dos BRICS desde 2023, dando início aos BRICS+. Esse novo cenário, que já contesta a posição dos EUA como centro unipolar do poder global, torna-se ainda mais desafiador com Lula governando, pela terceira vez, o Brasil.

O relacionamento entre os presidentes

Apesar de a tentativa de Trump, em seu novo mandato, de reviver o “America First” não se referir a dominação de uma área em específico, a América Latina tornou-se um foco essencial para a aplicação de seus princípios.

Ainda de acordo com o artigo As relações do Brasil com a China e os Estados Unidos: Panorama da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID) entre 2017 e 2024”, esse enfoque se deu pelo próprio contexto continental que a região representa para os EUA. Isso porque envolve a proximidade geográfica entre os países, já que ambos compartilham o mesmo continente, e questões de segurança regional, relacionadas à contenção de potências extrarregionais, como a China e a Rússia.

Porém, a aplicação do “America First”, diferentemente de como foi feita no primeiro mandato de Trump, não poderia isolar os Estados Unidos no cenário geopolítico, pois permitiria que potências extracontinentais influenciassem ainda mais na América. Por isso, em um contexto multipolar, Trump tenta mostrar uma postura diferente – mais aberta, sobretudo quando direcionada ao Brasil.

Na perspectiva brasileira, a diferença ideológica entre os presidentes e a aproximação do Brasil com a China não se configuram como uma razão para o país romper relações com os EUA. Isso porque, em seu terceiro mandato, Lula adota o pragmatismo moderado, uma abordagem que prioriza a utilidade das relações e suas consequências sem recorrer a radicalizações, mesmo que isso signifique cooperar com países com orientações políticas diversas, como os Estados Unidos.

Por meio de tal estratégia, de acordo com o documento Mudança e continuidade na Política Externa do novo Governo Lula: uma nova matriz de política externa?”, pelo professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Luiz Reis da Silva, o Brasil consegue se consolidar na geopolítica mundial como uma potência emergente e multipolar. Isso, além de reforçar o papel da nação brasileira como voz e mediadora do Sul Global em seu projeto de Cooperação Sul-Sul (CSS), também fortalece o BRICS e garante acesso do Brasil a investimentos estratégicos com os EUA, sobretudo na transição energética.

Simultaneamente, para o presidente norte-americano, essa postura neutra de Lula é benéfica para os seus interesses. Segundo o artigo Lula 3.0 e as relações do Brasil com os Estados Unidos, escrito pelas professoras Monica Hirst e Lia Valls Pereira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o pragmatismo moderado do governante brasileiro impede que o Brasil se submeta totalmente aos interesses chineses. Isso contém a ascensão das potências extrarregionais na América Latina e garante uma estabilidade continental que vai ao encontro das prioridades do governo Trump.

Além disso, independente da orientação política de quem governa o Brasil, o país sempre será um aliado importante para os Estados Unidos. Como a maior economia da região e como um ator importante em fóruns como o G20 e os BRICS, a nação brasileira também é importante na área de defesa. Isso porque o país tem o status de Aliado Preferencial Extra-OTAN, um título que o aproxima dos EUA na área militar e que lhe garante acesso a cooperação e tecnologia, e também media crises regionais, como a da Venezuela.

Dessa forma, tanto os Estados Unidos quanto o Brasil buscam por uma aproximação estratégica, mesmo que isso signifique ter que lidar com as diferentes ideologias de governo. Entretanto, tais diferenças não são totalmente deixadas de lado, como foi o caso do tarifaço de Trump, que se traduz no exercício unilateral dos interesses norte-americanos, e das alfinetadas do presidente norte-americano a Lula, criticando a política externa pró-ambiental do governo brasileiro. 

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‘Conversa muito boa’ – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (2) que teve “uma conversa muito boa” com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Trump, o diálogo incluiu temas como comércio e sanções impostas a autoridades brasileiras. Os dois presidentes conversaram por telefone nesta terça durante cerca de 40 minutos. Durante a ligação, Lula defendeu a retirada de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros que ainda são alvos de sobretaxas, segundo informações do Palácio do Planalto. “Falamos sobre comércio. Falamos sobre sanções porque, como você sabe, eu impus sanções relacionadas a certas coisas que aconteceram”, disse, quando questionado por jornalistas sobre o teor da conversa com Lula. “Mas tivemos uma conversa muito boa. Eu gosto dele, muito bom. Tivemos algumas boas reuniões, como você sabe, mas hoje tivemos uma conversa muito boa.” Veja mais no #g1 em ‘leia o artigo’. #Trump #Lula #EUA #tarifa #g1mundo

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No fim, em 2025, a Assembleia da ONU foi palco de um novo eixo formado entre Brasil e Estados Unidos. Esse arranjo, porém, não funciona como uma aliança sincera, mas sim como um alinhamento estratégico, que denuncia um interesse de ambos em estar no centro da geopolítica global. 

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O artigo abaixo editado por Marcele Dias.

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Isabella Scaramucci

Casper Libero '28

From Teresina - Piauí to São Paulo, journalism student of Casper Líbero institution.