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“Favela Core” na moda: o lucro em cima de uma realidade oprimida pelo Estado

Mariane Ambrosio Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

O dia a dia da população periférica virou trend, a maneira como se vestem virou peças de passarela e dar uma volta de mototaxi pelo morro é tudo o que as blogueiras fazem quando vão para o Rio de Janeiro. Assim, um lugar de luta e precariedade tornou-se objeto de desejo para os que assistem de fora.

Desde a pandemia  de 2020, as redes sociais se tornaram grandes aliadas em relação a propagação de notícias e informações. Tudo que acontece no mundo está no TikTok no mesmo dia. Então, quando marcas usam a favela como plano de fundo para uma campanha, o óbvio acontece: essa estética viraliza.

O entretenimento e o mundo da beleza muitas vezes mascaram problemas da sociedade. No Brasil, festividades e beleza escondem os riscos da atualidade, pois, apesar de as redes sociais tornarem o acesso à informação mais fácil e rápido, os canais de comunicação ainda se mostram poderosos quando querem mascarar algo para amenizar a situação. 

Em um cenário de guerra visto recentemente nas periferias do Rio de Janeiro, é essencial refletir sobre como essa realidade é retratada em campanhas e criações no universo da moda. Uma realidade totalmente marginalizada, sendo mascarada sob a ótica daqueles que nunca precisaram viver nesse cotidiano.

O que é “Favela Core”?

A palavra “core” em inglês significa: a essência de algo. É como pegar um lugar, ou um evento ou qualquer coisa, espremer até sobrar apenas o que há de mais essencial sobre tal, os elementos chaves. Passou a ser usada como uma gíria depois do filme Divertidamente, onde em inglês, as memórias base, eram chamadas de ‘Core Memories’.

O filme trouxe a gíria, mas também uma trend para o TikTok, onde vídeos com pequenos cortes de cores, roupas, estampas, penteados e muitos outros ingredientes, caracterizam uma estética específica. Porém, no caso do “Favela Core”, que também pode ser chamado de “Brazil Core”, as características populares e os estereótipos andam lado a lado. 

Nos curtos vídeos, é possível ver que a estética típica do filme Rio ficou marcada para todos. Verde e amarelo, carnaval, fotos conceituais, acessórios coloridos, estampas e praias são os elementos que fazem parte da “core” do país. 

Representação ou apropriação?

Como toda moda cíclica, a estética do verde e amarelo começou a pegar fôlego com a Copa do Mundo de 2022, onde não só a camisa da Seleção Brasileira era usada, mas também blusas mais simples com as cores da bandeira e o nome do país. Turistas usavam, pessoas em outros países compravam e novas coleções de biquínis e blusas eram criadas, tudo em volta do Brazil Core.

“Brasil” escrito em amarelo, em um cropped verde, passou a viajar o mundo. Algo que saiu da periferia como uma solução para se mostrar torcedor de futebol sem pagar os altos preços das camisas da seleção, ganharam espaço em lojas de departamento ou de marca, porém, sem oferecer créditos e visibilidade para os originais.

Os biquínis de fita e os solários em lajes no meio das favelas tomaram conta da mídia, a ponto de virar plano de fundo para marcas de luxo produzirem campanhas para as próprias roupas, mais uma vez sem reconhecer a verdadeira realidade do local. Esse foi o ocorrido no início deste ano, em que a marca Rabanne misturou o luxo e brilho com o Funk Carioca na Rocinha, favela na zona sul do Rio. 

@stealthelook

O briefing: tributo ao funk carioca // A rabanne: não diga mais nada 🤌✨ #STEALTHELOOK #Rabanne

♬ som original – Steal The Look – Steal The Look

A campanha da Rabanne apenas confirmou a fantasia de que as comunidades são apenas festa e diversão, já que é essa a narrativa da campanha, e ajudou a impulsionar as hashtags e vídeos sobre a Favela Core, tornando a uma das estéticas mais republicadas e almejadas nas redes sociais.

A publicidade contou com 70 convidados, entre eles estavam artistas, DJs e dançarinos locais, uma oportunidade legal para visibilidade da arte de rua e Soft Power do país, o que aumenta a influência em relações internacionais e trocas comerciais. Mas apesar desses pontos positivos, o único lado que recebeu os lucros da coleção, feita em cima de estereótipos brasileiros, foi a grife francesa.

No  mesmo ano da coleção francesa lançada em 2025, um ano antes na Copenhagen Fashion Week a mistura do chique com elementos casuais brasileiros já havia virado polêmica. O item essencial e diário da população, os chinelos Havaianas, conhecido até por proteger de raios (por ser de borracha) virou objeto de luxo e desejo nas ruas e nas passarelas da CPHFW, onde era misturado com looks estilosos e chiques.

Ganhou até uma expressão: Havaianas in a Copenhagen way (Havaianas do jeito Copenhagen) e coleção especial para a cidade. Toda a sucessão de acontecimentos acabou em descontentamento dos brasileiros na internet, a sensação de roubo e apropriação tomou a população, que passou a usar mais ainda os chinelos e publicar com legendas: Havaianas do jeito brasileiro.

A estética é exaltada, mas o corpo periférico é criminalizado

O mundo da moda está lucrando com o que a sociedade marginaliza, e usa fotos conceituais para esconder a realidade de violência. Enquanto a megaoperação, nos complexos da Penha e do Alemão, visava a população periférica com suspeita de envolvimento com o crime organizado resultou em mais de 130 pessoas mortas, a Operação Carbono Oculto, que teve como alvo a Faria Lima, que também investigava possíveis suspeitos com envolvimento o crime organizado, não resultou em nenhuma perda fatal. 

A realidade da favela só é bonita na Favela Core, quando cabe nas campanhas fazendo festa e bagunça, mas quando a bagunça passa para os noticiários e o barulho vira de tiro, ela se torna indigesta.

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O artigo abaixo editado por Ana Carolina Carvalho.

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Mariane Ambrosio

Casper Libero '28

A journalism student who wants to change the world with words