Você já terminou um livro pensando “por que esse homem não existe na vida real?”?
Nas redes sociais, especialmente entre leitores de romance, existe uma frase que aparece com frequência: “homens escritos por mulheres são melhores”. A afirmação costuma vir acompanhada de listas de personagens favoritos, vídeos de fãs suspirando por protagonistas literários e debates sobre o que torna esses personagens tão irresistíveis.
Mas, por que eles fazem tanto sucesso? A resposta não está necessariamente na aparência, no dinheiro ou no fato de serem incrivelmente românticos. O segredo parece estar em outro lugar: na forma como são construídos e, principalmente, na forma como se relacionam com as pessoas ao seu redor.
Eles não são perfeitos
Quando pensamos nos personagens masculinos mais marcantes da literatura escrita por mulheres, uma característica costuma aparecer com frequência: eles têm camadas.
São homens que erram, carregam inseguranças, enfrentam conflitos internos e, principalmente, demonstram sentimentos. Em vez de serem definidos apenas pela força, pelo sucesso ou pela confiança, eles também podem ser vulneráveis.
É o caso do icônico Sr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Antes de se tornar um dos maiores crushes literários de todos os tempos, ele é orgulhoso, fechado e até difícil de gostar. O que conquista os leitores é justamente acompanhar sua transformação.
A mesma lógica aparece em personagens contemporâneos que dominam as redes sociais. Eles podem ser populares, talentosos ou bem-sucedidos, mas também são inseguros, teimosos e emocionalmente complexos. Em outras palavras: parecem mais humanos.
Quando o romance encontra a segurança emocional
Existe outro aspecto que ajuda a explicar o fascínio pelos homens escritos por mulheres: eles costumam oferecer algo que vai além do romance.
Durante muito tempo, a cultura pop vendeu a ideia de que o amor precisava ser intenso para ser interessante. O homem misterioso, emocionalmente indisponível ou dominado pelo próprio ego era frequentemente apresentado como o grande protagonista romântico.
Mas, muitas autoras passaram a explorar outro caminho: em suas histórias, o relacionamento não gira apenas em torno da conquista. O foco está na forma como os personagens se relacionam depois dela. Como escutam, apoiam, respeitam limites e lidam com conflitos.
Por isso, talvez o sucesso desses personagens tenha menos a ver com perfeição e mais com segurança emocional. Eles criam espaço para que as protagonistas sejam vulneráveis sem medo de julgamento, competição ou manipulação.
Para muitas leitoras, isso não representa apenas uma fantasia romântica. Representa uma experiência afetiva que nem sempre é tão comum fora da ficção.
Não acontece só nos livros
O fascínio por personagens masculinos complexos também ultrapassa as páginas dos romances. Na música, por exemplo, Taylor Swift transformou relacionamentos, paixões e términos em narrativas que muitas vezes lembram personagens literários.
Ao longo da carreira, a cantora construiu figuras masculinas cheias de nuances: homens que decepcionam, amadurecem, deixam marcas e, em alguns casos, representam ideais românticos que conquistam os fãs.
Canções como Love Story, inspirada em Romeu e Julieta, Lover, que retrata o amor como parceria e permanência, e You Are in Love, centrada nos pequenos gestos de intimidade e cuidado, mostram como a artista transforma experiências afetivas em histórias com personagens e jornadas emocionais próprias.
Mais recentemente, em Wish List, faixa do álbum The Life of a Showgirl, Swift explora o desejo por uma vida compartilhada construída sobre afeto, estabilidade e escolhas cotidianas, elementos que também aparecem com frequência nos protagonistas masculinos que conquistam leitores.
A comparação ajuda a entender o fenômeno. Seja na literatura ou na música, histórias criadas por mulheres frequentemente exploram emoções, conflitos e dinâmicas afetivas que tornam esses personagens mais próximos da realidade, ainda que permaneçam idealizados em muitos aspectos.
O fenômeno Off Campus
Entre os exemplos mais populares da atualidade para o dito fenômeno está a série Off Campus, da autora Elle Kennedy. À primeira vista, os protagonistas parecem seguir uma fórmula bastante conhecida: jogadores de hóquei universitário, bonitos, populares e cheios de confiança.
Mas, o sucesso da série não pode ser explicado apenas pelo carisma de Garrett Graham, John Logan, Dean Di Laurentis e John Tucker. O que faz tantos leitores se conectarem com esses personagens é a forma como eles constroem seus relacionamentos.
Garrett, por exemplo, se tornou um dos personagens mais queridos do gênero não porque seja perfeito, mas porque sua relação com Hannah raramente é baseada em jogos emocionais. Mesmo carregando inseguranças e conflitos próprios, ele demonstra interesse genuíno pelas necessidades dela, respeita seus limites e cria espaço para que ela se sinta segura.
Pode parecer pouco, mas esse tipo de dinâmica ainda é relativamente raro em muitas narrativas românticas.
Talvez seja por isso que tantas leitoras se identifiquem com a série. Em um cenário cultural que frequentemente associa amor a sofrimento, instabilidade ou relações desgastantes, Off Campus apresenta personagens que erram, sentem medo e enfrentam dificuldades, mas ainda assim escolhem cuidar, respeitar e permanecer.
Nem todo homem escrito por mulher é um príncipe encantado
Mas, existe um detalhe importante: homens escritos por mulheres não fazem sucesso apenas quando são românticos ou emocionalmente disponíveis. Muitas autoras também criam personagens egoístas, frustrantes e até difíceis de defender. Afinal, parte do fascínio está justamente em acompanhar essas contradições.
O próprio BookTok está cheio de debates sobre personagens considerados verdadeiras “red flags”, que despertam tanto paixão quanto irritação entre os leitores. Isso mostra que o interesse por esses protagonistas não está apenas na idealização romântica, mas na capacidade de retratar comportamentos masculinos de forma complexa.
A escritora Elena Ferrante fez isso com Nino Sarratore, da Tetralogia Napolitana, um personagem que se tornou quase um símbolo do homem que decepciona repetidamente quem está ao seu redor. Já em romances contemporâneos, personagens como Adam Carlsen, de A Hipótese do Amor, mostram o outro lado da moeda: protagonistas que conquistam o público justamente por construírem relações baseadas em respeito, confiança e admiração mútua.
Entre as “green flags” e as “red flags”, existe um elemento em comum: personagens que parecem reais o suficiente para provocar discussão.
Por que eles continuam fazendo tanto sucesso?
Talvez porque os homens escritos por mulheres ofereçam algo que vai além da fantasia romântica. Mais do que apresentar o parceiro perfeito, essas histórias costumam explorar desejos afetivos muito reais: ser ouvido, respeitado, acolhido e amado sem precisar estar constantemente na defensiva.
Dos salões de baile de Jane Austen às quadras de hóquei de Off Campus, esses personagens continuam conquistando leitores porque representam diferentes formas de viver relacionamentos, enfrentar vulnerabilidades e construir conexões.
No fim das contas, talvez o fenômeno não fale apenas sobre homens fictícios. Talvez fale sobre o que muitas pessoas ainda procuram e, esperam encontrar, quando o assunto é amor.