A cantora, compositora e produtora Marina Sena tem se mostrado cada vez mais uma presença em ascensão na música nacional. Ela faz jus ao seu sucesso coberto de autenticidade e originalidade – características essas que nenhum de seus fãs deixa passar em seu mais novo lançamento.
A artista de 28 anos iniciou a carreira como vocalista no grupo musical mineiro A Outra Banda da Lua, e agora, com as amizades intactas desde essa época, elas levam crédito por uma parte especial de sua nova composição.
A autora do fenômeno viral “Por Supuesto”, música que a levou ao topo, lançou, na última segunda-feira (31), seu terceiro álbum de estúdio, Coisas Naturais. Em uma tentativa de resgatar suas origens e se conectar com sua naturalidade latina e brasileira, a cantora mergulha fundo em um projeto que promete muito em sua carreira. O disco traz a melhor versão de Marina Sena. Como a própria artista diz, ela reencontra a versão favorita de si mesma; a Marina do interior de Minas Gerais.
“A Marina que eu era n’A Outra Banda da Lua é uma das Marinas que mais amo. Porque é corajosa, destemida e muito sangue no olho. Uma força, uma coisa da terra, do norte de Minas que adoro e amo.” (Marina Sena em entrevista à Rolling Stone Brasil)
CONSTRUÇÃO DO ÁLBUM
A construção do álbum como um todo incorpora com muito gosto e alma o título Coisas Naturais. Com uma estética visual e acústica, trazendo a natureza para perto, os visuais são psicodélicos e as faixas tocam ritmos remetentes à dança do ventre, devido à vontade de dançar com naturalidade, movendo-se no ritmo das músicas. Essencialmente, Sena teve o insight do novo projeto em um “retiro musical” em meio à natureza.
Por 10 dias, a nossa “princesa da ilha” alugou uma casa no interior de São Paulo e juntou as pessoas que tiram o melhor dela (incluindo os amigos André Olivia e Matheus Bragança, d’A Outra Banda da Lua, que a ajudaram em diversas das composições). Montando uma banda completa no meio da sala, com os melhores recursos, para gravar a qualquer momento. Ela dedicou-se totalmente à música e à sua arte naquele repouso, e conta que foi como a realização de um sonho. “Eu tive bastante tempo para criar, bastante tempo para deixar a música acontecer. Sem muita pressão.”, diz à Rolling Stone.
Associar a arte à natureza é algo muito comum, porque a arte está em um lugar considerado criativo, instintivo e fluido, parte da natureza. Portanto, em uma sociedade em que a arte, apesar de expressiva, torna-se comercial e industrializada, ser autêntica e original são elementos importantes. E buscar suas raízes artísticas e fluidas parece ser o gás que move Marina Sena nesta nova produção.
“Então a música aconteceu de uma forma muito fluida… […] E isso é muito importante para mim: que a música flua e eu não tenha muitos limites para fazê-la. Que a música esteja realmente nesse ambiente mais fluido.” (Marina Sena em entrevista à Revista Rolling Stone Brasil)
É muito importante para Marina estar conectada e ligada ao campo artístico e sentir a sua criatividade. Ela acredita que de vez em quando precisamos de umas “revoluções na vida”, para acender essa chama dentro de nós. “[…] para realmente fazer uma coisa que você acredita. Com técnica, você consegue fazer o básico, mas, para realmente criar algo que alimente sua alma, é preciso estar com a chama bem acesa.”, a cantora enfatiza à Rolling Stone.
Além disso, podemos sentir a vibe paradisíaca trazida pelas novas canções, a sensação de estar imersa na natureza, em meio a ilhas, cercada por água, riachos, cachoeiras e animais. E essa energia vem intencionalmente por parte da artista, igualmente guiada pela vontade de misturar toda a brasilidade e influência da música latina, afinal de contas, somos latinos, e a natureza está em nosso sangue.
“Essa sensação de América Latina pulsante foi uma intenção minha. Inclusive de cada vez mais me fazer entender o quanto sou latina e o quanto o Brasil é um país latino. […] Sabe quando uma coisa entra no seu coração e não só vira uma frase que você repete, mas é uma coisa mesmo que você sente?”, revela a artista em entrevista à Rolling Stone. Especialmente por ser do interior, é uma vivência e linguagem fundamentais aqui, ela sente a América Latina como o interior. “[…] A gente vive muito mais em contato com a natureza do que pessoas que não vivem em contato com a natureza.”
