Quando o assunto é futebol, é impossível não falar da Marta. A maior referência da modalidade feminina completa 40 anos nesta quinta-feira (19) e sua trajetória é um convite para conhecer a fundo a história de uma rainha que transformou o esporte.
Marta Vieira da Silva nasceu em 19 de fevereiro de 1986, na cidade de Dois Riachos, em Alagoas. Criada pela mãe, Tereza, em uma família de quatro irmãos e sem a presença do pai, enfrentou desde cedo a resistência de uma comunidade que via o futebol como uma prática exclusivamente masculina. Em um Brasil que havia proibido oficialmente o futebol feminino entre 1941 e 1979, Marta cresceu enfrentando preconceito e resistência. Jogava descalça nas ruas do sertão e era, muitas vezes, a única menina entre meninos. O que era visto como inadequado por muitos, se tornou o combustível para construir a trajetória da “Rainha”.
Início da carreira
Sua história competitiva começou no CSA, em 1999. Naquele período, ela atuava em um time amador de Dois Riachos, o qual compartilhava o nome com o famoso clube de Maceió, sendo apelidado localmente de “Rasga Bola”. Com a orientação de seu primeiro treinador, José Júlio de Freitas, o Tota, Marta era frequentemente a única menina em equipes masculinas. Tota atuava como seu mentor e “escudo”, protegendo a jogadora mirim de insultos e garantindo sua participação em torneios regionais, mesmo quando técnicos adversários ameaçavam retirar seus times de campo por não aceitarem enfrentar uma mulher.
Foi Tota quem agendou os testes decisivos no Rio de Janeiro, incentivando Marta a deixar o sertão aos 14 anos rumo ao Vasco da Gama. A viagem durou três dias, de ônibus, saindo de Santana do Ipanema, interior de Alagoas. Ao chegar, foi inicialmente hospedada na casa de Marcão, olheiro que a levou ao clube, cuja esposa e filha a acolheram antes de ela se mudar para o alojamento das atletas.
No Vasco, Marta encontrou uma boa estrutura, impulsionada pelo apoio do então dirigente Eurico Miranda, que garantia recursos como atendimento ginecológico especializado e alimentação adequada para as atletas. Com a mentoria de Helena Pacheco, empresária e ex-técnica de futebol, e jogando ao lado de craques, Marta foi se aprimorando no esporte e conquistou o Campeonato Brasileiro Sub-19 em 2001.
Em sua passagem pelo Gigante da Colina, disputou 16 partidas e marcou 5 gols, números que trouxeram suas primeiras convocações para a Seleção Brasileira sub-19 e profissional. Contudo, em 2002, o clube enfrentou uma crise financeira e extinguiu o departamento feminino, quando foi prontamente encaminhada por Helena para o Santa Cruz, em Minas Gerais.
A ida para fora do brasil e as primeiras premiações
Em 2004, Marta iniciou sua ascensão no futebol europeu ao assinar com o Umeå IK, da Suécia, mudança que foi essencial em sua profissionalização. Lá, conquistou a Copa da UEFA Feminina (atual Champions League) logo na temporada de estreia e foi tetracampeã nacional, marcando 111 gols em 103 jogos. Na Suécia, Marta recebeu seus primeiros quatro prêmios consecutivos de melhor jogadora do mundo pela FIFA, um feito inédito na história do futebol.
No seu retorno ao Brasil, Marta teve duas passagens memoráveis pelo Santos, de 2009 até 2011, integrando o elenco conhecido como “Sereias da Vila”. Sua presença foi fundamental para a profissionalização da modalidade no Brasil, coroada com os títulos da primeira Copa Libertadores Feminina e da Copa do Brasil. Essas breves passagens tiveram um impacto positivo para manter o vínculo da craque com o público brasileiro e elevar o nível técnico das competições nacionais.
Nos Estados Unidos, mostrou sua capacidade de dominar um campeonato do primeiro ao último minuto. Na extinta WPS (principal liga do futebol feminino), vestiu as camisas do Los Angeles Sol e alcançou 10 gols em 20 jogos, além da Chuteira de Ouro e o prêmio de melhor jogadora. Em 2010, no FC Gold Pride, liderou a equipe rumo ao título, com 20 gols em 26 partidas, e foi eleita a melhor em campo na final. No ano seguinte, jogando pelo Western New York Flash, faturou mais um campeonato e colocou outra Chuteira de Ouro na prateleira.
Com o encerramento da WPS, voltou à Suécia para defender o Tyresö FF, conquistando o título nacional em 2012 e o vice da Champions League em 2014, com 38 gols em 46 partidas. Em seguida, brilhou no FC Rosengård, onde foi bicampeã sueca e anotou 58 gols em 80 jogos.
Brilhando mundo afora, voltou aos Estados Unidos, onde, desde 2017, está no Orlando Pride e virou pilar da equipe: é artilheira histórica do clube com 45 gols e recordista de partidas (148 jogos). Capitã, marcou 11 gols na campanha de 2024 e liderou o Orlando a melhor time da temporada e campeãs do NWSL (liga nacional de futebol feminino), além de figurar entre as finalistas aos prêmios de melhor jogadora e meio-campista do ano. Em 9 de janeiro de 2025 o clube confirmou a renovação por mais dois anos, garantindo sua permanência até o fim de 2026 e a possibilidade de transformar a década em Orlando em mais um marco simbólico de sua carreira.
Muito além das seis (!) bolas de ouro
Entre suas principais premiações, Marta construiu um currículo praticamente inalcançável no futebol. Eleita Melhor do Mundo pela FIFA seis vezes (2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018), estabeleceu um recorde histórico que, por muitos anos, superou marcas de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Na Copa do Mundo de 2007, recebeu simultaneamente a Bola de Ouro e a Chuteira de Ouro, consolidando uma das maiores atuações individuais da história dos Mundiais.
Em 2024, teve seu legado eternizado com a criação do Prêmio FIFA Marta, destinado ao gol mais bonito do ano no futebol feminino, sendo ela mesma a primeira vencedora da honraria. Reconhecida também por sua longevidade e impacto global, foi eleita pela IFFHS (Federação Internacional de História do Futebol e Estatística, na tradução da sigla em inglês) a Melhor Jogadora do Mundo da Década (2011–2020) e integrou a seleção mundial do período.
Com a camisa da seleção Brasileira, a Rainha construiu um legado histórico desde sua estreia em 2002. Maior artilheira da história em Copas do Mundo (entre homens e mulheres), ostenta ainda três medalhas de prata olímpicas (Atenas 2004, Pequim 2008 e Paris 2024) e quatro títulos de Copa América. Em 2025, aos 39 anos, ‘voltou atrás’ na ideia da aposentadoria da seleção após os Jogos Olímpicos de Paris e reafirmou sua majestade ao ser eleita a melhor jogadora da Copa América após marcar dois gols na final contra a Colômbia, consolidando sua liderança para a Copa do Mundo de 2027, que será realizada no Brasil.
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O artigo acima foi editado por Olivia Nogueira .
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