O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é tradicionalmente marcado por homenagens às conquistas e às lutas femininas. No entanto, neste ano, o mês tem sido atravessado por uma realidade contraditória. Em meio às celebrações, os portais de notícias continuam a registrar inúmeros casos de feminicídio no Brasil.
Abrir os jornais têm se tornado um exercício doloroso. A cada dia, surge o choque, infelizmente recorrente, de mais um caso de violência contra a mulher. Em muitos casos, o agressor é alguém próximo, como o próprio companheiro. O que mais impressiona nesses crimes é a brutalidade: mulheres são assassinadas,desfiguradas e marcadas por violências que ultrapassam o físico.
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que os processos de feminicídio praticamente triplicaram nos últimos cinco anos: passaram de 4.210, em 2020, para 12.012 em 2025. As medidas protetivas também seguem em alta, com quase 630 mil concessões no último ano, mais que o dobro de 2020. Só em janeiro de 2026, foram mais de 53 mil.
VIOLÊNCIAS MARCADAS POR BRUTALIDADE
Recentemente, alguns crimes chocaram o país. Um deles foi o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro. Quatro adultos e um menor de idade foram indiciados. A ação foi movida por agressões, socos e graves ferimentos nas partes íntimas da menina, o que revela a crueldade por parte dos criminosos.
Em entrevista com a professora de sociologia Eloísa Benvenutti, da Faculdade Cásper Líbero, ela explica que a maior parte da violência contra a mulher não vêm de um crime “comum” a elas, como um tiro na cabeça ou um envenenamento. Pelo contrário, as ocorrências acontecem de maneira violenta e assustadora: “Quase sempre o que a gente vê é conferência com a violência, isso que está no campo da mulher ou no do feminino, se revela em 60 socos, 70 facadas ou 80 marteladas. “, diz a professora.
TRAUMAS EMOCIONAIS ÀS VÍTIMAS
A Orgaização das Nações Unidas define a violência contra as mulheres como “qualquer ato de violência de gênero que resulte ou possa resultar em danos ou sofrimentos físicos, sexuais ou mentais para as mulheres, inclusive ameaças de tais atos, coação ou privação arbitrária de liberdade, seja em vida pública ou privada”.
Segundo Pesquisa Nacional da Violência Contra a Mulher, até 88% das mulheres já sofreram algum tipo de violência psicológica em relações ou no ambiente social. Desses casos, cerca de 71% das violências são testemunhadas por alguém, sejam crianças ou adultos. Além de afetar a saúde das mulheres, também provoca impactos na saúde física e psicológica das crianças e dos adolescentes que vivem em ambientes violentos.
Estudos indicam que o abuso contínuo compromete a autoestima, a autonomia e a saúde mental das vítimas, podendo gerar depressão, ansiedade e isolamento social. A própria Juliana relatou efeitos pós-traumáticos após o episódio: “Eu tenho alguns comportamentos que não tinha antes, de estar em estado de vigília.”
A CULTURA DO RED PILL E A NATURALIZAÇÃO DA MISOGINIA
A cultura Red Pill representa o crescimento de comunidades em espaços online que inferiorizam mulheres, muitas vezes disfarçados de “opiniões”, “experiências pessoais” ou “análises racionais”.
De acordo com Eloísa, o valor da mulher nestas comunidades é completamente perdido, o que resulta em muitos casos em uma violência física ou verbal. “Elas perdem o seu status de sujeito ou de humano no mundo. São pessoas que são retiradas do campo da dignidade humana, são consideradas objetos, são consideradas coisa. É por isso, talvez, que a violência se revele nessa outra violência.”, explica a socióloga.
O movimento Red Pill está influenciando as atitudes e comportamentos dos atuais agressores e isto se confirma pelo recente caso do estupro coletivo da adolescente de 17 anos no Rio. Vitor Hugo Oliveira Simonin, 18 anos, um dos envolvidos no crime, entregou-se à Polícia de rosto erguido e vestido com uma camisa onde se lia a frase “regret nothing” (não se arrependa de nada), que se associa ao influenciador Andrew Tate, conhecido por disseminar ideias misóginas.
POLÍTICAS PÚBLICAS ESTÃO REALMENTE PROTEGENDO AS MULHERES?
Em meio ao aumento de ocorrências de feminicídio no país, surge a questão: políticas públicas estão, de fato, sendo executadas de maneira eficaz no combate à misoginia e às novas formas de violência de gênero?
No Brasil, leis como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio são fundamentais na proteção dos direitos das mulheres. No entanto, sua eficácia depende da aplicação na prática. Falta investimento, estrutura e atendimento adequado em muitos casos, o que compromete a proteção das vítimas.
Além disso, quando se trata de movimentos mais recentes, como a disseminação de discursos misóginos em ambientes digitais, observa-se uma precarização nas políticas públicas. Ainda são limitadas as ações voltadas ao ambiente digital, à regulação de conteúdos online e ao enfrentamento de comunidades que propagam ideologias baseadas no ódio e na desigualdade de gênero.
Para Eloísa, há também contradições estruturais: “É muito contraditório, né? o mesmo Estado tem esse tipo de tipo de lei, como criminalização do aborto, que aqui consolida, sedimenta a mulher enquanto objeto.”
A violência contra a mulher é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das mais persistentes e negligenciadas violações de direitos humanos no mundo. O relatório indica que o índice de agressões não cai há 20 anos, e que uma em cada três mulheres já sofreu violência sexual por parte de um parceiro íntimo ao longo da vida.
A união de todos para a urgência e exposição do assunto é essencial. É importante a conscientização do crime e a rigidez de leis que buscam a penalidade aos culpados, para que a segurança das mulheres seja prevalecida e seu respeito nunca tirado de si mesma.
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O artigo acima foi editado por Maria Eduarda Goulart.
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