Existem diferentes realidades e estilos de vida entre os jovens, mas, ao explorar um pouco as redes sociais, é perceptível um movimento neoconservador crescente na juventude brasileira. Um tema complexo e multifatorial que vem sendo cada vez mais discutido e estudado.
O fenômeno
Jovens da geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, vivem em um mundo que está em crise econômica e climática. Cresceram assistindo seus pais sendo explorados, estão assistindo um aumento expressivo na desigualdade social no país e possuem baixíssimo poder de compra. Também veem e ouvem que governos de esquerda não conseguem resolver os problemas.
Tantas insatisfações sócio-econômicas viram pânico moral e a consequência natural disso é a busca por uma solução rápida. É nessa onda que grupos conservadores sabem surfar como ninguém e conseguem apresentar seus ideais retrógrados como salvação aos jovens, em especial aos homens brancos.
Um estudo feito pela agência internacional de pesquisa Glocalities, que abrangeu mais de 300.000 pesquisas em 20 países, incluindo o Brasil, indicou que “sentimentos de desesperança, desilusão social e revolta contra os valores cosmopolitas explicam em parte a ascensão de partidos radicais de direita contra o establishment”.
No Brasil, ao abrir qualquer rede social, é possível ver trends virais no TikTok em jovens que escolhem priorizar o casamento e a religião são exaltados, enquanto a música Como nossos pais, da cantora brasileira Elis Regina, toca no fundo.
A problemática por trás do conservadorismo é o fato de que eles fomentam o ódio a minorias e muitas vezes culpam as lutas feministas, LGBTQIAPN+, raciais e outras pelos problemas do mundo. Além de serem autoritários e cruzarem as linhas da liberdade individual de cada um, eles representam uma recessão no tempo e na luta política social.
Esse processo é uma quebra de expectativa para outras gerações que antes, entre 2016 e 2018, viam a geração Z como jovens progressistas, que eram engajados em plataformas como Quebrando o Tabu e que levantavam movimentos como #EleNão. Contudo, “O conservadorismo nunca deixou de ser e de estar colado ao nosso DNA histórico.” declarou o professor de história, filosofia e sociologia, Alexandre Freitas Ceistutis. Logo, pode-se entender que a mudança e o engajamento de jovens progressistas nas redes sociais representou apenas um momento e não uma mudança estrutural da política brasileira. O conservadorismo só estava mais bem escondido e agora está reaparecendo através da geração Z.
Os grupos que se beneficiam com essa desesperança
A falta de perspectiva social e econômica, coloca os jovens em uma posição de vulnerabilidade, em que são facilmente manipulados por grupos que disseminam valores conservadores cristãos, como grupos de direita e a Igreja, especialmente a evangélica ou neo-pentecostal.
Nas palavras do professor Alexandre:
“Os líderes do neoconservadorismo no Brasil e no mundo, perceberam que os jovens são um grupo muito mais suscetível a determinadas informações e pautas, e utilizou isso de uma maneira muito mais intensa e efetiva que os movimentos progressistas, atraindo mais eles”.
Alexandre, que além de professor é mestre em Ciências da Religião, também destaca que a Igreja chega com a mesma estratégia através das redes sociais para atrair os jovens. A linguagem é acessível e “descolada”, a estética é contemporânea e assim, eles vão dominando o grupo.
De um lado, a direita chega para atender as necessidades sociais e econômicas, apresentando soluções rápidas e simplistas. Não é uma coincidência que grandes rostos da direita brasileira atual sejam homens jovens como Nikolas Ferreira e Kim Kataguiri, que se aproximam de suas presas com um discurso apolítico e disruptivo.
De outro lado, a Igreja chega para suprir a necessidade de socialização e o desejo por pertencimento. Com suas construções, estéticas modernas e grupos de jovens, chamam o público mais novo. As igrejas evangélicas atuais viraram um espaço social e não exatamente religioso.
O papel das redes
Todos esses planos de atratividade desses setores vêm através de diferentes meios, mas o principal, claro, são as redes sociais. Partidos políticos e figuras de direita se aproveitam de seus perfis online e dos algoritmos com maestria, e fazem seus conteúdos chegarem a milhões de pessoas com um discurso simples, um problema real e uma solução que só eles possuem.
Um exemplo recente e extremamente ilustrativo é o vídeo postado por Nikolas Ferreira falando sobre a “possível” taxação do pix que já conta com mais de 328 milhões de visualizações só no Instagram. A disseminação de conteúdos editoriais conservadores que valorizam a família e os “bons costumes” crescem cada dia mais.
Não são só os políticos ou influenciadores que usam dessa estratégia. As igrejas evangélicas modernas, ou como eles se autodenominam, “Churches”, dominam a arte da divulgação descontraída de seus cultos e dos cortes/trechos inspiradores de pastores jovens com uma música emocionante de fundo. Vivemos em uma realidade em que praticamente todas as igrejas mais novas possuem um perfil no Instagram e no TikTok, e isso não é à toa.
Toda a estratégia tem a rede social como pilar central, pois é o lugar que os jovens estão e no qual consomem basicamente tudo. Por isso, é nas mídias sociais que esse aumento do conservadorismo fica escancarado para quem quiser assistir.
Contudo, mesmo com o cenário parecendo arrasado e atrasado, a juventude também conta com membros engajados politicamente e que não acreditam na evolução através do retrocesso. A esquerda brasileira vem trabalhando para retomar seu espaço com políticos que atingem as grandes massas. Não só isso, mas há muitos influenciadores de esquerda que disseminam temas e valores progressistas. Assim, pode-se acreditar que é possível uma mudança na qual os jovens tenham acesso a conteúdos e estudos de qualidade para que formem suas opiniões políticas com afinco e com uma base sólida de conhecimento.
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Texto editado por Ana Luiza Sanfilippo
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