A Língua é a Vida

Saudade, cafuné, capricho. Que outras palavras você conhece em português e não consegue pensar numa tradução direta para o inglês ou qualquer outro idioma porque só existem no nosso dicionário? Pode até parecer abstrato quando pensamos nisso pela primeira vez, mas a língua que falamos influencia diretamente em quem somos e como nos relacionamos com nós mesmos, com o mundo e com aqueles ao nosso redor. Afinal, você que cresceu com a língua portuguesa como base, consegue se imaginar vivendo sem sentir saudades, dormindo num dia difícil sem pedir cafuné para quem ama ou fazendo o seu bolo favorito sem muito capricho?

Entender quem somos como indivíduos é essencial para o nosso crescimento coletivo como sociedade e a língua é uma das primeiras coisas que nos une, logo no começo da vida, nos ajudando a compreender nossa identidade. Mei Hua Soares tem origens orientais e é professora de Língua Portuguesa em algumas instituições, entre elas a Faculdade Cásper Líbero. Foi justamente buscando se aproximar mais de suas origens e identidade que surgiu nela o interesse em lecionar português. Quando entrou na FFLCH - USP em 1998, tinha optado por conhecer um pouco mais de suas raízes orientais estudando mandarim. No entanto, com as aulas de habilitação em Português (por cursar dupla habilitação), Mei se apaixonou ainda mais pela língua nativa.

Os elos estabelecidos entre sujeitos falantes e suas respectivas línguas maternas escapam à dimensão consciente, estão arraigadas e ancoradas em sistemas estruturados e estruturantes e em ancestralidades. Como estruturas sistêmicas que já existiam antes de nascermos, apropriamo-nos delas assim que nascemos. Mas a língua se transforma aos poucos e coletivamente. Falamos e reverberamos a mesma língua de gerações que viveram antes de nós e que a mantiveram – mediante algumas variações – em movimento. A língua nos atravessa ininterruptamente (até em sonhos) e deve ser entendida em sua relação direta com a cultura”, comenta a professora sobre a relação com a Língua Portuguesa.

Mas não é só a língua que influencia a cultura e, consequentemente, quem somos. Muitas correntes filosóficas acreditam que o próprio processo sociocultural influencia no jeito que falamos e nos apropriamos do nosso idioma e vice-versa. “Por exemplo, há termos que incorporamos à nossa língua portuguesa do Brasil em função de hábitos, costumes, alimentação e vivências que nos são próprias, muito em função de nossas origens indígenas, africanas para além da influência europeia. Isso nos trouxe um léxico e até mesmo uma sintaxe diferentes do português de Portugal, do de Angola ou de Macau”, explica Mei.

A relação sensível que os diferentes povos têm com suas línguas maternas se evidenciam ainda mais na arte. Quando textos literários e poéticos, por exemplo, são traduzidos para outros idiomas, é possível perceber algumas expressões e termos que são próprios a uma cultura, revelando sua forma de conceber o mundo.

No entanto, do mesmo modo que a língua une as pessoas e ajuda na construção identitária, ela também pode servir como instrumento de “dominação e silenciamento de povos. Falamos a língua portuguesa porque milhares de índios foram dizimados, porque aos povos originários foi imposta a língua do colonizador, embora resistam até hoje. O que ainda temos em nossa língua dos dialetos africanos e indígenas, por exemplo, é fruto de muita resistência”, afirma a professora enquanto explica que acredita ser importante o reconhecimento, a valorização e a compreensão das diversidades linguísticas dentro de uma mesma língua.

Por mais que a Língua Portuguesa falada no Brasil seja riquíssima no que diz respeito às variedades, tendo em vista que em muitas localidades do país há termos próprios decorrentes de hábitos, alimentação e afins, há muito preconceito com os diferentes jeitos de falar. Sobre isso, Mei argumenta: “É sabido que algumas variações, principalmente no que diz respeito a marcas da oralidade, não são bem recebidas por uma parcela de falantes da nossa língua. Como se houvesse um purismo ou uma forma de falar mais certa ou mais errada. A língua é um sistema e todas as variações surgem obedecendo a alguma lógica que, segundo a norma culta, pode ser desconsiderada, depreciada. Mas sistemicamente há sentido em cada um dos supostos “desvios” e “deslocamentos”. Na verdade, o que temos muitas vezes é um profundo e arraigado preconceito que chamamos linguístico, mas que, na realidade, como afirma Marcos Bagno, é social (econômico, racial, de gênero etc.)”.

Professores, jornalistas, artistas, cozinheiros, filhos, irmãos, amigos, ou qualquer função que nos torne falantes da Língua Portuguesa: devemos nos reconhecer como parte fundamental de um processo. Processo este bonito e complexo que é a de construção diária do nosso idioma e a desconstrução dos preconceitos enraizados na sociedade que muitas vezes acanham as práticas linguísticas mais variadas, afinal, é isso que enriquece como falamos, como nos relacionamos, como sentimos e como vivemos.

Mei, ainda, conclui: “A dimensão identitária que a língua envolve diz respeito a quem somos, de onde viemos, como vivemos, nos comunicamos, nos organizamos, o que pensamos sobre o mundo. Tudo isso é perpassado, expresso e conformado pelas palavras, pelas línguas.”.

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A matéria acima foi editada por Laura Ferrazzano. 

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