Final de Game of Thrones: O Doce e Amargo dos Desfechos e Pontos Mais Discutidos

Após 8 temporadas de uma série que sempre trouxe consigo elementos surpresa, enredo que foge ao senso comum e construções profundas de roteiro, o sentimento final criado pelo último episódio de Game of Thrones é uma mistura de frustração e conforto. The Iron Throne não apresenta os tradicionais traços de grandeza e originalidade, tampouco é satisfatório aos que acompanham a evolução de complexidade de cada personagem desde o início.

A primeira cena mostra Tyrion Lannister (Peter Dinklage) com a expressão facial compartilhada por todos os espectadores desde os cinco minutos de Daenerys (Emilia Clarke) no The Bells: medo e incompreensão. De cara, em meios aos escombros, ele vai à Fortaleza Vermelha em busca dos corpos dos irmãos. Tomando como partida a relação difícil de idas e vindas da família Lannister, a sensibilidade e o toque humano conferido à cena passam uma sensação de conclusão para o “Halfman”, que no fundo, só queria a paz e o amor instaurado entre eles.

Do cenário triste de despedida, o capítulo vai ao poder e a força da mais nova rainha Targaryen. Sua entrada é quase que uma analogia às de Adolf Hitler, na época dos épicos discursos da Alemanha nazista. Com um semblante lúcido e vitorioso, Daenerys faz uso da língua dos dothraki para congratular a luta de seu exército e encorajá-lo a todas as outras infinitas lutas que virão. Aqui, os roteiristas David Benioff e D.B. Weiss deixam claro: não, ela não enlouqueceu de vez. E, sim, ela está convicta de que tudo o que fez era o correto e não se arrepende disso.

Em outras palavras, a imagem tão minuciosamente construída ao longo da série da personagem que libertou escravos, acolheu povos e massacrou governos opressores foi jogada no lixo. É verdade que o ocorrido já era, de certa forma, premeditado pela profecia apresentada pela segunda temporada, quando Daenerys vê na Casa dos Imortais, em Essos, o trono coberto pelo que parecia flocos de neve. Hoje, sabemos que o que caía do céu eram cinzas. Porém, isso não justifica a falta de respaldo para o breakdown da personagem, que de forma completamente aleatória e até esquizofrênica torna-se condizente com a tirania, forma de governo que ela sempre combateu.

E o pior disso tudo é que, por falta de justificação plausível, os roteiristas jogam a bomba pro público, como se ele fosse o culpado por não ter enxergado a verdadeira face da Mother of Dragons. Enquanto prisioneiro da então rainha por traição, Tyrion rebate a explicação fajuta de Jon Snow (Kit Harington) de que a chacina aconteceu em função da perda de mais um dragão e de Missandei (Nathalie Emmanuel).  “Aonde quer que ela vá, os homens maus morrem. E nós a enaltecemos por isso”, é a fala dele, tanto direcionada a Snow como ao público, numa tentativa de dizer que o telespectador foi tão ludibriado quanto as personagens da história. Com toda a certeza, Tyrion, ela sempre foi impiedosa com seus inimigos. Mas o povo de Porto Real rendido, com suas mulheres e crianças aos prantos, nunca foi um deles.

Jon Snow, por outro lado, finalmente fez a ressurreição de Melisandre (Carice van Houten) valer a pena. Em um ato rápido e aparentemente indolor, atravessou uma faca no peito de Daenerys, dando um fim ao que deveria ser o grande clímax do episódio: o verdadeiro herdeiro ao trono que mata a mulher que ama porque ela se mostra uma ameaça a todo o reino. A cena até teria sido comovente se não estivesse atrelada a um romance nada convincente e água com açúcar como o deles. Drogon, por outro lado, lança fogo contra o Trono num take de causar arrepios, dando a impressão de ter atribuído à morte da mãe a busca incansável pelo trono.

E, como se não bastasse, o desfecho da tão esperada e aclamada Guerra do Trono é feito da forma mais fácil, acelerada e simples possível. Embora “Bran, the broken” seja uma opção sensata ao trono frente às circunstâncias, o problema reside nelas. Mesmo que Jon tenha cometido traição e estivesse submetido às consequências disso, não há nenhuma consideração de que ele é Aegon Targaryen, o verdadeiro herdeiro do trono; não há evidência de que mais lords ou ladies, ou até mesmo o povo - tão em foco em um episódio e tão desfocado em outro - saibam de sua verdadeira identidade. Além disso, decidir de uma hora para outra que um reino não seguirá mais a tradicional regra de sucessão não é tarefa para uma única discussão de final de série.

Esse é um dos pontos que mais incomoda no texto de Game of Thrones: a série criou sua narrativa em torno de pontos considerados cruciais, e depois não cumpriu com o foco enunciado. A história do Rei da Noite não foi contada, The Long Night teve um final rápido demais, a busca pelo Trono de Ferro não foi profundamente desenvolvida. Com certa prepotência e até arrogância, os diretores se direcionam aos fãs passando uma sensação de que nada considerado importante tem realmente sentido.

