Para além da rotina de trabalho, mais do que direitos resguardados aos cidadãos brasileiros, o lazer e descanso são elementos necessários para a qualidade de vida das pessoas. No entanto, devido ao encarecimento das atividades, o acesso a essas experiências, especialmente em eventos culturais e de entretenimento, parece ter se tornado cada vez mais restrito.
Se, em outros momentos, os valores praticados em atividades de lazer eram percebidos como acessíveis a diferentes camadas da população, atualmente determinadas experiências passaram a representar um investimento significativo em comparação ao salário mínimo e, para muitos, um verdadeiro luxo. Exemplos deste fenômeno são os ingressos para jogos de futebol e espetáculos culturais.
O QUE SÃO GENTRIFICAÇÃO E GOURMETIZAÇÃO?
O termo gentrificação foi criado pela socióloga britânica Ruth Glass, em 1964, pela Enciclopédia de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Glass usa o conceito para explicar as transformações em bairros operários de Londres. Posteriormente, passou a ser utilizado em diferentes áreas, como sociologia, antropologia, geografia, arquitetura e estudos urbanos.
Em outras palavras, a gentrificação acontece quando um espaço se transforma e passa a ser cada vez mais acessível apenas para pessoas com maior poder de compra. Enquanto isso, aqueles que já faziam parte daquele lugar encontram dificuldades para continuar ocupando ou frequentando o mesmo espaço. Logo, a gentrificação não é simplesmente sinônimo de aumento de preços, é um conjunto de fatores.
Já a gourmetização ajuda a ampliar essa conversa. Embora não sejam sinônimos, quando se trata do lazer, os termos se encontram.
A gourmetização transforma produtos, serviços e experiências cotidianas em versões mais sofisticadas, exclusivas e, consequentemente, mais caras.
O “lazer gourmetizado” não se trata apenas de ingressos mais caros. Ele faz com que determinadas experiências culturais e de entretenimento passem a ter barreiras de acesso. O que antes era associado ao descanso e à qualidade de vida está se tornando cada vez mais um privilégio de quem pode pagar por ele.
GOURMETIZAÇÃO OU INFLAÇÃO?
O ingresso ficou mais caro apenas porque a inflação aumentou ou o lazer passou a representar uma parcela maior da renda do público?
O acesso a espetáculos de grande porte pode representar um custo significativo para o público brasileiro. Um exemplo é “Meu Filho É Um Musical”, produção brasileira que leva aos palcos a trajetória de Paulo Gustavo e que tem sido apresentada em todo o país.
A média de valor dos ingressos para o espetáculo tem sido de R$ 180 na meia-entrada estudantil e R$ 360 a inteira. O valor representa cerca de 11,1% do salário mínimo de 2026, atualmente fixado em R$ 1.621. Para uma família de três pessoas, considerando dois ingressos inteiros e uma meia-entrada, a conta chegaria a R$ 900, o equivalente a 55,5% de um salário mínimo. Dessa forma, o que, inicialmente, parecia um programa simples, tornou-se inviável para mais de 30% da população que, segundo a PNAD Contínua, recebe até um salário mínimo.
Apesar de representar quase um terço do salário mínimo do país, o valor se torna ainda mais gritante quando comparado com os preços cobrados há quase dez anos no espetáculo “Minha Mãe É Uma Peça“, obra de maior sucesso de Paulo Gustavo. Em 2018, a produção já tinha levado os brasileiros ao cinema duas vezes e se preparava para mais uma, já que o terceiro filme da franquia estreou no ano seguinte. Apesar do sucesso, seja nas telonas, seja nos palcos, o ingresso mais caro para assistir à peça custava R$ 160 a inteira, valor que, mesmo corrigido pela inflação, não alcança a tarifa atual.
Mas a alta dos preços para além da inflação não é uma exclusividade dos eventos culturais. Acompanhar o time de coração de perto também ficou mais caro nos últimos anos. Em 2016, o preço médio de um ingresso para assistir aos jogos de um clube da Série A do Brasileirão era de R$ 40. Atualmente, o valor mais que dobrou, chegou aos R$ 100, apresentando um aumento percentual de 150%. O ingresso hoje custa 2,5 vezes o valor de 2016.
Observa-se um contraste: durante este período, o salário mínimo não acompanhou o ritmo de aumento do valor dos ingressos, já que, no período, o piso salarial cresceu 84,2%, subindo de R$ 880 para R$1621. Na prática, um trabalhador que recebia o salário mínimo passou de uma capacidade de compra de 22 ingressos para acompanhar o seu time em um mês para somente 16.
IMPACTO DO VALOR DOS INGRESSOS
Os números apresentam uma mudança que, antes de aparecer nas estatísticas, já pode ser percebida no cotidiano. Quando o valor de uma partida de futebol, de um musical ou de passeios culturais cresce em ritmo superior ao rendimento de parte da população, o lazer deixa de ser apenas uma escolha sobre como ocupar o tempo livre e passa a envolver uma decisão financeira.
Se o lazer também é parte da qualidade de vida dos brasileiros, quanto da renda uma família precisa comprometer para ter acesso a ele? E, à medida que cultura e lazer se tornam mais caros, quem fica do lado de fora?
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O artigo acima foi editado por Marcele Dias.
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