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Wellness

“Não Tenha Medo De Comer”: Uma Relato Sobre A Superação Da Anorexia

Aviso de gatilho: a matéria a seguir pode conter temas sensíveis para pessoas que possuem algum tipo de transtorno alimentar.  

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“VOCÊ PRECISA COMER!”

“COMA!”

“ESTÁ NA HORA DE COMER!”

As frases acima são, na verdade, mensagens de texto. No seriado inglês Skins (2007), a personagem Cassie entra em um conflito interno quando vivencia um transtorno alimentar, assunto não muito compreendido e tampouco debatido há 14 anos.

Distúrbios mentais são pautas presentes do começo ao fim em Skins. O episódio de introdução de Cassie (1×02) busca discutir essa questão e é brilhante e necessário, ainda mais tratando-se de uma época onde a maioria das séries adolescentes não aprofundavam o tema e o glamorizavam. Todo o roteiro da personagem denuncia o comportamento da jovem em relação a sua anorexia. No decorrer do episódio, Cassie passa a receber mensagens que pedem a ela para comer, SMS que a personagem acredita ser de Sid – o garoto por quem se apaixona. Porém, na verdade, é seu inconsciente pedindo para que ela tome uma ação.

Infelizmente, essa realidade vai além das obras de entretenimento adolescente. Transtornos alimentares existem há muito tempo e são um problema recorrente entre as pessoas que, em muitos casos, nem o reconhece ou sabem sobre o que se trata.  

Apesar de ser um assunto delicado, é importante que ele seja pautado e que se abram discussões sobre, pois mostrar comportamentos e situações envolvendo transtornos alimentares é necessário, mas contar o que é, é essencial. 

Para começar, devemos entender primeiro o que é um transtorno alimentar:

Eles são caracterizados por alterações e perturbações psicológicas referentes à alimentação que interferem na saúde mental e física do indivíduo. Essas alterações são intrínsecas à comida e/ou a falta dela. 

De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID), os Transtornos Alimentares são divididos da seguinte maneira: Anorexia Nervosa (inclui Anorexia Nervosa Atípica), Bulimia Nervosa (inclui Bulimia Nervosa Atípica), Hiperfagia associada a outros distúrbios psicológicos, vômitos associados a outros distúrbios psicológicos e outros Transtornos da Alimentação.

No século 14, algumas freiras e santas realizavam longos jejuns acreditando que assim expurgariam demônios e receberiam o milagre da salvação, sendo a prática bastante comum neste período. Embora controverso por conta de crenças religiosas, estudiosos acreditam que esta foi a causa de um dos primeiros casos de anorexia nervosa. 

Quanto às causas de um distúrbio alimentar, podemos citar muitos fatores:

Fatores genéticos: Embora ainda não se tenha uma confirmação de tal etiologia, pesquisas relatam que eles são mais frequentes em parentes de primeiro grau. Estudos sobre agregação familiar demonstram a existência de mecanismos de transmissão da doença em famílias. Pesquisas com gêmeos monozigóticos e dizigóticos também apontaram a genética como possível participante das causas dos distúrbios alimentares, apesar de rara.

Fatores biológicos: Acredita-se que modificações em neurotransmissores do cérebro como a serotonina, a reguladora do nosso sono, humor, ritmo cardíaco e apetite, podem estar por trás das causas de tais transtornos.

Fatores psicológicos: A presença de doenças como depressão e ansiedade, ou baixa autoestima e traumas, engatilham o aparecimento dos distúrbios, pois distorcem a imagem que o indivíduo tem de si mesmo. Transtornos alimentares e psicologia estão muito atrelados, já que os distúrbios não aparecem sozinhos. A ansiedade nos transtornos alimentares é muito frequente, já que, além de ser um gatilho para os distúrbios, também aparece durante eles. A ansiedade em comer, em emagrecer, em se adequar. Os transtornos alimentares e depressão são bem comuns também e podem ser outro fator determinante no início de um distúrbio.