Mas é claro que nem tudo são cinzas. Não há como negar que todos as personagens tiveram seus desfechos. Jon Snow, após ser perdoado por Bran, é sentenciado a voltar para a Patrulha da Noite. Ao lado dos selvagens na última cena, a provável atribuição de Rei Além-da-Muralha lhe coube muito bem. Sansa Stark (Sophie Turner) é a personagem que tem uma das mais lindas trajetórias de evolução e um ainda mais lindo final. Com o irmão mais novo no trono, ela torna o Norte independente e assume o comando como Rainha do Norte.

Mesmo após Arya Stark (Maisie Williams) matar um dos mais temidos vilões da série, o Rei da Noite, ainda era esperado uma outra participação grandiosa daquela que não é Ninguém (talvez até relacionado a esta habilidade). No entanto, a atitude de viajar para oeste de Westeros combina belamente com a coragem intrínseca da filha mais nova de Ned Stark. Até Jaime Lannister (Nikolaj Coster Waldau) teve direito a um fim em graciosa descrição de Brienne of Tarth (Gwendoline Christie)! Durante toda a temporada e também nesse episódio, foram vários as pontas soltas que foram amarradas, dando a sensação de um roteiro, ainda que equivocado e cheio de lacunas, concatenado.

E o que os fãs acharam de tudo isso?

O fim do Rei da Noite

Com 1 hora e 22 minutos de duração, o episódio mais longo da temporada The Dragon and the Wolf prometia uma luta interminável. A Batalha de Winterfell, a maior sequência do tipo já feito para a TV, traria finalmente a confirmação de que o inverno havia chegado. Porém, depois de cenas escuras demais e o lado dos vivos quase derrotado, o Rei da Noite cai com um truque de faca de Arya Stark e toda a ameaça termina ali. Isso trouxe a discussão entre os fãs, principalmente frente à rapidez com que tudo havia acabado.

“Esperava que o Rei da Noite fizesse algo mais interessante ao invés de só ficar olhando sem dizer uma palavra, matando e ressuscitando as pessoas. Por ele ter sido tão temido desde as últimas temporadas, ele morreu muuuuuito fácil!” diz Sheila, de 32 anos.

A morte Cersei Lannister

O destino de Cersei era, sem dúvida alguma, um dos acontecimentos mais esperados por todos os fãs. Por isso, quando viram na tela uma morte singela e humana, com uma das vilãs mais mortais da série sendo vítima de meros escombros, o público se sentiu contrariado e dividido, como se mais uma vez fossem vítimas da arrogância dos roteiristas.

“Eu acho que encenar uma morte humanizada para uma personagem que foi durante anos construída como a mais desumana de todos foi basicamente jogar no lixo o empenho da atriz e produção da série. Por mais que o plot twist tenha sido de fato inesperado, ele deixou a coisa toda com a aparência de feito às pressas, em que a personagem mais impiedosa morreu quase como um coadjuvante qualquer.”, aponta Danilo, de 20 anos.   

Azor Ahai

Uma das realizações que os fãs mais aguardavam ver era a de Azor Ahai, o guerreiro da luz profetizado por Melisandre que livraria o mundo de uma longa noite de escuridão. A série deixou essa questão aberta a interpretações, já que quem realmente deu o fim a batalha contra o Rei da Noite foi Arya, mas quem se viu forçado a matar a amada foi Jon Snow. Nada mais foi dito sobre a tão repetida profecia. Por isso, o jeito foi se basear em teorias.

“A lenda pode ser considerada uma das vítimas do ritmo acelerado da série. Porém, dada as circunstâncias, não acredito que tenha sido algo pecaminoso, como alguns fãs têm tratado a questão. Dependendo da maneira que a profecia tivesse sido executada, talvez hoje estaríamos reclamando do desperdício de Arya. Além disso, a profecia em si nunca se mostrou algo no qual os showrunners fizessem muita questão de desenvolver, diferente da lista da Arya e toda sua transformação em Ninguém. A impressão que fica é a de a lenda não passou de um mero acessório narrativo, que poderia ou não ser usado, do que propriamente o plot de série. E isso não é necessariamente ruim.”, argumenta Roberto, de 20 anos.

Bran no Trono

A resposta “Brandon Stark” para uma das perguntas que permearam a série e até está no título dela - quem ficará com o Trono - surpreendeu ao trazer um dos personagens mais inesperados para ocupar o lugar. É claro que O Corvo de Três Olhos merece seu mérito, mas a opinião dos fãs ficou dividida: ou foi uma escolha sensata e necessária, ou mais uma curta e rápida da temporada.

“Achei inesperado, porém uma boa solução para um povo, um país e uma elite destruídos física e psicologicamente pela guerra. O que foi inesperado foi a forma como decidiram o novo rei, porque o normal em GoT é todo mundo se matar. Porém, eu vi isso como algo bom e natural. Eles estavam tão destruídos pela guerra que foram pela primeira vez sensatos e pensaram no bem maior e em quem era realmente a melhor opção para governar e conseguir a tão sonhada paz. Concordo com tudo o que o Tyrion sábio demais falou”, afirma Giovanna, de 18 anos.