No dia 8 de Março é comemorado o Dia Internacional Da Mulher, um momento para refletir sobre as conquistas femininas ao longo dos séculos e também sobre as várias histórias femininas que, durante muitos anos, foram contadas a partir de perspectivas masculinas.
Atualmente, é possível perceber que o cinema e a literatura mudaram esse olhar androcentrista, e um dos exemplos mais relevantes de serem analisados são as diferenças entre a peça Hamlet, de William Shakespeare e o filme inspirado no livro homônimo Hamnet: A Vida Antes De Hamlet, da diretora Chloé Zhao e roteirista Maggie O’Farrell.
A perspectiva masculina em Hamlet
Em Hamlet, acompanhamos o príncipe Hamlet da Dinamarca, que, enquanto enfrenta o luto pela morte do pai, busca vingança após descobrir que o assassino é seu próprio tio. A história é introspectiva, focando nos conflitos internos do protagonista e nas intrigas políticas do reino. Todos esses conflitos são mediados por homens.
As únicas duas personagens femininas da peça são Gertrude e Ofélia, com papéis típicos femininos: a mãe e a amante. Ambas não são aprofundadas, sendo constantemente massacradas pela narrativa. A cena de maior destaque de Gertrude é apenas no final do terceiro ato, quando confronta o filho em uma cena onde é humilhada.
Já Ofélia tem seu destaque na cena em que enlouquece pela morte do pai, morrendo afogada enquanto colhia flores. O foco dessas cenas não é desenvolver a figura feminina, mas sim mostrar como os personagens masculinos são afetados por tais acontecimentos. Embora presentes, elas nunca estão no centro da narrativa, sendo quase sempre associadas a papéis negativos.
A perspectiva feminina proposta por Maggie O’Farrell e Chloé Zhao em HAMNET
Séculos depois, Hamnet: A Vida Depois de Hamlet surge com uma abordagem diferente. Inspirado na história do único filho homem de Shakespeare, que morreu com 12 anos, o filme imagina como essa perda pode ter influenciado a criação de Hamlet.
Mas, ao invés de acompanhar William Shakespeare (Paul Mescal) ou focar no seu processo criativo, a obra escolhe ter Agnes Shakespeare (Jessie Buckley), mãe de Hamnet (Noah Jupe), no centro da história.
Agnes é retratada como uma mulher profundamente conectada com a natureza e a intuição. Ela possui conhecimentos sobre ervas e curas, características que a colocam à margem das normas sociais de sua época, mas também revelam sua sensibilidade e força interior. Essa ligação quase mística reforça que ela enxerga a vida e a morte de maneira diferente das outras pessoas ao seu redor.
A narrativa do filme mergulha no cotidiano dessa família e na experiência emocional da perda após a morte de Hamnet, situações que são mostradas pela perspectiva de Agnes. Em vez de grandes discursos ou conflitos políticos, a dor aparece em gestos silenciosos: seja no vazio da casa, ou na mudança na dinâmica familiar.
O contraste entre as obras revela também uma mudança na forma de como essas histórias são contadas ao longo do tempo. Enquanto Hamlet representa a tradição dramática centrada nos dilemas masculinos e conflitos da monarquia, Hamnet vem com uma releitura que valoriza os momentos domésticos e afetivos. Ter Agnes no centro da narrativa dá voz a personagens do passado, presas em estereótipos.
Em um momento como o Dia Internacional da Mulher, revisitar essas histórias também permite refletir sobre como as narrativas estão mudando, com obras contemporâneas, buscando recuperar vozes femininas que antes eram secundárias.
Hamnet está concorrendo em 8 categorias do Oscar, incluindo Melhor Direção. É válido lembrar que, em quase 100 anos de premiação, apenas 3 mulheres venceram nesta categoria, uma delas sendo Chloé Zhao em 2021. Daqui a uma semana, ela tem a chance de repetir o feito.
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The article above was edited by Eduarda Mahrouk.
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