Fatores sociais: Essa é uma das principais causas do problema. Os padrões de beleza são os maiores vilões dos transtornos alimentares, pois desencadeiam frustrações, baixa autoestima e necessidade de aceitação perante à sociedade. Os padrões de beleza mudam conforme o período histórico, mas as pressões e as consequências delas não mudam nunca: o indivíduo está sempre em dívida com a balança. 

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Júlia Gomes, de 21 anos, foi diagnosticada aos 14 com anorexia nervosa. “A magreza era, e ainda é, muito enaltecida nas redes sociais, e quanto mais magra eu ficava, mais elogios eu recebia. Eu acabava sempre me perguntando o porquê de eu não receber tantos elogios quando eu estava acima do peso”, conta. Júlia também relata que já refletiu sobre situações em que o padrão social de beleza é imposto por terceiros, em muitos casos, por familiares e pessoas próximas. “Um dos meus maiores gatilhos na época foi um comentário da minha mãe que, apesar de não ter sido por mal, me afetou muito. Ela disse que só compraria um celular novo pra mim se eu conseguisse emagrecer o suficiente. E assim eu o fiz. Só que muito mais do que deveria”.  

Ainda compartilhando sua luta contra a anorexia, Júlia comenta sobre o processo de descobrimento do distúrbio e quando ela mesma percebeu pelo o que estava passando. Ela conta: “Foi muito demorado para aceitar. Meu pai me inscreveu num processo de médicos pela USP porque ele percebia que meu emagrecimento não era saudável, apesar de ele não entender muito bem sobre o assunto. Mesmo bem magra, eu me olhava no espelho e sempre via o que emagrecer. Minha ficha só caiu quando em uma das idas ao hospital o médico me disse que eu tinha duas opções: Morar com meu pai ou ficar internada, porque emagrecer mais um pouco não era uma opção. Eu preferi ficar internada porque morar com meu pai seria sinônimo de comer. E eu tinha muito medo da comida.”

Quando questionada sobre o enfrentamento dessa fase tão difícil, ela alegou: “Ficar 1 mês na cadeira de rodas sendo dependente até pra usar o banheiro e tomar banho porque eu não podia perder caloria foi muito pesado pra mim. Quando eu cheguei no meu mínimo, pesando 36,5 kg, os médicos decidiram que seria melhor me levar pra UTI porque temiam a perda dos meus batimentos. Eu continuei desesperada, mas não com medo de morrer. E sim porque sabia que lá eu iria acabar engordando, era engordar que eu temia. Quando eu falei disso pra minha mãe, ela disse algo que me marcou muito. ‘Júlia, se você sair viva dessa, a gente conversa’. Tudo isso foi muito difícil pra mim.”

Para lidar e tratar o transtorno alimentar, a psicoterapia é um dos métodos mais recomendados, ajudando a entender os motivos psicológicos que transformaram a alimentação em um vilão. Monitoramento, cuidados médicos e aconselhamento com nutricionistas são fundamentais no processo de tratamento dos distúrbios. Medicamentos podem ser prescritos para combater a origem de alguns transtornos, como os antidepressivos para a depressão.

A arte imita a vida. Da mesma forma que Cassie Ainsworth de Skins superou e venceu a anorexia, Júlia Gomes, uma pessoa real do mundo real, também o fez. E ela ainda deixa uma mensagem àqueles que possam estar enfrentando esse problema: “Não se deixe levar pela mídia, siga pessoas e corpos reais e lembre-se que padrão não existe. NÃO TENHA MEDO DE COMER! A comida traz emoções e situações emotivas, como comer aquela comida gostosa na casa da vovó, não é sua inimiga. Você não deve se punir, até porque, cuidando de dentro você, automaticamente você cuida de fora.”

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O artigo acima foi editado por Helena Figueroa.

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Sophye Fiori

Casper Libero '24

Graduate student of journalism at Cásper Líbero college. Since always looking for stories to be told.
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