Assim, em um mix que nos faz sentir a naturalidade brasileira pulsando em nossas veias mais forte do que nunca, Marina reforça a conexão do Brasil e da América Latina em um só lugar. Ela mistura ritmos e estilos diferentes da música nacional e brinca com os estilos latinos para compor as 13 faixas que integram o seu novo álbum.
MÚSICAS
coisas naturais
A faixa inaugural do álbum homônimo carrega todos os motivos para receber essa designação. “Coisas Naturais” inicia com um toque de samba e uma leveza de movimento, entrega um ritmo fresco e sincronizado aos sons da natureza ao fundo. Os vocais ecoados por Marina reforçam essa imersão.
A música fala sobre amor, e, para além disso, é possível enxergar a “paisagem” por trás da história, como é a intenção da compositora. Ela acredita que para uma música realmente ter peso, é preciso acrescentar uma “ambiência pra esse amor.”, e podemos dizer que ela domina essa técnica com louvor neste primeiro single.
“O jeito e o frescor das coisas naturais.” É uma definição utilizada por Marina em sua letra, a qual, sinto, podemos usar para descrever a sensação melódica e imersiva de ouvir a composição.
numa ilha
O segundo single do álbum, lançado no ano passado como um gostinho do que estaria por vir, segue o fluxo do primeiro e nos transporta para o ambiente descrito pela cantora. Assim como a canção anterior, em “Numa Ilha”, Marina se preocupa em trazer a ambiência que cerca a narrativa.
Se você foi uma adolescente apaixonada por sereias nos anos 2000, arriscoem dizer que a melodia inicial e mística da música te teletransporta diretamente para os mistérios e ar noturno em volta da Ilha Mako, o cenário principal das séries H2O e Mako Mermaids, algo que, ao meu ver, enriquece a experiência de imersão; a cantora quer te transportar para outro lugar enquanto escuta a música, e consegue facilmente.
Além disso, o clipe oficial também lembra a estética psicodélica e exótica presente na identidade visual do disco como um todo. Sentimos a magia citada por ela em mais um de seus versos. “Descalça numa ilha, é tão mágico.”
desmitificar
Sem deixar a desejar, a terceira faixa traz logo de cara um toque diferencial ao álbum. De acordo com um dos seus grandes fãs, talvez seja o som mais experimental da cantora até agora. Ela explora diferentes vocais e timbres de voz, harmonizando com uma letra mais firme, a melodia mais agitada e eletrônica.
Sem abandonar o traço regional do samba, sentimos o estilo muito presente ao final, até lembrando um pouco o filme Rio. Silenciando o instrumental, Marina fala cantando, deixando apenas um acústico com percussão ao fundo. O ritmo frenético acompanha a letra, não podemos dizer que não é o som perfeito de um Carnaval Brasileiro. “Vou fazer um carnaval, na sua vida tão sem sal.” Como a própria cantora diz, sem deixar dúvidas na intenção musical.
“Se for pra transcender, desmitificar, se entorpecer, se intensificar, eu consigo // Quer entrar no mar? Eu te guio.” Entrando para a lista dos versos mais marcantes, mais uma vez Marina Sena consegue definir em poucas palavras toda a vibe alucinante e de “deusa da natureza” que transmite, sem hesitar, em sua obra audiovisual.
anjo
A música “duas faces” do disco de Sena. A quarta faixa começa com um tom leve, voz abafada e violão, e a melodia calma e lenta, remetendo a um samba mais calmo, misturado ao MPB. Porém, se engana quem pensa que a música segue esse clima até o final.
Perto do refrão, sentimos o misto de estilos por parte da cantora. Resgatando um som mais puxado para o Samba-rock e Bossa Nova, é até possível sentir um estilo parecido com o de Rita Lee. Aqui, a artista faz questão de soltar a voz (literalmente), e ouvimos o ritmo distorcido ao final ficar mais agitado, rápido, transgredindo para um silêncio profundo ao finalizar a música.
Tokitô
No quinto single, trazendo os dois primeiros feat de Coisas Naturais, Marina Sena se une à cantora ítalo-brasileira, Gaia e a rapper portuguesa, Nenny, em uma parceria que dá um show de ritmos e culturas. Agitada e mais animada, em “TOKITÔ”, enxergamos a confiança e segurança das intérpretes, sentimos a vontade da liberdade e diversão, sem preocupações.
