Na noite de 03 de janeiro de 2026, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados pela Força Delta – principal unidade antiterrorista do exército dos Estados Unidos. Para a invasão, os estadunidenses, sob a liderança do presidente americano Donald Trump, usaram a justificativa de um suposto envolvimento do venezuelano com o narcoterrorismo.
Após ter sido capturado em Caracas, Maduro foi levado ao Centro de Detenção Metropolitano no Brooklyn. A operação militar estadunidense teve impacto humanitário e internacional, além de ter gerado debates acerca do panorama do país, com questionamentos sobre a soberania nacional e mudanças na política interna venezuelana.
SITUAÇÃO IMEDIATA
Após a captura de Maduro, sua vice, Delcy Rodriguez, assumiu o cargo de presidente interina da Venezuela. Mesmo condenando a operação, a venezuelana concordou em cooperar com os EUA. Seguindo as recomendações americanas, uma das primeiras ações adotadas pelo país foi a libertação de presos políticos, para “Consolidar a paz da República e a convivência pacífica”, como indicado por Jorge Rodríguez, irmão da atual presidente.
Como resposta às sanções aplicadas por Trump, no final de 2025, a Venezuela havia interrompido a comercialização de petróleo com o país americano. Entretanto, após a invasão, Caracas aceitou fornecer cerca de 50 milhões de barris de petróleo a preço de mercado. O republicano disse ainda que buscaria negociações para que o dinheiro obtido, pelas vendas do óleo, fosse supervisionado por ele.
Durante a operação, o exército dos EUA bombardeou diversos pontos do território venezuelano, o que provocou impactos civis e humanitários. No âmbito social, migrantes venezuelanos, aqueles que já não moravam mais no país, foram às ruas comemorar a captura de Maduro. Já na Venezuela, a festança não teve caminho, uma vez que a população tem opiniões mistas sobre o que essa intervenção significa para o futuro da nação.
Mesmo os antigos opositores de Maduro, que veem o desligamento do venezuelano como um potencial recomeço, ainda têm incertezas quanto à segurança e à soberania do país. Após dois meses do controle americano, um novo caminho tem sido pavimentado.
ATUAL CENÁRIO
Para compreender os possíveis desdobramentos da operação dentro desse cenário de incertezas políticas e econômicas, Marsílea Gombata, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (NUPRI-USP) e doutora pela USP, analisou os efeitos da atuação dos EUA e os desafios da Venezuela após a operação.
Inicialmente, o discurso do governo Trump abordava uma deliberação das questões fraudulentas e irregulares nas eleições venezuelanas, somado à crise de opioides. Porém, com o tempo, a questão do narcotráfico não foi mais abordada, praticamente saiu do debate. Segundo a especialista, por uma falta de clareza, não há indícios de como essa transição política é conduzida.
“Falaram de ‘transição’, mas não se sabe quanto tempo Delcy vai ficar no poder, quanto tempo vai durar essa tutela dos Estados Unidos”, comenta Gombata.
A democracia da Venezuela não parece ser mais uma grande preocupação do governo Trump. Apesar da Lei de Anistia, referente aos presos políticos do governo de Maduro – a qual também houve transparência sobre as abordagens do caso – o Estado americano não demonstrou mais envolvimento nas questões internas da política venezuelana.
Segundo Gombata, todas as decisões tomadas pelos EUA foram acatadas, o que, para a comunidade internacional, demonstra um forte controle norte-americano. Enquanto isso, para a base chavista, por Rodriguez ser oriunda do cenário político anterior, há uma crença de legitimidade política do governo interino, por crerem em uma força de autoridade na ideologia.
A Venezuela têm enfrentado crises democráticas desde o começo do século. Enquanto uma pequena parte do país recebe com satisfação a operação estadunidense, com a força e brutalidade que foram operadas, a outra parte enxerga com muito receio. Gombata, assim como outros estudiosos, acredita que houve negociações entre EUA e Venezuela antes da operação, “Seria muito estranho nada ter sido negociado e a gente ver essa aparente tranquilidade depois de tudo que aconteceu. Eu esperaria um cenário muito mais caótico sem essas negociações”, diz a doutora.
Já a base Chavista duvida que isso tenha ocorrido. Eles não concordam que haja algum envolvimento do governo anterior, mesmo que indireto, nas consequências das relações exteriores do país.
Além das questões ligadas à democracia da Venezuela, a partir dos anos 1970, a diversificação nos produtos de exportação da nação teve uma queda considerável. Como consequência, o país se tornou ainda mais dependente do setor petrolífero. Por ser um país rentista, a Venezuela fica à mercê dos valores do mercado internacional. Dessa forma, enquanto precisa fornecer o petróleo a um preço relativamente interessante para si, o país se torna cada vez mais dependente das imposições americanas.
“Se todos os investimentos prometidos pelo governo americano ocorrerem, podemos esperar uma recuperação da economia da Venezuela”, observa a doutora. “Ao mesmo tempo que falamos em uma recuperação econômica, falamos em um aprofundamento da dependência externa”, conclui.
Durante mais de 30 anos, o poder de compra dos venezuelanos foi minado por questões políticas. Para que haja uma estabilização econômica no país, Gombata ressalta que, além do controle da valorização do dólar, o território depende de uma vontade política e de um remodelamento do governo, pensando no futuro do país. Fato que a doutora pondera: “Eu não vejo a curto prazo para a Venezuela”.
Enquanto o país continuar sob a tutela dos EUA, sem uma real soberania, o maior risco é de tensão entre os setores do chavismo, insatisfeitos com o arranjo atual. Gombata afirma não ver um cenário de estabilidade para Venezuela. Pela dificuldade de conseguir satisfazer todas as alas sociais ao mesmo tempo, a doutora avalia um cenário de tensão no país: “O que não seria muito positivo nesse momento tão delicado, sendo controlado por um país que tem como presidente uma figura instável, que, nesse contexto, pode optar por movimentar uma nova operação dentro do território”, refletiu.
Em um panorama futuro, Gombata analisa que caberia aos países vizinhos fazer as cobranças necessárias, em uma conduta diplomática, dentro do Estado de direito, para que enfim haja uma transição política, que leve em conta a decisão do povo venezuelano. “O arranjo que se vê hoje no país não foi escolhido pelo povo Venezuelano, e isso é importante. Se queremos a restauração da democracia, temos que ter a vontade do povo respeitada”, a doutora ressalta.
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O artigo acima foi editado por Marcele Dias.
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