Quem imaginaria que Michael Joseph Jackson, nascido em 1958 em Gary, Indiana, uma cidade no interior dos Estados Unidos, se tornaria um dos maiores ídolos do mundo, digno de filme? Pois é. Com direção de Antoine Fuqua, o filme Michael, que homenageia o Rei do Pop, estreou nas telonas no final de abril e bateu recordes, se tornando a cinebiografia com maior estreia de todos os tempos.
A produção do filme, que conta parte da vida do artista, passou por um processo de desenvolvimento de cerca de dois anos e já arrecadou, globalmente, US$ 217 milhões (R$ 1 bilhão, na cotação atual), segundo a BBC. A escolha de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, para interpretar o papel principal carrega um peso simbólico: não é apenas atuação, é herança. Jaafar nunca havia atuado antes, o que torna tudo ainda mais único.
O filme delimita seu recorte temporal até 1987, encerrando-se na era de Bad, quando Michael finalmente se afirma como um artista plenamente solo, e antes das controvérsias que marcariam sua vida a partir dos anos 1990.
Os Jacksons
Tudo começou nos Jacksons, a raiz, o sangue e o laço de onde Michael se desprenderia posteriormente. Inserido ainda criança no grupo The Jackson 5, Michael cresceu sob a disciplina rígida de seu pai, Joseph Jackson. O filme não suaviza essa relação, pelo contrário, a apresenta como uma base emocional complexa, marcada por cobrança extrema e ausência de afeto vinda da figura paterna que proibia os próprios filhos de chamá-lo assim.
A infância é rapidamente substituída por ensaios, palcos e responsabilidades exaustivas. Aos 10 anos, Michael já não era apenas uma criança, era o centro de um projeto familiar ambicioso. O longa expõe que Joseph batia nos filhos e os obrigava a ensairarem até atingirem a perfeição.
O Michael criança ganha vida com o ator mirim, Juliano Krue Valdi, que interpreta de maneira muito séria a dualidade que o astro já vivia desde muito novo.
É retratado de forma muito sensível também a relação de Michael com seu guarda costas, Bill Bray. Bill trabalhou como chefe de segurança de 1971 até 1996, acompanhando o cantor desde criança. A presença física e emocional dele na vida do astro é vista como uma figura paterna. Antes de morrer, Michael dedicou uma carta falando justamente isso para Bray.
Victory Tour
A Victory Tour, realizada com os irmãos, surgiu como um momento de tensão. Logo após o artista lançar “Off The Wall” e “Thriller”, o longa retrata um cenário real. Grandiosa em números, mas emocionalmente deslocada, a turnê revela um Michael que já não se encaixa mais no formato coletivo, mas que se vê obrigado a ceder para não se indispor com a família.
O filme trata muito bem esse processo de transição entre o coletivo e o individual. Off the Wall (1979) surge como o primeiro suspiro de autonomia. Há ali um Michael que começa a experimentar sua própria identidade sonora, mais livre, mas ainda emocionalmente conectado à estrutura familiar.
Essa transformação se consolida com Thriller (1982), tratado como um ponto de virada. Reconhecido como o disco mais vendido de todos os tempos, com estimativas entre 65 e mais de 100 milhões de cópias, Thriller redefine a escala do sucesso. Ali, Michael deixa de ser promessa para se tornar fenômeno global.
O acidente durante as filmagens de um comercial da Pepsi, no entanto, aparece como um ponto de virada simbólico no longa e na vida de Michael. O episódio, que resultou em queimaduras no couro cabeludo, marca não só uma mudança física, mas também o início de uma transformação mais profunda na relação do artista com sua própria imagem.
O filme não retrata isso de forma tão clara, mas devido ao acidente, Michael iniciou o tratamento com analgésicos, o que posteriormente viria a ser uma das principais causas de sua morte: uma overdose medicamentosa.
Michael e os animais
Girafas, elefantes, lhamas, cobras, macacos e felinos. Ao longo de sua vida, Michael conviveu com uma grande diversidade de espécies de animais exóticos, silvestres e domésticos. Dentre todos, o que rouba a cena é o chipanzé Bubbles, que foi adotado ainda filhote. Bubbles não era apenas um animal, era companhia de Michael, algo que a cinebiografia deixa bem claro ao retratar diversas cenas dos dois juntos.
Em contraste com a pressão da fama, o filme apresenta momentos mais íntimos e traz, de certa forma, um alívio cômico ao mostrar sua relação com animais. Esses fragmentos revelam um lado sensível e quase infantil, como se Michael buscasse nesses vínculos uma forma de afeto mais pura e segura, já que por conta da fama desde sempre, não teve a oportunidade de brincar com crianças da sua idade.
Essa dimensão ajuda a compreender, ainda que de forma sutil, a construção de espaços idealizados em sua vida, como o Rancho Neverland, mesmo que o local não seja plenamente explorado na narrativa.
Bad Era
O encerramento na era Bad é uma escolha potente. Aqui, Michael surge em seu auge, com coreografias precisas, estética definida e uma identidade consolidada, após sofrer um racha definitivo com a família.
É o momento em que ele deixa de ser apenas um fenômeno para se tornar, definitivamente, um ícone. O filme termina nesse ponto alto, quase como uma fotografia congelada antes da queda, o que deixou muitos fãs indignados e outros com ainda mais sede por descobrir como Michael agiria frente a infinidade de momentos que presenciaria.
O que faltou?
Apesar da força narrativa, algumas ausências chamam atenção. A relação criativa com o produtor Quincy Jones, essencial para seus maiores sucessos, aparece de forma superficial no longa. Quincy foi um dos pilares que ajudaram a construir o patrimônio que Michael se tornou, e sua breve aparição deixou a desejar.
Também ficam de fora aspectos importantes da vida pessoal, como seus vínculos afetivos, incluindo a proximidade com Diana Ross e conquistas históricas como o Grammy Awards, que, segundo Jafaar Jackson, foi uma das cenas que mais gostou de gravar. O Grammy aparece como um flash rápido no ascensão do cantor, algo que poderia ser mais desenvolvido.
Ao optar por encerrar antes dos anos 1990, o filme evita as controvérsias, mas também limita a complexidade do retrato.
No fim, Michael captura com sensibilidade a essência do artista desde a infância, contando um lado que era visto pela sociedade como banal, enganoso e até mentiroso. Com uma promessa de que a história irá continuar, Michael certamente se destaca nas cinebiografias e na forma de contar histórias. Ele sempre foi maior do que qualquer narrativa linear, logo, transformar sua vida em cinema não foi apenas um desafio técnico, mas uma escolha editorial realizada com sucesso.
O resultado é uma obra que emociona e impressiona pela semelhança e excelência que o sobrinho interpreta o tio, levando os fãs da época e da nova geração a presenciarem um show exclusivo e repaginado em pleno 2026. Para quem achou que faltou, que não foi possível retratar tudo, vale tentar entender que a produção é um reflexo do próprio Michael Jackson: grandioso, enigmático e impossível de caber por inteiro em um único relato.
——————————————
O artigo acima foi editado por Júlia Salvi.
Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!