O feat musical ainda nos entrega um estilo marcante de pop e um leve gosto de reggaeton. As vozes se combinam em perfeita harmonia, o vocal marcante de Marina contrasta com a sonoridade suave de Gaia e a voz pesada de Nenny. As três juntas nos fazem mergulhar em uma balada noturna e na leveza de sair de madrugada e viver intensamente.
Além disso, sentimos que Marina, de fato, “tá que tá”, para entregar um festival de melodias e composições carregadas de diversidade e intensidade. Como a própria cantora diz “Eu vou de madrugada, você vai ver a hora […] eu vou que tô que tô.”
sem lei
Seguindo a sequência, depois de um ritmo mais dançante e eletrizante, a faixa 6 volta a suavizar o álbum. Aqui, embora a voz característica de Marina seja perceptível, sentimos o seu sotaque carregado estar mais suave, e a música parece entregar um tom a mais de maturidade.
Remetendo ainda a uma mistura de Bossa Nova com MPB novamente, talvez seja neste single que podemos identificar a percepção da artista sobre ser mais próximo de um revival do seu primeiro disco, porém, mais adulto. “Acho que se assemelha um pouco ao “De Primeira”, mas nem tanto, porque é bem mais maduro. […] Realmente, o peso de ser adulta bateu, mas com muita leveza também […] É bem diferente de “Vício Inerente” (segundo álbum), é como se eu novamente fizesse uma reviravolta.” ela reflete à revista Rolling Stone.
“É que o meu jeito é totalmente natural, baby” é autoexplicativa a autenticidade que Marina coloca nas entrelinhas de suas composições.
sensei
A sétima faixa, iniciada com muita calma e leveza, nos leva de volta ao comecinho do disco. Uma essência relaxante e “secreta”, é uma canção gostosa de ouvir, o ritmo é bem marcado por uma sensação Lo-fi, e a melodia reforça essa sensibilidade transportadora.
A música não é tão longa, mas a vontade de ouvir em repeat é muito sincera. É sensível e melódica, carrega consigo uma vibe melancólica, com os vocais sussurrados e os tremores sonoros equalizando ao fundo. É daquelas músicas que te faz querer ouvir durante um banho de madrugada.
“O mundo te sente e você transcende, e compreende a essência de ser, de ser você, de se querer, de se envolver, de se encontrar e se sentir daqui. // É o mar, é o vento, você não reconhece, mas me sente fervendo, é amor, é desejo, é só o desejo de ser mais, viver por inteiro.” Os versos carregam paixão e naturalidade, parece um dos momentos mais autênticos da coletânea, inundando-a, sem dúvidas, com mais um toque diferencial.
lua cheia
Oitava faixa, chegando ao som de sinos leves, cintilantes como a Lua. A música se desenvolve e adota um tom mais elétrico, mas ainda com “um brilho do luar” ressoando ao fundo. Ao decorrer, ela incorpora um tom mais agitado, semelhante ao brega-funk, combinando com a sequência de rimas. Sincroniza com a letra mais sensual, mas sem ser tão explícita, deixando, ainda assim, algo agradável de se ouvir.
“E essa Lua Cheia traz um sentimento // Eu me rendo, eu adoro, vou deixar, vou me entregar pro momento, o seu beijo, esse seu negócio, de fazer perder a noção do tempo.” Os versos carregam a essência da música por si só, e, nos momentos nos quais se escuta o ressoar e cintilar dos sinos, mergulhamos na magia do luar.
combo da sorte
A nona faixa puxa o reggae com mais força para o álbum. A batida ainda flerta com brega e eletrônica, equalizando um pop e MPB mais distante. A melodia é mais sensual, combinando a letra com um certo toque de sinceridade.
“Só quem se deu e sofreu, sabe a dor. Eu não quis nunca mais nem saber do amor. // Tá no ar, não é mito, não tem nenhum segredo, é o amor que me faz enxergar meu melhor momento. ” Resumindo o single em versos, estes entregam a alma de “Combo da Sorte”.
mágico
Mais perto do final, a 10ª faixa do disco entrega muito mais um pop, rock nacional, do que qualquer outro estilo. Novamente, ouso dizer, há uma pegada parecida com Rita Lee; é mais agitado, revive também um pouquinho de Bossa Nova.
