Desde as tensões silenciosas dos clássicos até a brutalidade e o horror psicológico das produções contemporâneas, entenda o que as mudanças do gênero do terror revelam sobre nós.
Não temos mais paciência para o medo?
Em um mundo repleto de estímulos constantes, o público se mostra menos paciente com thrillers lentos e muito mais receptivo a histórias que apostam em sustos inesperados, com efeitos sonoros e visuais intensos. Isso pode ser explicado pelas mudanças culturais e tecnológicas que vêm desde a popularização dos serviços de streaming até os formatos das redes sociais.
Se nas décadas passadas o terror em séries e filmes apostava no suspense e na tensão crescente para provocar medo — como as produções Halloween (1978) ou Twin Peaks (1990), que criavam atmosferas lentas e silenciosas, deixando o espectador desconfortável pelo que não era mostrado. Hoje, esse formato de narrativa já não parece mais prender a audiência, mas sim entediá-la e por isso, o terror contemporâneo “grita” para assustar.
No século do feed infinito, o verdadeiro terror talvez seja encarar uma série com 10 temporadas e 20 episódios de uma hora cada. Bombardeados por vídeos curtos e notificações constantes, os cérebros contemporâneos se acostumaram a consumir histórias completas em 15 segundos e agora, o maior medo dos jovens se tornou a monotonia.
Cada vez mais, produtores e roteiristas apostam em séries de terror antológicas, em que cada episódio ou temporada apresenta uma história diferente, ao invés de uma única narrativa contínua. Grandes exemplos disso são Diário de Horrores (2017), Terça do Terror (2024) e até American Horror Story (2021), que se mantém há anos no ar com o mesmo elenco, porém explorando diferentes universos a cada temporada.
Além disso, muitas produções já nascem com a proposta de se esgotarem em poucos episódios: apresentam um mistério inicial, sustentado ao longo da temporada e revelado no final.
Essa estratégia mantém o público preso até o último episódio e evita o desgaste comum em séries longas, que acabam sendo abandonadas com o tempo. Os sucessos A Maldição da Residência Hill (2018) e A Maldição da Mansão Bly (2020) são ótimos resultados dessa fórmula.
A evolução do terror
A história do gênero tem início em meados do século XVIII, no auge da literatura gótica — um período em que a Igreja era considerada luz e salvação absoluta, e tudo o que fugia à luz, ganhava a forma das trevas.
O horror se alimentava da vida após a morte, do sobrenatural e dos pecados que ameaçavam a alma. Monstros, espíritos, demônios: o medo estava no desconhecido — e, sobretudo, no que havia de obscuro dentro do próprio homem.
Com o surgimento do cinema, o terror deixou as páginas e ganhou forma, voz e rosto. O que antes habitava apenas no imaginário, passou a se materializar diante dos olhos do público, dando vida a figuras icônicas como Drácula e Frankenstein, criaturas nascidas da literatura que encontraram no audiovisual um novo modo de provocar medo.
Mas foi a partir das décadas de 1940 e 1950 que o gênero encontrou a ponte perfeita entre os temores da vida real e o fantasioso. Em meio à Guerra Fria, o mundo — e, em especial, os norte-americanos — temiam a chamada “ameaça comunista” e o poder destrutivo da bomba atômica. Foi então que obras sobre alienígenas e criaturas mutantes emergiram, explorando o medo coletivo e o pavor do “outro”: o estrangeiro e o desconhecido. Como a série The Twilight Zone – Além da Imaginação (1959), por exemplo.
Ao longo dos anos 70, figuras como Charles Manson, Ted Bundy e o “palhaço assassino” John Wayne Gacy inspiravam roteiristas e diretores de Hollywood a mergulharem no universo sombrio dos Serial Killers.
Entre 1970 e 1980, os slashers dominaram as telas e rapidamente se tornaram o subgênero mais amado entre os fãs de terror; As franquias O Massacre da Serra Elétrica (1974), Halloween (1978), A Hora do Pesadelo (1984) e até mesmo Chucky: O Brinquedo Assassino (1988) foram sucessos de bilheteria.
A estreia de Pânico, em 1996, simbolizou o ponto de virada do gênero: o público, cansado da repetição da velha fórmula do slasher, encontrou uma autocrítica inteligente no filme. Pânico brincou com os clichês — ao mesmo tempo em que os utilizava — e acabou abrindo caminhos para uma nova fase do terror.
Os anos 2000 inauguraram a era mais “pé no chão” da cultura do medo. A franquia Premonição (2000), por exemplo, vendia a ideia de que o horror poderia te alcançar mesmo na banalidade do cotidiano — afinal, “você não pode enganar a morte”.
O clássico Jogos Mortais (2004), revela outra característica marcante do terror de baixa fantasia dos anos 2000: o gore — sangues, vísceras e agonia em alta definição — Lentamente, a violência se tornou um produto lucrativo. Se antes o medo habitava no oculto, nesse momento ele passa a surgir da exposição direta da brutalidade humana.
Fato é que o medo se molda pelo contexto social e à medida que a sociedade muda. Por isso, o gênero do terror pode ser entendido como um espelho do seu tempo.
Angústias do mundo real: O que nos assusta hoje?
Seguindo essa linha de raciocínio, em resposta às mudanças sociais e tecnológicas do século 21, o terror social entra em cena. À medida que a sociedade começou a questionar suas próprias estruturas, filmes e séries passaram a satirizar ou criticar essas dinâmicas.
O terror acompanhou essa tendência, dando ínicio a um novo subgênero que utiliza elementos de suspense, e sobrenaturais, como metáforas para denunciar hipocrisias e opressão. Como nas séries Them (2021); A Queda da Casa de Usher (2023) e Black Mirror (2014).
Agora, o interesse do público parece estar em produções que exploram a mente e a fragilidade humana, em narrativas com profundidade, e não mais em compilados de cenas com sangue e violência gratuita, apenas para provocar o choque.
Hoje, o que assusta — e sempre assustou — é a maldade oculta dos homens. A diferença é que, se antes o terror procurava demônios, maldições e sombras para representar o mal, hoje ele se volta para dentro.
Por consequência, as produções contemporâneas ainda utilizam sim o sobrenatural, mas apenas como porta de entrada para explorar o psicológico. Assim, trocamos monstros e lendas por traumas, abusos e silêncios. O horror agora é íntimo e talvez por isso, pareça mais real.
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O artigo acima foi editado por Eduarda Lessa.
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