É um som agradável, e, ousando um pouco mais, é possível sentir uma lembrança da música “Esse tal de Roque Enrow”, de Rita Lee, em uma versão acústica. Talvez, a única observação aqui seja: diferente das outras, há uma desconexão maior da letra com o título, a ligação entre eles é bem mais subjetiva.
“Você tá precisando mesmo de um amigo, posso ser seu guia, te buscar de madrugada, pra dar um giro, ver a cidade comigo” os versos entregam a vibe da música, valorizando os pequenos momentos especiais do dia a dia. É mágico dar atenção aos detalhes.
DOÇURA
A 11ª faixa do disco traz consigo mais um feat de Coisas Naturais. Conversando claramente com o Reggaeton, – estilo musical tradicional da América Latina e Espanha – Marina Sena colabora com o grupo latino Çantamarta, e entrega um dos ritmos mais satisfatórios e dançantes do disco. Sem abandonar o toque sutil do samba, a melodia apresenta uma fluidez muito deliciosa de sentir, mas não deixa de ser agitada, e te incentiva a se movimentar, seja dia ou noite.
“Essa doçura é minha cura, esse mel arranca sua amargura.” Aqui, devo dizer que este verso representa totalmente a intenção de “Doçura”. A vontade de dançar e o sorriso são quase instantâneos ao ouvir esse ritmo tão distintivo.
carnaval
A penúltima música do álbum e, por sorte, a mais curta, é totalmente focada no funk – uma música para quem curte o estilo mais forte e atualmente considerado muito carnavalesco no Brasil. Temos o ritmo do samba enraizando o “é carnaval no Brasil”, mas, nitidamente, a batida é acentuada para o funk, com a letra também mais explícita.
“Hoje cê pode me esquecer, é Carnaval no Brasil, sou eu que mando na vibe.” Os versos poupam a explicação de carregar a essência do que é o Carnaval para quem nasce e é criado na cultura brasileira.
ouro de tolo
E, por fim – mas não menos importante -, a última e mais longa música do álbum. Marina traz aqui um estilo experiencial, carregado por uma história muito mais pessoal. Encerrando o disco, voltamos ao início, com o samba e o MPB, somados aos sons naturais, que voltam a marcar presença. Os vocais ecoados acompanham o ritmo mais calmo, a melodia é gostosa de sentir e nos captura para uma viagem mais fluida.
A letra tem certa profundidade e é possível sentir a segurança da cantora consigo, ao mesmo tempo que aparenta ser um desabafo claro em suas estrofes. A evidência disso se apresenta no final, ao recitar uma poesia, com a voz firme e confiante. A melodia ao fundo te faz sentir uma sinceridade e naturalidade muito forte. Como um Microfone Aberto, os sentimentos são recitados sem medo e dúvida, e é possível reconhecer a essência em cada palavra.
“Meu amor é meu, o meu jeito é meu.” O verso da música reforça a sensação de pertencimento de si mesma para Marina Sena, aparentando estar em paz consigo. Somado a isso, o trecho da poesia ressalta ainda mais a profundidade e autenticidade da cantora, não só nesta, mas em todas as canções inéditas de Coisas Naturais. “E se o mundo é meu, eu não divido com quem não é subjetivo, se não foi convivendo comigo, não tem nada mais que te salva.”
REVIEW GERAL
De modo geral, Coisas Naturais é um álbum que te faz querer fechar os olhos e deixar ser levada pelos ritmos e melodias. Faz você querer sentir, em cada música, a sensação de se transportar para outro lugar, para a natureza.
Marina Sena não abandona as letras e o estilo sensual que tanto gosta, mas brinca com eles de maneira mais subjetiva, entrelinhas, sendo gostoso de se ouvir e decifrar. O tom característico de sua voz também não foge, mas harmoniza-se perfeitamente bem em cada novo vocal detalhado e experimental, explorado pela cantora neste novo capítulo musical.
A versatilidade da cantora fica ainda mais evidente aqui, e ler entrevistas sobre Coisas Naturais e ouvir Marina falar com tanta paixão deste novo projeto também te faz ficar mais intrigado e interessado para ouvi-lo. Para quem não conhece a cantora, arrisco a recomendar que escutem sem medo; em algum lugar, em alguma música, ela vai fazer você se identificar, e esse novo álbum é a prova disso.
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O artigo acima foi editado por Rafaela Lima.
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